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Aaron Sorkin, de ‘Os 7 de Chicago’: ‘As redes são um lugar de covardes’

O roteirista e diretor americano fala sobre os perigos da internet e as correspondências de seu filme com os Estados Unidos de hoje

Por Raquel Carneiro Atualizado em 23 abr 2021, 10h02 - Publicado em 22 abr 2021, 19h21

O roteirista e diretor americano Aaron Sorkin fala sobre os perigos das redes sociais e as correspondências de seu filme Os 7 de Chicago, indicado ao Oscar, com os Estados Unidos de hoje.

Os 7 de Chicago estreou em 2020, coincidindo com uma onda de protestos nos Estados Unidos. O senhor esperava que o roteiro sobre os anos 60 refletisse a atualidade de forma tão contundente? Quando rodamos o filme, em 2019, a história já era bem relevante. Donald Trump estava no poder e tinha um discurso nostálgico sobre o que considerava um período de bonança. Essa fala estava ligada à repressão contra opositores, uma realidade de 1968.

Trump chamou os ativistas do Black Lives Matter de “terroristas”. Como analisa essa reação? Absurda e incorreta. Quando os apoiadores de Trump invadiram o Capitólio, em 6 de janeiro, ele disse: “Vocês são especiais, patriotas, amo vocês”. Os manifestantes do Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) são parte de um protesto; já os insurgentes do Capitólio fizeram um ataque à democracia. Há uma grande diferença.

No Brasil, assim como nos Estados Unidos, extremistas usam o argumento da liberdade de expressão para protestar. Quais são os limites? A liberdade de expressão existe para proteger opiniões impopulares, e não para proteger mentiras. Especialmente as perigosas, como a de que uma eleição foi fraudada, ou que a Covid-19 é inofensiva. O escritor americano Mark Twain disse que uma mentira dá a volta ao redor do mundo antes que a verdade tenha calçado o sapato. Isso nunca foi tão real como agora com as redes sociais.

Em 2010, o senhor foi pioneiro ao fazer um alerta a respeito dos perigos do Facebook em A Rede Social. Como analisa essas plataformas hoje? Minha opinião sobre o Facebook piorou. Quando eu escrevi esse filme, as redes sociais me pareciam uma fraude no que diz respeito à interação humana. Mas elas ficaram mais perigosas.

Em que sentido? Por causa da ação dos algoritmos, que eu desconhecia. Movidas pelos mecanismos de inteligência artificial, as redes entregam não a informação de que precisamos, e sim aquela que prende e provoca engajamento — ou seja, que causa medo e raiva. Sem falar que as redes se tornaram um lugar para covardes que gritam contra o mundo da segurança de seu sofá.

Hoje há um impasse entre o cinema e o streaming. Qual seu ponto de vista, agora que está indicado ao Oscar com um filme na Netflix? Só posso dizer que estou grato. Se não fosse pela Netflix, este filme seria lançado, talvez, no ano que vem. E eu queria que ele saísse antes das eleições americanas do ano passado. A Netflix foi como um barco salva-vidas com cabines de luxo e ótima comida. Ao mesmo tempo, anseio viver de novo a experiência coletiva de ver um filme no cinema.

Publicado em VEJA de 28 de abril de 2021, edição nº 2735

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