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‘A Vida Privada dos Hipopótamos’: amor, obsessão e cadeia

Por Simone Costa 28 out 2014, 16h59

Quando foi morto pela polícia em 1993, Pablo Escobar, o mais famoso traficante de drogas colombiano, deixou seu zoológico particular. Dos poucos animais que restaram ali, o casal original de hipopótamos comprados na década anterior se reproduziu e gerou um grupo de cerca de 30 descendentes que se espalharam pela região. O grupo de hipopótamos, o único a se reproduzir livremente fora da África chamou a atenção de um nerd americano, Christopher Kirk, que decidiu viajar para a Colômbia para ver de perto os animais. O documentário A Vida Privada dos Hipopótamos (Brasil, 2014), de Maíra Bühler e Matias Mariani, não é sobre a visita que Kirk fez aos animais, mas sobre como isso mudou o rumo de sua vida.

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O longa de 91 minutos traz o depoimento de Christopher Kirk preso numa penitenciária de São Paulo, onde esteve até o ano passado. Na sua vinda para Bogotá, Kirk conheceu uma garota que ele chama apenas de V. e descreve como uma linda mestiça, filha de uma colombiana com um japonês. A misteriosa V. não aparece no filme, a não ser em fotos esfumaçadas ou perfis que mal dá para vislumbrar como ela é. Por V., Kirk mudou sua vida e, como consequência, veio parar numa prisão brasileira. O público só fica sabendo detalhes sobre sua prisão no final do filme. Mas não é isso o que mais importa.

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A enredo de A Vida Privada dos Hipopótamos é muito mais sobre um homem que levava uma vida entediante numa cidade média dos Estados Unidos temendo acabar como o pai. Nas suas lembranças, o pai era uma homem que carregava uma calculadora, marcando a contagem regressiva para sua aposentadoria. Kirk não queria aquela vida com um horário fixo de trabalho, um plano de carreira e uma conta de plano de saúde para pagar. O fim da monotonia que ele tanto buscava veio com V., com quem viveu uma relação obsessiva, incluindo a invasão dos e-mails dela para descobrir quem de fato era aquela mulher misteriosa.

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O documentário de Maíra Bühler e Matias Mariani recebeu merecidamente o prêmio de melhor montagem no Festival do Rio. O roteiro não seria tão interessante sem a montagem que, além de intercalar os depoimentos de Kirk e seus amigos, brinca com imagens de lugares citados nas falas e com uma tela gigante de computador, de onde surgem e-mails, fotos, chats que corroboram as lembranças do americano. Kirk, mesmo aparentando ser tímido, fala muito bem e sabe contar a sua própria história, mas chega um momento em que sua fala sobre V. se torna um blá blá blá desses que a gente ouve quando conversa com alguém que conta acontecimentos de sua própria vida num “aí ela disse”, “aí eu respondi” entendiante.

Os depoimentos dos amigos quebram essa ladainha e dão um novo tom à história que ele conta. Eles, à princípio, dizem não compreender como o americano pode ter se metido naquela confusão, já que era tão bacana e certinho. Outros afirmam que ele não era tão inocente quanto parecia. Aliás, um dos amigos diz que Kirk é uma espécie de Pinóquio, que acredita em todo mundo e por isso acaba se prejudicando. Mas a analogia também nos leva a questionar se ele é verdadeiro ao contar sua história ou se apenas interpreta um personagem de si mesmo. O desfecho do filme nos faz ficar ainda mais em dúvida sobre quem é Kirk na realidade.

Serviço:

29/10 às 17h50 – Cine Sabesp

Rua Fradique Coutinho, 361 – Tel: (0/xx/11) 5096 0585

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