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A saga dos Braz, de Brasilândia, Brasil

'Dois Tempos' mostra as profundas mudanças obtidas em dez anos, com estudo e trabalho, na vida de uma família de periferia

Por Rafael Lemos 10 jun 2011, 19h34

Estreia nesta sexta-feira, nos cinemas, o documentário Famíla Braz – Dois Tempos, de Arthur Fontes e Dorrit Harazim, que mostra as mudanças na vida de seis personagens da periferia de São Paulo ao longo dos últimos 10 anos. Vencedor do Festival É Tudo Verdade 2011, o filme retoma a história de outro documentário, A Família Braz, gravado para a televisão em 2000. E é através desses seis brasileiros – o casal Maria e Toninho e seus quatro filhos, Anderson, Denise, Gisele e Éder – que se constroi uma narrativa palpitante das grandes transformações sociais e econômicas ocorridas no Brasil.

Em Dois Tempos, a equipe volta à casa dos Braz, situada no bairro Vila Brasilândia – nomes que podem despertar a desconfiança de que se está diante de uma relação mecânica entre a trajetória da família e a do país onde surgiu uma poderosa classe C. Não é isso o que se vê na tela. O documentário não cai na armadilha sociológica. Ao contrário. É no retrato fechado daquelas pessoas – o passado em preto e branco, o presente colorido – que está sua maior virtude. O exemplo mais emblemático é a imagem da família exibindo, orgulhosa, a frota de quatro carros – um de cada filho. Em 2000, o primeiro documentário registrava a união dos Braz para comprar um Monza modelo 1988, que ficaria com o filho mais velho.

“Não é uma trajetória linear. Eles passaram por dificuldades. nesse período, teve gente desempregada na família, a luz e o telefone foram cortados. Todos ficam impressionados com os quatro carros da família, mas se esquecem de que isso também mostra um outro lado da realidade: a deficiência do transporte público. Dez anos depois, o problema persiste. Brasilândia é uma região bem afastada e as pessoas dependem do carro para ir trabalhar na cidade”, destaca Dorrit.

A principal diferença do primeiro para o segundo filme é mudança de foco da mãe para os filhos. Dona Maria, protagonista do documentário de 2000, ainda figuira como o alicerce da família Braz, mas perde espaço na narrativa em favor das realizações dos filhos. A mãe foi a responsável por incutir nos filhos valores que os acompanhariam ao longo dos anos, como a necessidade de se aperfeiçoar e melhorar sempre. E foi exatamente essa mentalidade que deu o tom para a transformação na vida dos filhos. Embora evidentemente influenciado pelo que aconteceu no Brasil, a família ascendeu por seu próprio esforço.

Anderson, o filho mais velho
Anderson, o filho mais velho VEJA

O mais velho, Anderson, é considerado o intelectual da família. Com diploma universitário, ele conquistou relativo sucesso na carreira de corretor de seguros e é um exemplo de sucesso para os irmãos. Denise, a segunda filha, seguiu os passos do irmão e construiu uma carreira na área de vendas. Usa o dinheiro do salário e das comissões para realizar os seus desejos e os da família: viagens, cirurgia plástica, carro e, claro, estudar ainda mais. O inglês e a pós-graduação são as atuais metas da jovem.

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Com menos destaque, a Gisele estuda e sonha em ter um futuro como o dos irmãos mais velhos. Por último, o filho que mais surpreendeu nos últimos 10 anos: Éder. Nesse período, ele decidiu largar o emprego de motoboy e alçar voos mais altos. O único caminho era estudar. Inspirado por uma namorada enfermeira, ele se matriculou num curso de técnico de enfermagem e agora dá os primeiros passos na nova profissão.

O pai, Toninho, é o que menos mudou ao longo dos anos. Um mês após o fim das filmagens, ele morreu sendo o mesmo de sempre: amante de cerveja, preocupado com o sustento da família, planejando fazer melhorias na casa e trabalhando de bombeiro hidráulico sem carteira assinada.

Dois Tempos vai além das estatísticas e mostra, através de um exemplo real, como a vida do brasileiro médio mudou na última década. Uma espécie de censo cinematográfico. A inegável ascensão da família Braz no período rendeu críticas aos documentaristas de que o filme seria uma peça de propaganda do governo Lula.

“A gente ri quando escuta alguém falar que se trata de uma propaganda do governo do PT. O Lula não é dono de 10 anos. É claro que houve progresso econômico. Todos os jornais cobriram a ascensão da classe C. Mas essa família ascendeu sem ser beneficiada por nenhum programa social do governo. O tempo todo a ascensão deles está ligada à iniciativa própria, aos estudos”, argumenta Dorrit.

Veja o trailer do filme:
https://youtube.com/watch?v=9EX54XoY5nA%3Frel%3D0

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