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A prosa fantástica do Nobel Ishiguro em ‘O Gigante Enterrado’

Conhecido como um escritor de extração realista, Kazuo Ishiguro apresenta uma história em que há cavaleiros, magia e dragões - e é, sim, leitura de adulto

Por Cristovão Tezza 5 out 2017, 17h26
Divulgação/Divulgação

No vasto campo da prosa de ficção, o chamado gênero da fantasia reencontrou uma ressonância que no Ocidente só chegou a ter de fato séculos atrás. Entranhados no mundo simbólico da Idade Média, que não marcava fronteiras entre religião, ciência, mitologia e história, a imaginação e os sonhos eram por si sós caminhos respeitados de reconhecimento do mundo – na verdade, os únicos que faziam sentido. A narrativa antiga só perdeu de fato sua poderosa autoridade moral e poética quando o gênio de Miguel de Cervantes (1547-1616), com as figuras de Dom Quixote e Sancho Pança, recolocou o duro senso de realidade em cena e abriu caminho para o realismo da literatura moderna, que vem se mantendo predominante até os nossos dias. Com Cervantes, perdemos a inocência. Os contos de fadas – para resumir numa expressão o gênero – foram relegados ao mundo infantil.

No século XX, entretanto, a surpreendente obra do inglês J.R.R. Tol­kien (1892-1973), em especial O Senhor dos Anéis, publicado na década de 50, devolveu a fantasia ao trilho da literatura adulta. Era um universo que acabou por ver na contracultura dos anos 1960 e 1970 o seu perfeito habitat: a desconfiança da razão como parâmetro de todas as coisas, a fé em utopias fundadas sobre uma tábula rasa cultural e social, a deificação regressiva da natureza, o culto do exótico, o desprezo ao progresso científico e um certo escapismo messiânico. Nas décadas seguintes, como costuma acontecer, a aura original de negação e revolta foi absorvida pelo sistema de produção de riquezas. Hoje, o ideário e a estética da literatura de fantasia encontram nos efeitos especiais do cinema a sua zona máxima de conforto, além de reverberar ironicamente em meios tecnológicos de ponta, na indústria dos games.

Como ocorre com todos os gêneros, há de tudo na literatura de fantasia, desde pastichos moralizantes até refinadas recriações poéticas que procuram fazer uma ponte cultural entre as raízes mitológicas e o mundo presente. Essa ponte não é simples de erguer, pois uma das premissas do gênero é justamente a sua indeterminação histórica – as referências concretas dissolvem-se nas brumas de um passado mítico e mágico diante do qual é mínimo o poder do indivíduo, joguete de um mistério e de um destino inextricáveis. Para o leitor contemporâneo mais exigente, descontado o puro prazer narrativo, restará a alegoria poética. É esse o caso de O Gigante Enterrado (tradução de Sonia Moreira; Companhia das Letras; 400 páginas; 39,90 reais e 27,90 reais na versão em e-book), romance de Kazuo Ishiguro.

O caso é especialmente interessante porque Ishiguro, nascido no Japão mas cidadão da Inglaterra, ficou célebre com o romance Vestígios do Dia, de clássica extração realista, na rica tradição psicológica da literatura de língua inglesa. Com sua incursão na fantasia, depois de uma década sem publicar, dá uma guinada em sua própria história literária. Mas não se trata de uma revolução no gênero – todos os ingredientes tradicionais estão presentes: geografia selvagem, animais fabulosos, mistérios a desvendar, cristianismo contaminado de paganismo, guerreiros valentes, códigos de honra e missões a cumprir. Os diálogos conservam um tom solene, e a narração avança com a tranquila neutralidade estilística dos contadores de história. Fiel à linhagem inglesa, o livro mantém presentes a sombra do rei Arthur e os míticos embates entre saxões e bretões que fizeram a história da região.

O que dá o toque notadamente original é a sutileza imaginativa de seu eixo central, um casal de velhinhos desmemoriados – Axl e Beatrice – que resolve enfim sair da aldeia em que vive em busca do filho, numa viagem plena de aventuras. O relevo, entretanto, não está nos percalços, que são muitos, mas na relação dos dois, pontuada por confissões mútuas de carinho e dúvidas quanto à própria fidelidade. A falta de memória – aliás, coletiva: todos sofrem lapsos cruciais quando tentam reviver o passado – é fruto do hálito de uma velha dragoa chamada Querig. Por ironia, é a névoa de sua respiração, com suas ondas de esquecimento, que permite a pacífica convivência entre os povos inimigos, esquecidos de suas tradicionais guerras, vinganças e chacinas sem fim.

As idas e vindas do casal ao encontro do filho transformam-se pouco a pouco na reconquista do passado, ambos incertos da intensidade do amor que tiveram na vida, enquanto surgem outros personagens cruciais. Um deles é o guerreiro Wistan, cuja missão é justamente matar o dragão, o que lhe dá a consciência trágica de que, recuperada a memória, as guerras também voltarão. Seu contraponto é a figura venerável de Gawain, velho remanescente da Távola Redonda, e entre eles se acompanha um embate cortês na tradição das novelas de cavalaria. Mas o grande fio narrativo permanece nas mãos de Axl e Beatrice, vagando em direção ao passado, que afinal dará o sentido de suas vidas. A cena do barqueiro da ilha para onde ambos devem ir, uma delicada recriação de Caronte, o barqueiro de Hades da mitologia grega, é o momento alto de um romance que, do começo ao fim, pelo sopro da poesia, vai além dos limites do seu gênero.

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