‘A Odisseia’: filme de Christopher Nolan almeja ser o ‘épico dos épicos’
Cineasta aposta alto em adaptação de 250 milhões de dólares da jornada de Ulisses, história que moldou a narrativa ocidental — e que ainda causa fascínio
Um homem astuto vagueou por vinte anos longe de casa, narra o poeta Homero na monumental Odisseia. Datada do século VIII a.C., a epopeia discorre sobre a trajetória do herói grego Odisseu (ou Ulisses, na alcunha romana), rei de Ítaca e peça essencial da guerra de Troia — confronto descrito na Ilíada, também de Homero. O período abarca desde a saída de Odisseu do lar rumo ao conflito até seu longo retorno, repleto de empecilhos plantados pelo deus do mar, Poseidon: no caminho ele encontra gigantes canibais e sereias maléficas, um ciclope assassino, uma feiticeira ardilosa, entre outros entraves destinados a mantê-lo longe de sua esposa, Penélope, e do filho, Telêmaco. O épico que ajudou a moldar a literatura ocidental já inspirou diversas adaptações no cinema e na TV — e ganha na quinta-feira 16 uma versão superlativa: munido de 250 milhões de dólares, o cineasta Christopher Nolan lança A Odisseia (The Odyssey, Reino Unido/Estados Unidos, 2026) — o filme mais ambicioso de um diretor que nunca prezou pela modéstia.
Aclamado por produções de ficção científica e vencedor do Oscar pelo drama biográfico Oppenheimer, Nolan vê a nova empreitada não como uma ruptura em sua filmografia, mas como uma confirmação de repertório. “Venho contando essa história em todos os meus filmes há anos”, disse ele. De fato, não faltam em seus roteiros personagens tentando voltar para a família — caso do astronauta de Interestelar e de todos os soldados em Dunkirk —, ou em jornadas de autoconhecimento permeadas de provações, como as experimentadas por Batman na trilogia O Cavaleiro das Trevas. Nos bastidores de A Odisseia, a megalomania era regra: foram construídos cenários e embarcações realistas — inclusive uma versão em tamanho real do Cavalo de Troia, de 10,6 metros de altura —, e tudo foi filmado em IMAX 70mm, algo inédito na indústria. O elenco acompanha os excessos: os astros Matt Damon, Anne Hathaway e Tom Holland interpretam Odisseu, Penélope e Telêmaco, respectivamente. Zendaya, Robert Pattinson e Charlize Theron reforçam o time.
A epopeia trazida às telas agora dialoga bem com um mundo marcado por deslocamentos, crises e incertezas. “Na Odisseia, o heroísmo está na capacidade de sobreviver aos perigos pelo uso da inteligência e da resistência”, explica Giuliana Ragusa, professora de literatura grega na USP. “O final feliz vem da reintegração na casa, na comunidade, na cidade.” É um olhar otimista sobre a resiliência humana e sobre o que, de fato, deve ser valorizado. Embora conhecida, a trama ganha novo apelo, com a pretensão do cineasta de fazer o épico dos épicos. Algumas polêmicas precedem o filme. A escalação da atriz negra Lupita Nyong’o como Helena de Troia é uma delas, assim como referências visuais no cenário e no figurino consideradas historicamente imprecisas. Vale ressaltar, porém, que a Odisseia é uma ficção que flerta superficialmente com eventos reais — e que não há na poesia grega descrição física realista de personagens.
Seja lá qual for a lente analítica que vai escrutinar o filme — as primeiras impressões são promissoras —, ou se ele vai ser lucrativo diante de um investimento tão alto, fato é que A Odisseia de Nolan já surge como uma vitória para o cinema em si, que vem perdendo feio para o streaming. Essa não será a primeira vez que um épico é convocado para salvar a indústria. Na década de 1940, a televisão ameaçou Hollywood, diminuindo a frequência do público nas salas. Os estúdios, então, apelaram para produções caríssimas sobre civilizações antigas e personagens heroicos, dignas de serem apreciadas na tela grande. Deu-se início à era de ouro dos épicos: a adaptação bíblica Sansão e Dalila (1949), do mestre do gênero Cecil B. DeMille, bateu recorde de bilheteria; O Manto Sagrado (1953), de Henry Koster, inaugurou o formato de tela ultralarga que a TV não conseguia reproduzir; Ben-Hur (1959), de William Wyler, atingiu o auge do filão, abocanhando onze estatuetas no Oscar. É dessa época uma das adaptações mais conhecidas da Odisseia: o filme Ulisses, do italiano Mario Camerini, traz Kirk Douglas na pele do herói, com efeitos especiais rudimentares, mas notáveis para a época. No ano 2000, ensaiou-se um retorno do épico com Gladiador, seguido por Troia (2004) — adaptação da Ilíada com Brad Pitt no figurino do guerreiro Aquiles. Recentemente, uma versão mais intimista da história trazia Ralph Fiennes como Odisseu e Juliette Binoche interpretando Penélope, no filme O Retorno (2024), que imaginava como ficou a vida do casal com a volta do rei à Ítaca. A Odisseia é uma fonte inesgotável — e a viagem de Odisseu, pelo jeito, nunca chegará ao fim.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003







