A música de João Bosco que causou revolta por sua defesa descabida
Cantor e compositor completa 80 anos
João Bosco prepara um álbum comemorativo pelos seus 80 anos contendo 17 regravações e participações de outros nomes da música brasileira. Intitulado Amigos Novos e Antigos, em referência à parceria homônima com Aldir Blanc, o projeto será lançado em duas etapas: a primeira chega às plataformas em 31 de julho, e a segunda em 25 de setembro. Entre os convidados, nomes como Zeca Pagodinho, Tiago Iorc, César Camargo Mariano, Caetano Veloso, Chico Buarque e Anitta.
Em entrevista recente ao Estadão, Bosco criticou o que chamou de “identitarismo exagerado”, usando como exemplo críticas dadas à canção Gol Anulado, de 1976. O renomado compositor da MPB, de grande contribuição por letras pró-anistia, rejeitou as críticas a esta música, cuja letra narra a reação violenta de um marido ao descobrir que a esposa torcia para o Flamengo ao comemorar um gol de Zico. Um trecho é alvo de críticas por retratar violência doméstica.
Ao defender a composição, Bosco disse por que a manteve nos shows. “Canto. Eu não aceito isso. A música é uma crônica. Ela é feita dentro de um universo criativo, poético. Não é um ato institucional. Não é uma lei”.
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A questão é polêmica e logo acendeu debate nas redes sociais. João quis defender que o “eu-lírico” é voz do poema, não do autor, ao comentar que a música também é uma crônica. O “eu-lírico”de Bosco relata a agressão: “Quando você gritou ‘Mengo’ / No segundo gol do Zico / Tirei sem pensar o cinto / E bati até cansar”. O cantor e compositor não levou em consideração os avanços sobre o tema nas últimas décadas no país e os números ainda alarmantes de feminicídio.
A Lei Maria da Penha classifica como violência física qualquer conduta que ofenda a integridade ou a saúde corporal da mulher. Violência doméstica é uma violação de direitos humanos com efeitos físicos, psicológicos, sociais e econômicos. Quando a arte normaliza uma agressão, dentro da defesa de uma liberdade poética, há um perigo de se aprofundar as relações de poder patriarcais que sustentam um modelo de machismo ainda muito latente na sociedade brasileira.
Bosco erra por não contextualizar o debate sobre a canção nos dias atuais, em um país no qual a violência contra a mulher segue naturalizada em diferentes manifestações socioculturais.







