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A modelo Carol Trentini conta como é posar para grandes grifes em casa

"Sempre trabalhei cercada por equipes imensas", afirma a top

Por Carol Trentini - Atualizado em 17 ago 2020, 22h31 - Publicado em 14 ago 2020, 06h00

Sempre trabalhei cercada por equipes imensas. Uma sessão de fotos para uma revista internacional especializada chega a envolver quarenta profissionais, entre maquiador, cabeleireiro, produtor, stylist, diretor de arte, designer de joias, fotógrafo, assistentes, e por aí vai. Valorizo mais do que nunca toda essa engrenagem e as pessoas que cercam o meu ofício. Depois de ter desfilado e feito campanhas para grifes como Dolce&Gabbana, Dior, Gucci, Balenciaga, Valentino, Versace, experimentei nesta quarentena uma maneira completamente diferente de trabalhar: à moda caseira, sem nenhum glamour.

Logo nas primeiras semanas fui convidada para posar para um editorial da Vogue América, considerada a bíblia na área. Com um vestido do estilista francês Thierry Mugler, que eu tinha usado numa festa de gala em Nova York e andava esquecido no armário, maquiagem e cabelo feitos por mim e tendo meus filhos, Bento, de 7 anos, e Benoah, de 4, brincando em volta no quarto, fui clicada pelo meu marido (o fotógrafo Fábio Bartelt). Claro que isso exige um esforço de adaptação. É estimulante e serve também como válvula de escape nestes tempos tão estranhos. Assim que a pandemia apareceu, tinha acabado de chegar de viagens aos Estados Unidos e à Itália, onde participei da Semana de Moda de Milão desfilando para a marca Salvatore Ferragamo. O que me veio imediatamente à cabeça quando a situação mostrou sua gravidade é que não voltaria tão cedo a fazer qualquer coisa. Mas os convites começaram a surgir. De uma forma atípica, é verdade, envolvendo um jeito novo de trabalhar.

Depois de morar dez anos em Nova York, minha base hoje é o Balneário Camboriú. Em tempos normais, faço em média duas viagens internacionais por mês, fora os bate-voltas semanais a São Paulo. Agora, não. Sigo em isolamento — Santa Catarina ainda está numa curva ascendente de casos de coronavírus. Eu e meu marido dividimos os serviços domésticos e ajudamos nos estudos dos meninos, que são pequenos. Conciliar as produções de moda domésticas, mantendo o alto padrão, com essa rotina que nem sempre é linda, muito menos perfeita, é um desafio. Para fazer uma campanha de uma grande loja de departamentos, eu e Fábio levamos três dias trabalhando direto. Recebi pelo correio uma caixa com aproximadamente quinze roupas higienizadas e passei todas a ferro. Enquanto montávamos os looks e escolhíamos os sets em casa, me arrumava sozinha e ele me clicava — sempre com intervalos para preparar a comida e dar atenção às crianças.

Toda essa logística se repetiu quando fiz fotos para outras marcas e posei novamente para a Vogue (no mercado, fala-se que Carol é a modelo preferida de Anna Wintour, a ultrarrigorosa editora de moda que inspirou O Diabo Veste Prada). Desde que fui descoberta por um olheiro, aos 14 anos, tirando os períodos de licença-maternidade, nunca passei tanto tempo dentro de casa. Nesses meses, só saí para ir ao supermercado e fiz uma única viagem, cercada de cuidados. Foi quando, pela primeira vez na vida, participei de um desfile sem público, exibido só em plataformas digitais. Eu e uma equipe de dezoito pessoas, que normalmente seriam duzentas, nos isolamos num resort em Pernambuco durante um dia e meio. Tirava a máscara apenas na hora de exibir as peças. Foi esquisito entrar numa passarela e não sentir o calor do público (seus desfiles na Europa e nos Estados Unidos têm sempre na plateia nomes como Rihanna, Jennifer Lopez e Kim Kardashian). Dá um vazio. Mas sei que é um privilégio continuar a trabalhar num momento tão complicado como este e, de alguma forma, ainda ajudar a indústria da moda a seguir em frente.

Depoimento dado a Sofia Cerqueira

Publicado em VEJA de 19 de agosto de 2020, edição nº 2700

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