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‘A meta era agradar o Mauricio’, diz diretor de filme da Turma da Mônica

Daniel Rezende diz que sua maneira de lidar com a expectativa do público em relação a 'Laços' é sabendo que não conseguirá satisfazer o Brasil inteiro

Por Maria Clara Vieira - Atualizado em 19 dez 2018, 09h40 - Publicado em 19 dez 2018, 08h58

Depois de assinar a montagem de sucessos como Cidade de Deus, Tropa de Elite 1 e 2 e de dirigir o aclamado Bingo: O Rei das Manhãs, o diretor Daniel Rezende, de 43 anos, encara um dos maiores desafios de sua carreira: levar às telonas, em versão “carne e osso”, alguns dos personagens mais populares do país: a Turma da Mônica, criada por Mauricio de Sousa.

O primeiro trailer de Laços, divulgado na terça-feira 18, mostra os quatro protagonistas (Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão) em busca do cachorro Floquinho que, é claro, desta vez tem olhos e rabo. A produção que estreia em 27 de junho de 2019 conta ainda com o ator veterano Rodrigo Santoro no papel de Louco e Monica Iozzi como a mãe da líder da turminha. Em plena era dos live-actionsos estúdios Disney já fizeram quatro remakes com atores de animações clássicas e têm outros quatro em produção – a expectativa não é pequena. “A responsabilidade é brutal”, admite Rezende a VEJA. “Minha meta, na verdade, era agradar uma pessoa, o Mauricio de Sousa.” Abaixo, os principais trechos de sua entrevista a VEJA:

O senhor está acostumado a trabalhar em produções voltadas para o público adulto. Como foi produzir um filme para crianças? Durante as filmagens de Bingo, trabalhei bastante com crianças por causa do Cauã Martins, que fazia o filho do protagonista. Uma parte da história que acabou sendo cortada era sobre o bullying que o menino sofria na escola, e todos os figurantes eram da mesma faixa etária. Precisamos estudar como a história seria contada do ponto de vista da criança, mas nada se compara à experiência que estou vivendo. Mesmo como montador e editor, nunca gostei de me repetir. Tenho fixação por fazer o que eu não sei. O desafio de adaptar um universo que o Brasil inteiro conhece e que está no nosso imaginário coletivo era tão grande que tive que voltar à minha infância para procurar as referências. Além disso, é um filme família, não é só para criança.

Além de apresentar a obra aos mais novos, a proposta dos live-actions é revisitar personagens clássicos, já conhecidos e amados pelo público. Como é lidar com a expectativa? A responsabilidade é brutal e só tem um jeito de lidar com essa expectativa: sabendo que é impossível agradar o Brasil inteiro. Minha meta, na verdade, era agradar uma pessoa, o Mauricio de Sousa. Em todo o processo, eu pensava assim: “Se o olho do criador estiver brilhando durante o processo, se ele conseguir enxergar ali os personagens dele, não dá para acertar mais do que isso”. Tudo passou pela aprovação dele.

O Mauricio chegou a vetar alguma coisa? Não. De vez em quando, pedia alterações, especialmente em alguns traços, que são o que ele conhece bem. Os desenhos feitos pelo Cebolinha quando elaborava um “plano infalível” passaram pelo crivo dele. A aprovação do elenco, cenários e figurinos foi tranquila.

Como foi a escolha do elenco? Vocês procuraram crianças que se parecessem com os personagens? Foi a fase mais difícil do processo. Mais de 7.500 crianças se inscreveram e fizemos cerca de 2.500 testes presenciais até chegarmos às opções que apresentamos ao Mauricio. Em princípio, não procuramos características físicas, mas aos poucos elas foram aparecendo. Vimos que o Kevin (Vechiatto) tinha coisas que nos remetiam ao Cebolinha. O Gabriel (Moreira) tinha os trejeitos do Cascão: meio atrapalhado, medroso, estabanado. Já a Giulia (Barreto), que faz a Mônica, tem um carisma brutal, mas no começo tinha muita dificuldade para ficar brava. Hoje você fica até com medo dela. De modo geral, acho que fizemos boas escolhas. Nunca me esqueço do dia em que os apresentamos para o Mauricio e, ao olhar para o Gabriel, ele disse: “Nossa, quando eu criei o Cascão era exatamente essa imagem que eu tinha na cabeça”.

Foi difícil adaptar os personagens para o cinema? A graphic novel Laços, dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, na qual o filme se baseia, facilitou bastante o processo, porque se propõe a responder a pergunta que nos guiou durante toda produção: como a Turma da Mônica seria se existisse na vida real? O Mauricio se inspirou em crianças, mas criou personagens que são super lúdicos. Tentamos imaginar como as crianças seriam na realidade, então é óbvio que o Cebolinha não tem cinco fios de cabelo. O Cascão não é um garoto que nunca tomou banho – mas tem muito medo de água. Inclusive, nós testamos todas as caracterizações possíveis: os cinco fios, o cabelo só no topo. Mas parecia que aquelas crianças não eram de verdade. Algumas transposições que a gente fez para o cinema tiveram que se afastar dos quadrinhos. A prioridade era manter a essência dos personagens, e as regras do universo que o Mauricio criou estão todas no filme.

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