A fake news sobre feminicídio propagada por Juliano Cazarré na GloboNews
Ator abertamente conservador foi ao canal debater masculinidade
Criador de um polêmico encontro para “fortalecer os homens”, o ator Juliano Cazarré foi até a GloboNews nesta terça-feira, 12, para debater a masculinidade nos dias de hoje, mas propagou uma série de fake news durante a conversa. A mais famosa delas é a de que mulheres, supostamente, matariam mais os seus parceiros do que homens.
Ao falar sobre a violência no Brasil, Cazarré afirmou que o país é violento como um todo para rebater dados sobre o feminicídio no país. “Inclusive mais mulheres mataram homens do que homens mataram mulheres. Tem 2.500 homens assassinados por mulheres no período em que nós tivemos 1.500 mulheres assassinadas por homens”, atestou o cantor, divulgando dados falsos.
Amplamente desmentidos por especialistas, os números divulgados pro Cazarré surgiram em um vídeo publicado no TikTok no ano passado. A publicação afirma que, em 2024, o Brasil teve 46.328 (na verdade, foram cerca de 42 mil) homens mortos em crimes violentos. A partir disso, usa-se um percentual falsamente creditado ao IPEA de que 6% desses homicídios teriam sido cometidos por parceiras das vítimas, o que resultaria em aproximadamente 2.760 homens mortos contra os 1.500 feminicídios (assassinatos motivados por questão de gênero) registrados oficialmente no mesmo período.
O vídeo, no entanto, distorce números e mistura assassinatos passionais a crimes relacionados a violência urbana, nos quais os homens são as principais vítimas e perpetradores. O número de 6%, por exemplo, é uma estatística global de 2013, que não está relacionada à realidade do Brasil — o número total de homens mortos usado para o cálculo, além de estar incorreto, inclui vítimas de homicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e violência mortes por violência policial, o que torna a comparação com o feminicídio totalmente incorreta estatisticamente. Além do dado antigo e descontextualizado, o vídeo também omite que o mesmo levantamento mostra que, naquele ano, 40% de todos os homicídios de mulheres no mundo foram cometidos por um parceiro íntimo — bem acima dos 6%.
Dados mais recentes apontam ainda uma piora de cenário nos últimos anos: segundo a estatística mais recente da ONU, 60% de todos os feminicídios no mundo são cometidos por parceiros ou familiares das vítimas, enquanto 12% dos homicídios de homens acontecem na esfera privada. No Brasil também houve piora, com o ano de 2025 registrando recorde de feminicídios na última década.
O cenário mostra que mulheres morrem cada vez mais pelo simples fato de serem mulheres — o que torna a propagação da informação falsa de Cazarré em uma situação não apenas infeliz, mas também perigosa, que atrapalha no combate ao feminicídio. Melhor seria ensinar os homens que forte mesmo é respeitar as mulheres e usar os próprios privilégios para denunciar a violência contra quem, muitas vezes, tem a voz silenciada.





