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‘47 Ronins’ é cultura japonesa com tempero hollywoodiano e resultado indigesto

No novo longa protagonizado por Keanu Reeves, a lenda oriental dos 47 samurais sem mestre ganha tratamento de filme de ação americano e inglês é adotado como idioma oficial

Por Rafael Costa 31 jan 2014, 07h38

Transformar em filme uma história que faz parte da cultura de um país é uma tarefa delicada, em que diversos aspectos devem ser levados em consideração, como o figurino, o design do cenário e dos personagens, além da fidelidade histórica a uma determinada época e ao tema abordado. Em 47 Ronins, novo longa de Keanu Reeves, Hollywood entra em choque com uma lenda milenar japonesa por ignorar parte desses pontos, deixando-a menos oriental e mais Chinatown. Apesar da parte técnica impecável, os diálogos manjados, todos feitos em inglês apesar da localização da trama e dos olhos puxados dos atores, e uma explosão de efeitos especiais à la Matrix, um dos recursos mais explorados – e por que não dizer clichês – pelos filmes de ação americanos ajudam a explicar por que o filme do diretor estreante Carl Rinsch chega nesta sexta-feira no Brasil com números de bilheteria decepcionantes pelo mundo.

47 Ronins, como diz o nome, é baseado na lenda japonesa dos quarenta e sete ronins, como eram conhecidos os samurais que não seguiam um senhor de terras ou um mestre – mas não por escolha própria. O filme se passa no início do século XVIII e narra a história do mestiço Kai (Keanu Reeves), que, apesar de ter excelentes dotes para lutar, não é aceito pelo chefe dos samurais do reino de Ako, Oishi (Hiroyuki Sanada). Certo dia, durante um evento de luta organizado pelo lorde de Ako, Asano (Min Tanaka), o shogun Tsunayoshi (Cary-Hiroyuki Tagawa) e o lorde Kira (Tadanobu Asano) firmam um pacto com uma feiticeira (Rinko Kinkuchi) para derrubar o líder do poder e fazer com que ele cometa suicídio, além de banir todos os samurais do reino. Como reação, Oishi pede ajuda a Kai e os dois formam um exército de 47 ronins para lutar por Asano, seu falecido mestre, retomar a ordem em Ako, livrar o lugar de seres místicos como dragões e também da bruxaria.

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O enredo tem potencial: trata-se de uma lenda que de fato existe no Japão e revela muito da história e das tradições do país, mas nunca foi levada ao cinema. O grande pecado de 47 Ronins, no entanto, é ser moldado no padrão de Hollywood, que tem a sua fôrma pronta para filmes de ação. Os efeitos especiais, apesar de bem feitos e fundamentais em alguns momentos da trama, em outros são exagerados e fazem do filme quase uma ficção científica. Um desses momentos é o da luta caótica de Kai contra o exército do lorde Tengu, detentor de espadas especiais para guerra, que se transforma em algo parecido com fantasmas, o que torna a cena um tanto confusa para o espectador. Sem contar o fato de a maquiagem fazer dele um primo distante do lorde Voldemort, famoso vilão da saga Harry Potter.

A atuação mal resolvida de Keanu Reeves também decepciona. Seu jeito deprimido, mas ao mesmo tempo autoconfiante não faz o espectador se empolgar ou ter qualquer empatia por ele. O ator ainda tenta dar um ar heroico e valente ao personagem, mas acaba esbarrando em com frases de efeito e mais clichês, assim como acontece com grande parte dos diálogos da trama.

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Outro clichê de filme americano está no alívio cômico proporcionado pelo personagem Basho (Takato Yonemoto), um dos ronins, que se vale do fato de ser gordinho para impor um tom de humor e criar momentos leves na história. Como na cena em que ele está se banhando em um riacho e corre de dentro para fora da água de maneira espalhafatosa, com dificuldade devido aos quilos extra, para exaltar a chegada de Kai e Oishi no acampamento em que os ronins estão concentrados. Em muitos filmes, a estratégia acaba sendo válida, mas, nesse caso, ficou forçada e perdida no meio de todo o drama da história.

O mau uso do 3D também é um ponto negativo do longa. Assim como em algumas produções recentes, caso de Homem de Ferro 3, Homem de Aço e das animações Meu Malvado Favorito 2 e Universidade Monstros, a tecnologia faz diferença, de fato, em poucos momentos, que poderiam ser tranquilamente descartados do filme. Em São Paulo, São Bernardo do Campo e Salvador, uma boa notícia: o longa pode ser assistido também em salas 4DX, onde as poltronas simulam quedas e vibrações durante a sessão, além de contar com instalações nas paredes para reproduzir efeitos de luz, água, vento e aromas diversos. Se qualidade não é o forte do filme, como é o caso, nada melhor do que assisti-lo de uma maneira mais empolgante, como se estivesse dentro de um brinquedo de parque de diversões.

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O fato de um elenco composto quase inteiramente por japoneses falar apenas inglês também pode incomodar e fazer com que a trama perca fidelidade. Percebe-se que se trata de uma tentativa de atingir bons números de bilheteria internacionalmente e superar os 175 milhões de dólares investidos na produção. Uma tentativa fracassada, aliás. Em cartaz em diversos países desde 6 de dezembro, quando estreou no Japão, 47 Ronins faturou apenas 121,7 milhões de dólares até agora, embora já tenha aportado em grandes mercados como Canadá, EUA, Reino Unido e Rússia. O filme ainda tem lançamento previsto em seis países até abril, incluindo Brasil, Alemanha, Itália e França e pode, quem sabe, empatar o investimento.

Apesar de tudo, para quem busca um filme cheio de ação e efeitos especiais, e nada além disso, 47 Ronins pode ser um bom programa. As sequências de lutas protagonizadas por Reeves e seu exército de samurais, principalmente durante a retomada do reino de Ako, são dinâmicas e conseguem prender o espectador. Sem contar a questão técnica, que dispensa comentários, como o design impecável dos personagens, das criaturas e do cenário. Afinal, é padrão Hollywood.

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