‘100 Dias’: Amyr Klink relembra travessia histórica e dá detalhes sobre filme
Há exatos 42 anos, brasileiro completou viagem inédita pelo atlântico sul e estampou capa de VEJA
Há exatos 42 anos, o remador Amyr Klink desembarcou na Praia da Espera, na Bahia, depois de cruzar o atlântico sul a remo, em uma expedição que durou 100 dias — e fez dele a primeira pessoa do mundo a completar o feito. “Eu não tinha a menor intenção de bater recorde ou realizar o sonho da minha vida. Eu entrei nessa história quase que por acaso, mas levei tudo muito a sério”, conta ele a VEJA, que cobriu de perto a travessia.
O feito rendeu o livro best-seller Cem Dias entre Céu e Mar, base para o longa 100 dias, dirigido pelo oscarizado Carlos Saldanha. Com lançamento marcado para 29 de outubro, o filme tem Filipe Bragança na pela de Klink, e revive, através das telas, a viagem que eternizou o nome do brasileiro no mapa da navegação mundial. “Eu estou contando uma história e o Amyr está aqui, assistindo a essa história. Então, foi uma responsabilidade muito grande”, atesta Saldanha, que leu a obra do remador ainda na juventude, na década de 1980.
Se hoje todos os holofotes estão voltados para a família Klink, com milhares de pessoas acompanhando as expedições de Tamara, filha de Amyr, a situação há 42 anos era bem diferente. “Eu cheguei na praia da espera sem avisar ninguém. Não tinha GPS naquela época. Ninguém sabia onde estava o remador solitário. Os jornais da Bahia alugaram um teco teco pra me procurar. No final, quem me alcançou na Praia da Espera foi a VEJA, e acabaram fazendo uma reportagem que repercutiu muito, com uma capa linda de morrer”, relembra o remador, enaltecendo a edição histórica publicada naquela semana.
Agora, aos 70 anos, Amyr Klink volta a falar a VEJA sobre o momento marcante. Em conversa no Rio de Janeiro, o remador contou detalhes dos bastidores do filme e compartilhou as primeiras impressões sobre o filme que narra o seu feito inédito. Confira a entrevista:
Depois da repercussão da capa de VEJA de sobre a travessia, você fechou um contrato para escrever o livro Cem Dias Entre Céu e Mar. Como foi esse processo? Eu gosto muito de escrever, e não aceitei que ninguém fizesse nenhuma vírgula do texto. A empresa que bancou a edição do livro ficou possuída achando que tinha sido enganada pelo ‘maldito remador do Atlântico’. Eles botaram um advogado na minha porta por 10 meses. Toda manhã, às 8 horas, ele batia lá em casa perguntando quantas páginas eu tinha escrito. No final, o livro foi um sucesso. De todos os que eu escrevi, ainda é o mais bem sucedido.
De quem foi a iniciativa de transformar a obra em um filme? Da Marina, minha esposa. Ela queria oferecer o livro para alguém que fizesse uma produção bonita. Mas é um processo muito difícil, porque o cinema é uma indústria de muita paciência. Foram 30 anos tentando, e tem oito que começamos de fato a avançar nessa conversa. Era pra sair com o Breno Silveira, mas ele acabou falecendo, infelizmente. Foi uma proeza tudo ter se encaixado no final.
Acompanhou as gravações? Sim. Eu fui assistir a uma gravação no set e achei que o Filipe Bragança fosse morrer de hipotermia. Acho que é mais fácil atravessar o Atlântico do que ficar naquele tanque filmando, e tomando jato d’água. Mas gostei muito de ver o modo como a produção trabalhou no filme. Primeiro fazendo uma pesquisa profunda, detalhista, levantando fatos que eu já nem lembrava mais. Tem detalhes que vão do esparadrapo que eu colocava nos remos e até a cruzinha de ouro que eu levei comigo na viagem.
E quais são as suas primeiras impressões do longa finalizado? Eu gostei muito de assistir ao filme. Filmar nesse ecossistema marinho é muito difícil, então, fiquei surpreso com o realismo das imagens. A gente tinha uma réplica perfeita do barco. Tão perfeita que eu não conseguia distinguir o barco original da réplica. O Saldanha também achou um protagonista impressionante. Dependendo da foto, tenho a impressão de estar vendo a mim mesmo. O elenco todo foi muito bem escolhido.





