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“Sustentabilidade ainda não é critério de compra, mas isso está mudando”

Tiago Caravana, responsável por divulgar os vinhos do Alentejo, conta como uma iniciativa pioneira está inspirando outros produtores portugueses

Por André Sollitto Atualizado em 17 jun 2022, 00h05 - Publicado em 17 jun 2022, 09h00

A preocupação com a sustentabilidade na produção de vinhos vem ganhando espaço. Na Nova Zelândia, por exemplo, 96% de toda a área agrícola usada na produção de uvas recebe algum tipo de certificado. O Chile e a Califórnia têm programas robustos, e até o Brasil já começa a enveredar por esse caminho.

No Velho Mundo, a região do Alentejo, em Portugal, vem chamando a atenção por um projeto pioneiro que teve início há quase 10 anos, mas cujos resultados começam a ser divulgados de forma mais assertiva agora. Trata-se de uma entidade que hoje conta com 503 membros, entre vinícolas e adegas, interessados em produzir os rótulos tradicionais da região de forma mais responsável.

Tiago Caravana, da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, conversou com VEJA sobre o programa e como a iniciativa está inspirando outros produtores portugueses e europeus.

O programa de sustentabilidade dos vinhos do Alentejo é pioneiro. Como vocês deram início ao projeto?
Começamos a engendrar o programa em 2013, e ele teve início em 2015. Começamos com 91 membros, e fazíamos uma autoavaliação dos produtores. Agora, são 503 membros, de diferentes tamanhos e tipos. Há só adegas, há viticultores, a produtores que são adegas e também viticultores. E temos parcerias com instituições de fora do país, agentes agronômicos que ajudam os produtores a melhorar a produção passo a passo. Em 2017, criamos um símbolo, uma certificação. Que pode até parecer marketing, mas é uma maneira de estimular outros. Se alguém vê o vinho do lado com uma simbologia de sustentabilidade, fica curioso, até um pouco invejoso, e quer saber o que é aquilo. E só em 2018 começamos os esforços de comunicação. Enviamos alguns rótulos para análise junto com vinhos do Chile, da Califórnia, e de alguns programas da Alemanha, Itália e Argentina. E o nosso obteve nota máxima. E em 2020 a certificação deixou de ser feita pela própria entidade e passou a ser emitida por empresas credenciadas.

Quais ganhos efetivos de sustentabilidade já foram alcançados com a iniciativa?
O projeto é muito complexo e envolve 183 critérios diferentes, como meio ambiente, área econômica e social. Todos de alguma forma dizem respeito às mudanças climáticas. Não é algo do futuro. O Alentejo é uma região que já bateu recordes de temperatura em alguns verões na Europa. Por isso as alterações climáticas já cá estão. Posso dar um exemplo da água. Nosso objetivo máximo é chegar a um litro de água para cada litro de vinho produzido. Alguns estão próximos. Outros gastam 14 litros de água para cada um de vinho, e hoje gastam cinco. Isso é feito por meio de planos completos de economia circular. Uma adega trata a água residual da população próxima. Outra converte todo o material orgânico que é produzido em fertilizante, que é novamente usado nas vinhas. Também passaram a adotar rótulos de papel e rolhas com certificação FSC (Forest Stewardship Council). Em 2019, eram 16%. Hoje, são 66%.

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Herdade Outeiros Altos, vinícola que desenvolve um trabalho de agricultura biológica e integra o programa -
Herdade Outeiros Altos, vinícola que desenvolve um trabalho de agricultura biológica e integra o programa – CVRA/Divulgação

Quais foram as inspirações para esse programa? Na Europa não há muitas iniciativas do tipo.
Em Portugal somos pioneiros. Outras partes do país estão aprendendo agora conosco e querem fazer um trabalho nesta área. E somos um livro aberto. Para nós a sustentabilidade deve ser algo de todo o setor. Não podemos guardar nosso segredo a sete chaves. Queremos ensinar os outros a fazer igualmente bem. No Velho Mundo, não sei de nenhum programa semelhante. O que há é no Novo Mundo, principalmente a Califórnia. Eles foram nossa principal inspiração e abriram o livro para nós. O Chile também está na frente em planos de sustentabilidade. E no mundo há outra iniciativas regionais importantes, como na África do Sul e Nova Zelândia.

Há maior demanda dos consumidores por vinhos sustentáveis?
A evolução em geral é muito grande, mas depende do país. Os escandinavos são muito exigentes. No resto da Europa, em Portugal e também no Brasil, os consumidores já dão maior atenção, mas ainda não é um critério de escolha. Se for sustentável, melhor. Mas ele não vai à procura. Se estiver em dúvida entre dois vinhos e um deles tiver uma certificação, pode ser um fator de desempate. Mas rapidamente, com o aumento da oferta, vamos mudar isso. Hoje, temos 10 produtores certificados. Teremos mais até o final do ano.

Tiago Caravana, Diretor do Departamento de Marketing dos Vinhos do Alentejo -
Tiago Caravana, Diretor do Departamento de Marketing dos Vinhos do Alentejo – Divulgação/Divulgação

Por que vocês demoraram tantos anos para começar a promover o certificado de sustentabilidade dos vinhos do Alentejo?
Há muito greenwashing nessa matéria, e quisemos sempre fugir. Por isso só agora estamos falando sobre isso. Mas agora temos dados reais que podemos mostrar. Recebemos prêmios nacionais e internacionais. Os produtores se contiveram, mas querem e gostam de mostrar o que estão fazendo. É um momento recompensador ver que aquilo é uma causa. Hoje, temos 10 produtores com a certificação, mas até o final do ano vamos aumentar ainda mais essa oferta. E com isso mais gente vai ficar imbuída dessa filosofia.

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