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Quando a tela passa do limite: o celular não quer apenas seu tempo, mas também sua atenção

Livro lançado hoje revela estratégias das plataformas para manter usuários conectados e discute o excesso das telas para crianças e adolescentes

Por Simone Blanes Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 ago 2026, 14h26 | Atualizado em 21 ago 2026, 11h24
Quando a tela passa do limite: o celular não quer apenas seu tempo, mas também sua atenção Priorizar nos meus resultados Google

A infância e a adolescência ganharam uma nova medida de tempo: aquela que aparece no canto da tela do celular. O problema é que, para muitos jovens, esse relógio corre mais rápido do que deveria. Não se trata apenas de quantas horas são gastas diante de um aparelho, mas do que acontece quando a atenção passa a ser disputada por notificações, vídeos curtos, recomendações personalizadas e mecanismos desenhados para manter o usuário conectado.

No Brasil, os próprios adolescentes já percebem que perderam parte do controle. Segundo a pesquisa “Adolescência Sem Filtro”, realizada em junho deste ano pelo Instituto Alana em parceria com a agência Koga, 50% dos jovens de 13 a 17 anos afirmam passar mais tempo online do que gostariam. Quase oito em cada dez ficam conectados por mais de três horas diariamente, enquanto 15% ultrapassam oito horas. Cerca de 40% dizem estar mais dependentes do celular e da internet do que há dois anos, proporção semelhante à dos que relatam perda de qualidade do sono e de tempo dedicado aos estudos. A ansiedade durante o uso é mencionada por 22%.

Os números ajudam a deslocar a discussão. Tempo de tela deixou de ser apenas uma questão de disciplina doméstica ou de estabelecer limites para o celular. Para crianças e adolescentes, a exposição prolongada às plataformas pode se misturar a sono insuficiente, dificuldades de concentração, ansiedade, comparação social e sensação de dependência.

É nesse ponto que ganha força o debate sobre o chamado “extrativismo da atenção”, difundido por Tristan Harris, ex-especialista em ética de design do Google e cofundador do Center for Humane Technology, que parte de um princípio simples: se atenção pode ser convertida em dados, engajamento e, consequentemente, dinheiro, existe um incentivo econômico para mantê-la presa pelo maior tempo possível. Ou seja, rolagem infinita, reprodução automática, notificações, contagem de curtidas e recomendações personalizadas não são necessariamente recursos neutros, mas sim fazem parte de uma arquitetura pensada para tornar o próximo clique mais fácil do que sair.

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Nos Estados Unidos, essa discussão chegou aos tribunais. A Meta, dona de Facebook e Instagram, enfrenta processos relacionados aos possíveis impactos de suas plataformas sobre crianças e adolescentes e às alegações de que a empresa teria conhecimento de riscos associados ao uso de seus produtos. O caso colocou no centro da discussão uma pergunta que extrapola a tecnologia: até que ponto empresas devem responder pelos efeitos de mecanismos desenvolvidos para capturar e prolongar a atenção?

A preocupação não se restringe aos mais jovens. Um levantamento realizado em 2024 pelo The Harris Poll com 1. 006 adultos da geração Z nos Estados Unidos mostrou que 60% passavam pelo menos quatro horas por dia nas redes sociais, enquanto 22% chegavam a sete horas ou mais. Embora diversão e conexão ainda estejam entre as principais associações com as plataformas, 82% relacionavam seu uso à ideia de dependência e 59% consideravam que as redes haviam produzido impacto negativo sobre sua geração.

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O peso da IA

A inteligência artificial acrescenta uma nova camada ao problema. Quanto mais uma plataforma conhece os hábitos de uma pessoa, mais consegue selecionar aquilo que tem maior probabilidade de prender sua atenção. Para crianças e adolescentes, ainda em processo de desenvolvimento emocional e cognitivo, essa personalização pode tornar especialmente difícil interromper o ciclo.

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A questão é particularmente delicada quando o usuário ainda é criança. Pais e educadores costumam tentar controlar o número de horas diante das telas, mas a discussão também precisa considerar o que a criança está fazendo, por que continua ali e como se sente depois de desligar o aparelho. Uma hora de conversa com amigos, uma aula, um jogo criativo e uma sequência automática de vídeos podem ocupar o mesmo espaço no relatório de uso do celular, mas produzem experiências completamente diferentes.

1 Minuto de Sua Atenção

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E é nesse universo que os autores Erick Benikes Carlier e Kim Loeb exploram em “1 Minuto de Sua Atenção”, livro lançado nesta quinta-feira, 20, no Brasil pela Editora Voo. Voltado a leitores a partir dos 13 anos, além de pais e educadores, usa histórias, experimentos, metáforas e humor para explicar como funcionam alguns dos mecanismos empregados pelas plataformas e apresentar estratégias para recuperar autonomia diante das telas.

Carlier, que trabalhou por mais de 15 anos com comunicação e marketing de grandes corporações, acompanhou de perto as estratégias de audiência e engajamento das plataformas. “Foi ali que conheci, por dentro, as engrenagens de audiência e engajamento”, afirma. A experiência acabou levando à investigação sobre os mecanismos capazes de transformar atenção humana em ativo econômico.

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O livro identifica 11 técnicas de design associadas à captura da atenção e propõe caminhos que vão além da simples proibição do celular: mudanças de hábitos, acordos familiares, ações coletivas e novas regras para as plataformas. A publicação reúne 98 fontes, entre estudos acadêmicos, livros, relatórios e materiais jornalísticos e de organizações especializadas.

A discussão, porém, não deveria transformar a tecnologia em vilã. Redes sociais também são espaços de convivência, informação, entretenimento e pertencimento — especialmente para adolescentes. O ponto de atenção está no momento em que a ferramenta deixa de ser escolhida e passa a conduzir o comportamento.

Para as famílias, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “quantas horas meu filho ficou no celular hoje? ”. É também: ele conseguiu parar quando quis? Dormiu bem? Estudou? Brincou? Conversou? Ficou ansioso quando estava longe da tela? Porque, quando a tecnologia começa a determinar, além da conexão exagerada, como ela dorme, se concentra, se relaciona e se sente, o assunto deixa de ser simplesmente tecnologia. Passa a ser saúde mental.

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