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Precisamos de outras referências para o sexo, diz autora francesa

No Dia do Orgasmo, designer de videogame que escreve sobre o tema aposta na educação e na diversidade para superar disfunções

Por Alessandro Giannini Atualizado em 1 ago 2022, 11h43 - Publicado em 31 jul 2022, 07h00

Celebrado em 31 de julho, o Dia do Orgasmo é uma oportunidade para se discutir um produto do sexo ainda cercado por muitos tabus, principalmente quando o debate envolve diferenças de gênero. Sabe-se, por exemplo, que 55,6% das mulheres brasileiras não conseguem atingir o orgasmo, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) da Universidade de São Paulo (USP). No livro The Case of the Female Orgasm, uma análise de 33 estudos feitos ao longo de 80 anos mostrou que 80% das mulheres têm dificuldade de chegar ao clímax em relações sexuais vaginais – com penetração. Diante dessa realidade e de suas próprias experiências íntimas, uma designer de jogos eletrônicos francesa resolveu desenhar – literalmente – outras possibilidades e, a partir de 2018, publicou as ilustrações em uma conta no Instagram, @jouissance.club. O que começou como uma diversão se tornou um livro, o Clube do Orgasmo (Intrínseca), que acaba de ser publicado no Brasil.

Com uma linguagem solta e sintonizada na prosa e na prosódia das redes sociais, aliada a desenhos de traços finos, coloridos e muito elucidativos, Jüne Plã propõe ao leitor sair da zona de conforto e imaginar, por um instante, como poderia ser o sexo se a penetração fosse apenas uma opção entre tantas outras. Em resumo, ela mostra que há um mundo de possibilidades não exploradas na relação a dois, além de desfazer mitos cristalizados pelo senso comum, pelo machismo estrutural, pela indústria pornográfica e até pelo cinema. “O que proponho nesta obra é, nada mais nada menos, do que uma breve lição de anatomia, acompanhada de uma cartografia das múltiplas zonas de prazer das duas genitálias, e um inventário de movimentos que provocaram reações de prazer, orgasmo ou gozo, catalogados ao longo de anos com pessoas maiores de idade que deram seu consentimento” escreve ela em um dos capítulos introdutórios.

Para a autora, o cinema e a indústria pornográfica alimentam boa parte das disfunções sexuais que atingem homens e mulheres no mundo contemporâneo. A exposição contínua a imagens, cenários e representações idealizadas de sexo pode treinar o cérebro das pessoas a imaginar que vivenciarão situações semelhantes na vida real. E quando a realidade se impõe de outra forma, a frustração se instala. Os pornôs, ao mostrar corpos esculturais e relações intensas. O cinema, ao mostrar casais apaixonados que invariavelmente atingem o ponto alto juntos. “É por isso que precisamos de algumas outras referências, porque o que nossos olhos veem, o que nossos olhos são treinados para ver, é o que confundimos com uma relação em algum momento”, disse ela a VEJA, em entrevista por vídeo.

A designer de videogames e escritora Jüne Plã, autora de 'Clube do Orgasmo' -
A designer de videogames e escritora Jüne Plã, autora de ‘Clube do Orgasmo’ – Editora Intrínseca/Divulgação

Na pandemia, ela avalia que as pessoas foram afetadas profundamente em suas relações. Os casais porque foram obrigados a uma convivência incessante, e as pessoas que vivem sozinhas porque tiveram que recorrer aos vídeos, ao chamado “sexting” (mandar mensagens de cunho sexual por aplicativos de comunicação) e aos brinquedos sexuais para se satisfazer. “Acho que esse movimento não foi para encontrar sexo, foi talvez para sentir um ser humano ao redor, porque estávamos tão sozinhos em nossos pequenos apartamentos, que talvez, sim, precisássemos criar uma ligação com alguém”, disse ela. “Espero que as pessoas que tiveram interação interação sexual virtual nesse período tenham chance de se encontrar em algum momento, porque deve ser muito frustrante.”

Há várias maneiras de remediar esses problemas, segundo Plã. Uma delas é a educação. A designer especializada em videogames, que atualmente trabalha em um jogo de sexo com realidade virtual, afirma ser muito importante que as escolas, principalmente as de ensino médio, se envolvam nesse processo, até para mostrar que a sexualidade real não tem nada a ver com a reproduzida em várias áreas da indústria cultural. Outra, é incentivar a diversidade de vozes artísticas e suas representações. Isso significa, por exemplo, valorizar escritores de vários gêneros na literatura e diretores igualmente representativos no cinema. “A maior parte das imagens representativas de sexo e sexualidade foi criada por homens”, disse ela. “Agora, é hora de ver mais representações. Mudar essas imagens pode também transformar toda visão de sexualidade que temos hoje.”

Capa do livro 'Clube do Orgasmo', de Jüne Plã -
Capa do livro ‘Clube do Orgasmo’, de Jüne Plã – Editora Instrínseca/Divulgação

No filme “Boa Sorte, Leo Grande”, a personagem de Emma Thompson, uma professora britânica que fica viúva do único homem com quem teve intimidade na vida, contrata um garoto de programa para uma noite de prazer e descobertas. Logo no primeiro encontro com o jovem rapaz, interpretado por Daryl McCormack, ela revela que nunca teve um orgasmo. Em outra “sessão”, faz uma lista de missões sexuais a cumprir com o parceiro, mas não inclui “o grande O”. Ele, então, lhe diz: “Bem, é um orgasmo, sabe? Não é um ovo Fabergé. As pessoas os têm todos os dias”.

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