Por que a mostra sobre a Tapeçaria de Bayeux atrai multidões na Inglaterra
Ela renova fascínio pela relíquia que seduziu Napoleão e Hitler
Na segunda metade do século XI, um imenso tapete de 68 metros de comprimento, adornado por milhares de desenhos costurados em nove painéis de linho, deixou a Inglaterra rumo à Normandia. Confeccionado na era medieval, o artefato ficou esquecido por anos e só foi redescoberto na França no século XVIII, durante o inventário de uma igreja. Agora, 950 anos após deixar as terras inglesas pela primeira e última vez, a Tapeçaria de Bayeux, como ficou conhecida, está de volta para uma badalada mostra que acaba de estrear no Museu Britânico e é um fenômeno antecipado de público: mais de 100 000 ingressos já foram vendidos, o que significa entradas esgotadas até o final do ano.
O fascínio pela relíquia é compreensível — a começar por seu formato pitoresco e pela logística que seu retorno à Inglaterra requereu. Quando estendida, a peça tem o comprimento de um Boeing 747. O empréstimo negociado entre os governos britânico e francês só foi possível graças ao maior seguro já feito por uma obra de arte, na casa dos 800 milhões de libras (ou 5,6 bilhões de reais). A tapeçaria atrai curiosidade, sobretudo, por seu valor histórico: antes de virar blockbuster, afinal, ela foi testemunha das disputas que ajudaram a formar a Europa como a conhecemos hoje.
Parte da cultura popular, com aparições em produções como Game of Thrones, o bordado é dividido em 58 cenas. O conjunto retrata o período de 1064 a 1066, quando a campanha e posterior conquista normanda mudou a história da Inglaterra, com a derrota do rei anglo-saxão Haroldo II pelo duque Guilherme da Normandia — cujos descendentes ocupam, até hoje, o trono inglês. “É o lado francês da história da minha família”, disse o rei Charles II ao receber a tapeçaria no país. “Há 1 000 anos, a obra representava uma travessia que mudou a história. Hoje, ela atravessa o canal por um túnel que construímos juntos”, completou o presidente francês Emmanuel Macron, exaltando a colaboração entre as nações na criação do Eurotúnel, sob o Canal da Mancha.
Mais importante registro visual de sua época, a tapeçaria é amplamente estudada como narrativa histórica e artística. Numa das cenas, a tropa de Guilherme, o Conquistador aparece navegando rumo à Inglaterra para a Batalha de Hastings, que selou o fim do domínio anglo-saxão na região. Escolhido por nobres ingleses como monarca depois que Eduardo, o Confessor morreu sem deixar herdeiros, Haroldo II governou por apenas oito meses, até ser deposto pelo duque Guilherme da Normandia, que invadiu a região com um exército de 8 000 homens e 700 navios sob a alegação de que o rei Eduardo, seu primo, havia lhe prometido a coroa antes de morrer.
O culto à tapeçaria também se alimenta dos mistérios que a cercam. Até hoje, a autoria é motivo de debate, mas os historiadores tendem a concordar que ela foi encomendada pelo bispo Odo de Bayeux, meio-irmão de Guilherme, o Conquistador, e confeccionada por bordadeiras inglesas. “Isso faria dela um objeto de legitimação e de comunicação da conquista para uma população que ia além dos normandos”, explica o historiador brasileiro Paulo Christian Martin Marques da Cruz, cujo doutorado é dedicado à obra. Muito se discute, ainda, sobre o fato de a peça parecer inacabada, como se o trecho final estivesse faltando. A ideia mais aceita é a de que o desenho se encerraria com a coroação de Guilherme I. “Uma das hipóteses é que esse trecho tenha sido retirado pelas pessoas que a confeccionaram, como uma forma de apagamento da legitimidade dos normandos em relação ao trono”, explica o pesquisador da Unifesp.
O uso nacionalista da obra não terminou ali. Na França do século XIX, Napoleão Bonaparte a exibiu no futuro Louvre como forma de arrecadar verba para suas campanhas. Mais tarde, o nazista Adolf Hitler a enalteceu como suposta prova de que os normandos descendiam de germânicos para justificar os planos expansionistas do Terceiro Reich. Na II Guerra, os alemães inclusive tentaram surrupiar a tapeçaria, mas a França foi libertada antes que isso fosse consumado. No entanto, os nazistas conseguiram se apoderar de dois fragmentos dela, que só foram devolvidos à França no início deste ano. Mais um capítulo desse mistério sem fim se desenrola agora.
Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013





