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Por que a mostra sobre a Tapeçaria de Bayeux atrai multidões na Inglaterra

Ela renova fascínio pela relíquia que seduziu Napoleão e Hitler

Por Amanda Capuano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 set 2026, 08h00
Por que a mostra sobre a Tapeçaria de Bayeux atrai multidões na Inglaterra Priorize VEJA no Google

Na segunda metade do século XI, um imenso tapete de 68 metros de comprimento, adornado por milhares de desenhos costurados em nove painéis de linho, deixou a Inglaterra rumo à Normandia. Confeccionado na era medieval, o artefato ficou esquecido por anos e só foi redescoberto na França no século XVIII, durante o inventário de uma igreja. Agora, 950 anos após deixar as terras inglesas pela primeira e última vez, a Tapeçaria de Bayeux, como ficou conhecida, está de volta para uma badalada mostra que acaba de estrear no Museu Britânico e é um fenômeno antecipado de público: mais de 100 000 ingressos já foram vendidos, o que significa entradas esgotadas até o final do ano.

O fascínio pela relíquia é compreensível — a começar por seu formato pitoresco e pela logística que seu retorno à Inglaterra requereu. Quando estendida, a peça tem o comprimento de um Boeing 747. O empréstimo negociado entre os governos britânico e francês só foi possível graças ao maior seguro já feito por uma obra de arte, na casa dos 800 milhões de libras (ou 5,6 bilhões de reais). A tapeçaria atrai curiosidade, sobretudo, por seu valor histórico: antes de virar blockbuster, afinal, ela foi testemunha das disputas que ajudaram a formar a Europa como a conhecemos hoje.

BLOCKBUSTER - A exibição: ingressos esgotados e seguro recorde de 5,6 bilhões de reais
BLOCKBUSTER – A exibição: ingressos esgotados e seguro recorde de 5,6 bilhões de reais (Jonathan Brady/PA Images/Getty Images)

Parte da cultura popular, com aparições em produções como Game of Thrones, o bordado é dividido em 58 cenas. O conjunto retrata o período de 1064 a 1066, quando a campanha e posterior conquista normanda mudou a história da Inglaterra, com a derrota do rei anglo-saxão Haroldo II pelo duque Guilherme da Normandia — cujos descendentes ocupam, até hoje, o trono inglês. “É o lado francês da história da minha família”, disse o rei Charles II ao receber a tapeçaria no país. “Há 1 000 anos, a obra representava uma travessia que mudou a história. Hoje, ela atravessa o canal por um túnel que construímos juntos”, completou o presidente francês Emmanuel Macron, exaltando a colaboração entre as nações na criação do Eurotúnel, sob o Canal da Mancha.

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Mais importante registro visual de sua época, a tapeçaria é amplamente estudada como narrativa histórica e artística. Numa das cenas, a tropa de Guilherme, o Conquistador aparece navegando rumo à Inglaterra para a Batalha de Hastings, que selou o fim do domínio anglo-saxão na região. Escolhido por nobres ingleses como monarca depois que Eduardo, o Confessor morreu sem deixar herdeiros, Haroldo II governou por apenas oito meses, até ser deposto pelo duque Guilherme da Normandia, que invadiu a região com um exército de 8 000 homens e 700 navios sob a alegação de que o rei Eduardo, seu primo, havia lhe prometido a coroa antes de morrer.

CRISE SUCESSÓRIA - O rei Eduardo, o Confessor: monarca morreu sem deixar herdeiros e abriu caminho para a invasão
CRISE SUCESSÓRIA - O rei Eduardo, o Confessor: monarca morreu sem deixar herdeiros e abriu caminho para a invasão (Hulton Archive/Getty Images)
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O culto à tapeçaria também se alimenta dos mistérios que a cercam. Até hoje, a autoria é motivo de debate, mas os historiadores tendem a concordar que ela foi encomendada pelo bispo Odo de Bayeux, meio-irmão de Guilherme, o Conquistador, e confeccionada por bordadeiras inglesas. “Isso faria dela um objeto de legitimação e de comunicação da conquista para uma população que ia além dos normandos”, explica o historiador brasileiro Paulo Christian Martin Marques da Cruz, cujo doutorado é dedicado à obra. Muito se discute, ainda, sobre o fato de a peça parecer inacabada, como se o trecho final estivesse faltando. A ideia mais aceita é a de que o desenho se encerraria com a coroação de Guilherme I. “Uma das hipóteses é que esse trecho tenha sido retirado pelas pessoas que a confeccionaram, como uma forma de apagamento da legitimidade dos normandos em relação ao trono”, explica o pesquisador da Unifesp.

O uso nacionalista da obra não terminou ali. Na França do século XIX, Napoleão Bonaparte a exibiu no futuro Louvre como forma de arrecadar verba para suas campanhas. Mais tarde, o nazista Adolf Hitler a enalteceu como suposta prova de que os normandos descendiam de germânicos para justificar os planos expansionistas do Terceiro Reich. Na II Guerra, os alemães inclusive tentaram surrupiar a tapeçaria, mas a França foi libertada antes que isso fosse consumado. No entanto, os nazistas conseguiram se apoderar de dois fragmentos dela, que só foram devolvidos à França no início deste ano. Mais um capítulo desse mistério sem fim se desenrola agora.

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Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013

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