O ‘true crime’ cai nas graças do público feminino: sangue, tiros e crueldade
Pesquisas indicam que elas dominam a audiência de documentários, séries e podcasts sobre crimes
O gênero true crime, dedicado à reconstituição de crimes reais, especialmente aqueles marcados por violência extrema e grande repercussão midiática, vive um período de enorme popularidade. De podcasts independentes e canais despretensiosos no YouTube a documentários e séries produzidos pelos principais serviços de streaming, esse tipo de conteúdo conquista audiências cada vez maiores. Entre os consumidores, porém, um grupo chama atenção: as mulheres. Diversos estudos indicam que elas representam a ampla maioria do público do true crime, com estimativas que variam de 70% a 93% da audiência. Mas o que explica esse interesse?
Segundo uma pesquisa conduzida por acadêmicos da Universidade de Graz, na Áustria, as mulheres demonstram maior interesse por conteúdos relacionados a crimes reais por uma razão principal: vigilância defensiva. O estudo foi publicado no prestigioso British Journal of Psychology e aponta que elas recorrem às produções do gênero como uma forma de ampliar seu conhecimento sobre esse tipo de violência, compreender melhor como os crimes ocorrem e se há sinais que podem ajudá-las a evitar incidentes.
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“Tem algo que é muito forte, que é o interesse em conseguir uma percepção sobre a forma que essas pessoas (criminosos) agem, até para conseguirmos identificar e evitar que isso aconteça com a gente”, diz a nutricionista Joyce Martins, 26. “Acredito que seja uma forma da gente ficar ligada, perceber determinados tipos de comportamento. Para mim, o true crime me deixou mais alerta sobre as pessoas”, completou.
Depoimento semelhante vem da estudante Isabelle Denair, 22, que conta ter adaptado comportamentos corriqueiros em sua rotina a partir dos “aprendizados” oriundos das produções sobre crimes. “Nunca marco um date se não for em lugar público, porque fico com medo da pessoa ser um psicopata ou algo do tipo. Sempre tenho o cuidado de sentar ou ficar próxima de mulheres, ou de locais que estão sempre cheios”, diz Isabelle, que afirma assistir ao conteúdo pensando no que fazer caso seja uma das vítimas.
A existência de um público consumidor majoritariamente jovem e feminino é confirmada pela jornalista Erika Miranda, 28, que produz conteúdo sobre true crime no podcast Casos Reais. “Tenho em torno de 300 mil seguidores no Spotify, e 79% do público que me ouve é composto por mulheres entre 18 e 27 anos. É um público jovem e quase 80% feminino. Às vezes, tem meses que chega a uma porcentagem maior do que essa”, conta. Ela diz entender que a empatia também ocupa um papel de destaque no interesse feminino, com muitas mulheres se colocando no papel da vítima e se compadecendo pela tragédia retratada.
Para a psicanalista Carol Tilkian, as produções oferecem um ambiente controlado para que o público exercite estratégias de regulação emocional, aprendendo a lidar com medos, ansiedade e situações de risco sem estar exposto a um perigo real. “É como se a gente, na cena controlada da ficção, se sentisse menos exposta. Mas é importante falar que isso é um movimento inconsciente, é uma tentativa de dar vazão às angústias”, diz ela.
Nesse contexto, não é surpresa que as mulheres sigam se engajando em tais produções. Na edição de 2025 da CrimeCon, a maior convenção de true crime dos Estados Unidos, 75% do público presente era composto por mulheres. Já um levantamento da empresa de inteligência de mercado CivicScience indica que pelo menos 26% de todas as mulheres americanas consomem conteúdos do gênero.
Seja como for, o mercado já entendeu o comportamento e a existência dessa demanda, e a tendência é que novas produções do gênero continuem chegando a todo vapor. Recentemente, a Netflix causou burburinho com o lançamento do filme Elize: Sombras de uma Mulher, abordando o assassinato de Marcos Matsunaga por sua esposa, e as próximas produções incluem The Murder of JonBenét Ramsey, série que contará a misteriosa morte de uma miss mirim, e Os Crimes da Mega-Sena, que revisitará a morte dos vencedores do famoso prêmio.






