O que a bela exposição de Renoir em Paris revela sobre o amor na arte
Pintor foi decisivo ao tirar a aura idealizada dos laços afetivos e exibi-los na ebulição dos cafés
No caminhar da história, os artistas conduziram o pincel sob as luzes de seu tempo, deixando transbordar nas telas o mundo à sua volta e extravasando potentes sentimentos. O amor ganhou assim diferentes leituras, a depender da intensidade dos ventos que sopravam a cada época. Lá atrás, os gregos produziram representações mitológicas envoltas em erotismo e deixaram como legado uma profusão de cupidos, símbolo da atração irresistível, porém, despida de pecado, em uma era na qual a sexualidade era vista como desdobramento natural do ato de existir. Aí veio a Idade Média e com ela toda a força do cristianismo, período em que as vontades carnais acabariam rebaixadas a um degrau inferior, enquanto a paixão era elevada ao mais celestial dos planos. É o que exprime quadros como o famoso O Casamento Místico de Santa Catarina, do italiano Michelino da Besozzo (1370-1455), em que o Menino Jesus candidamente leva um anel ao dedo da santa, como um casamento espiritual. O Renascimento fez o globo girar tantas vezes que eis que o corpo voltou a tomar contornos humanos — e dá-lhe músculos, veias e curvas. Faltava, no entanto, trazer os laços afetivos à terra firme, uma virada extraordinária que a modernidade se encarregou de dar.
Em tudo distintas, essas joias singulares de variadas fases, abrigadas hoje nos melhores museus do planeta, têm um ponto de união: elas tratam do amor sob um ângulo idealizado, seja pelo componente mitológico, seja pela atmosfera onírica que as cerca. Foi só quando a humanidade aterrissou no século XIX, já com o embalo do Iluminismo e vendo vicejar uma vigorosa burguesia, que a vida dos enamorados, agora sob a moldura de espaços públicos, adentrou as telas para valer. E o grande motor veio dos impressionistas, aquela turma que agitou Paris ao tornar a luz um objeto de interesse quase científico e soube retratar com pinceladas imprecisas as rápidas transformações em marcha. Entre nomes como Claude Monet e Edgar Degas, ninguém dedicou tanta curiosidade ao amor florescendo livremente nos bulevares e cafés quanto Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), tema de uma exposição inédita no parisiense Musée d’Orsay, a bela ex-estação de trem às margens do Rio Sena.
Intitulada Renoir e o Amor — A Modernidade Feliz, a mostra reúne cinquenta exemplares da primeira leva da carreira do pintor, como os famosos O Almoço dos Barqueiros, com seu clima de paquera; A Dança em Bougival, em que ela fica escancarada; e Baile no Moulin de la Galette, o efervescente salão com lugar de sobra para o munFdistadano, que também inspirou telas de Picasso e Van Gogh. A curadoria desafia a ideia de que Renoir seria apenas um “artista da felicidade”, um tanto ingênuo para alguns de seus contemporâneos pela leveza que o caracteriza, e o apresenta como um artista capaz de ir fundo nas relações humanas. “Sei que é difícil convencer as pessoas de que uma pintura pode ser verdadeiramente grandiosa e, ao mesmo tempo, alegre”, admitia o pintor, que penou por estar na vanguarda. “Ao longo do tempo, o amor foi muitas vezes associado ao sofrimento, como um peso, e Renoir enfatizou a linha oposta, da suavidade”, explica Ana Cavalcanti, professora da Escola de Belas Artes da UFRJ.
O impressionismo se libertou das elevadas doses de melancolia e emoção de obras que vieram logo antes, como O Beijo, do italiano Francesco Hayez (1791-1882), típica amostra do romantismo, para se voltar à Belle Époque, momento regado a otimismo em que a prosperidade ganhou como símbolo a Torre Eiffel, então a mais alta construção do planeta, que muitos parisienses custaram a engolir. Havia, portanto, cenas à vontade para servir de combustível à criação artística, bem longe dos estúdios desse grupo tão criticado no começo por se distanciar de antigos temas e convenções. “Suas telas não eram mais para decorar palácios ou igrejas, mas para serem vendidas a colecionadores em uma sociedade burguesa e industrializada”, diz o especialista em história da arte Felipe Martinez. Nesse caldo, Renoir se destacou de seus pares por não se debruçar apenas sobre a estética das paisagens, mas escolher pousar uma lupa sobre as pessoas que nelas flanavam. À frente de seu tempo, ele dá um passo além ao extrapolar a noção de amor romântico, restrito à vida em casal, e passa a observar o afeto de forma mais ampla, na afinada parceria entre amigos, irmãos e mãe e filho.
A leveza tão associada a Renoir, à qual seus colegas do impressionismo eram também afeitos, deixou uma herança para as gerações que se seguiram, até na arquitetura. “Seu impacto foi observado por todo o século XX, com bons artistas que o sucederam clareando a paleta de cores, o que se viu inclusive na decoração de prédios públicos por toda a Europa. Circulava a piada de que Paris havia se misturado à tinta branca”, conta a especialista Ana Cavalcanti. Como felizmente nada é linear na arte, outras correntes brotaram no profícuo horizonte francês, entre elas o fauvismo, liderado por Henri Matisse, que usou de tintas vibrantes para conferir uma paixão a seus modelos que não se revelava explícita, mas envolvia contato físico e intimidade.
A exposição do Orsay embute o lembrete de que, ao caminhar na contramão de seu tempo, fazendo de seu assunto a rua ou a casa, sem pompa nem mitos, Renoir conquistou assento no panteão dos mestres. “Há artistas que desafiam normas sociais e imprimem à arte um olhar inovador”, avalia o sociólogo Cristiano Bodart. Chegou a obter sucesso em vida — morreu em 1919 após emplacar algumas telas no Louvre. Mesmo assim, ao sair de cena, ainda era tratado pelos mais tradicionais como integrante de uma ala inferior nas artes. A última retrospectiva de peso de sua obra havia sido quatro décadas atrás, no Grand Palais, também em Paris. Agora, Renoir retoma seu merecido lugar de destaque ao ficar claro o tanto de delicadeza e sensibilidade que dedicou ao grande tema, o amor.
Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992







