O negócio das águas: o que explica o sucesso dos parques aquáticos no Brasil
Com novas atrações a caminho e lugares já conhecidos se renovando, eles se tornam itens indissociáveis (e lucrativos) da paisagem nacional
Há quase dois séculos, os brasileiros viajam em busca de água. Lá pelos idos do século XIX, cidades como Caxambu e Poços de Caldas converteram fontes minerais em destinos de saúde e lazer. Ao redor das águas surgiram balneários, hotéis e restaurantes. A água era o motivo da viagem — o entretenimento vinha no pacote. Nos dias de hoje, uma nova safra de parques aquáticos está atualizando essa fórmula. A promessa medicinal deu lugar a piscinas de ondas, praias artificiais e toboáguas vertiginosos. Permanece, porém, a ideia de transformar a água em destino — e construir ao redor dela uma experiência capaz de justificar uma viagem de férias e lazer.
Ao mergulhar nessa onda, os brasileiros estão fazendo dos parques aquáticos um grande negócio. Dados do relatório do Sistema Integrado de Parques e Atrações Turísticas (Sindepat) e da Associação Brasileira de Parques e Atrações (Adibra) apontam uma concentração de 28,6% dos investimentos em novos projetos de entretenimento no país exclusivamente em parques aquáticos, superando os de diversão e outras atrações turísticas. E não é pouco dinheiro colocado no setor: são 7,1 bilhões de reais aplicados em setenta novos projetos, sendo vinte deles aquáticos.
A expansão chama atenção, sobretudo, no interior. Durante muito tempo, famílias de regiões afastadas precisavam percorrer centenas de quilômetros para encontrar grandes atrações. Agora, os empreendimentos vão atrás desse público. “Existe a tendência de novos empreendimentos em regiões mais interioranas para se aproximar do público”, diz Luciano de Oliveira, engenheiro civil e sócio da AquaPlan, responsável pelos projetos do Chapada Park, no Mato Grosso, e do Araxá AcquaPark, em Minas Gerais.
Não é apenas uma questão de distância. Para quem vive longe do mar, o parque aquático faz as vezes de uma praia particular — com a vantagem de estar perto de casa. “Os consumidores buscam cada vez mais experiências, e os parques e atrações entregam justamente isso: experiências memoráveis para famílias”, afirma Carolina Negri, presidente-executiva do Sindepat.
A fórmula tem ainda um trunfo: consegue reunir diferentes gerações. Crianças pequenas podem ficar nas piscinas infantis, adolescentes enfrentam os toboáguas e adultos escolhem áreas de descanso. É um raro programa de lazer que consegue acomodar uma família inteira. Os novos empreendimentos descobriram também que o visitante não precisa ir embora no fim do dia. Projetos como o Chapada Park, em Mato Grosso, e o Araxá AcquaPark, em Minas, ambos com abertura prevista nos próximos meses, se propõem a ser não só uma parada na viagem, mas um destino completo. Hotéis, resorts, restaurantes e outras atrações são incorporados aos complexos.
Com praia artificial, piscina de ondas e toboáguas impressionantes, empreendimentos assim vêm acompanhados de outra estratégia: transformar o visitante em cliente recorrente por meio de passaportes de acesso a longo prazo. “Esse modelo tem ganhado espaço porque oferece previsibilidade de receita aos empreendimentos, aumenta a fidelização dos clientes, melhora o planejamento e reduz os impactos da sazonalidade”, diz Suerlan Santos, COO do Acquaí Park, a ser aberto em breve na Paraíba.
A ideia de criar destinos aquáticos longe das capitais não é nova. O Thermas dos Laranjais, em Olímpia, no interior paulista, nasceu de um clube social construído sobre águas quentes do Aquífero Guarani e se transformou no parque aquático mais visitado da América Latina, com quase 2 milhões de visitantes anuais. Mais recentemente, novos lugares se juntaram ao clube. É o caso do Multiparque, em Balneário Camboriú (SC), criado em 2024 e que agora constrói um hotel anexo.
Os veteranos se renovam para manter seu apelo. O Beach Park, no Ceará, investiu no Surreal. “É a montanha-russa aquática mais alta do mundo e reconhecida pelo Guinness World Records”, diz Murilo Pascoal, CEO do complexo. O Wet’n Wild, entre São Paulo e Campinas, prepara a Kobra, sua própria montanha-russa aquática.
O crescimento, porém, nem sempre vem livre de atritos. Esses complexos exigem água, energia, infraestrutura e extensas áreas de construção. O Acqua Thermas Park, em Sorocaba, que anuncia um toboágua de 60 metros, enfrentou dificuldades no licenciamento ambiental e suas obras estão paradas. A água, principal matéria-prima do negócio, é também um de seus pontos delicados. Compreende-se sua força estratégica: quando a vida aperta, algumas horas dentro dela valem uma viagem inteira.
Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011







