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“Nasci em um campo de concentração”, conta brasileiro

George Legmann falou sobre como sua mãe se tornou uma das poucas mulheres da história a dar à luz em um campo de concentração na Alemanha nazista

Por Sabrina Brito 7 mar 2022, 18h17

George Legmann é uma das poucas pessoas no mundo a terem nascido em um campo de concentração durante o regime nazista alemão. A VEJA, ele falou sobre sua família, sua história e o orgulho de ser brasileiro.

Como a sua mãe reagiu quando soube da gravidez?

A minha mãe teve dois abortos espontâneos. Ela engravidou de mim no começo de 1944, época em que houve uma mudança nas fronteiras da região onde a minha família morava, a Transilvânia, historicamente disputada por Romênia e Hungria. Quando soube que os alemães haviam invadido e procuravam por judeus, minha mãe foi atrás de seu ginecologista para abortar novamente. O que ela não sabia é que ele havia sido preso dois dias antes. Assim sendo, ela voltou para casa, comigo na barriga, e foi presa no mesmo dia. A cidade contava com 40 mil judeus, de um total de 250 mil no país. Todos os que não fugiram foram capturados pelos nazistas.

Os seus pais foram capturados também?

Minha mãe, seus pais e irmão foram levados a Auschwitz-Birkenau, sob comando de Josef Mengele, onde se separava aqueles aptos a trabalhar daqueles incapazes de fazê-lo, fosse pela idade, gravidez ou por doença. Meu tio e avô eram parte desse último grupo, o qual, como se descobriria depois, era levado diretamente às câmaras de gás. Com sua presença de espírito, minha mãe e avó esconderam a gravidez e a idade, respectivamente, e se disponibilizaram para o trabalho forçado, para o qual foram direcionadas. Elas puxavam carroças cheias de pedra para a construção de uma fábrica de aviões.

Os nazistas sabiam da gravidez?

Quando ficou sabendo que havia sete mulheres grávidas no campo – a minha mãe e outras seis –, o médico responsável optou por permitir que elas tivessem os bebês perto de Dachau, onde estavam, mais especificamente no ambulatório de um campo bem menor chamado Kaufering. Mas não foi por bondade; os soviéticos e os americanos estavam perto de invadir o campo, e ele queria ter um bom álibi para não ser morto. Não funcionou, e ele acabou executado. Os bebês nasceram em um espaço de poucos meses uns dos outros. O parto foi feito por um ginecologista judeu, o dr. Kovacs, também prisioneiro, que eu considero um herói. Nascemos em um campo de concentração, o que é muito difícil de entender para algumas pessoas.

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Como foram os dias que se seguiram ao parto?

Por sorte, apesar da falta extrema de comida, a minha mãe tinha leite para me amamentar. Ela conseguiu até mesmo amamentar um dos outros bebês, cuja mãe havia contraído tifo, que ela portanto ajudou a salvar. Minha avó roubava restos de sopa de cebola e batata para garantir que ela se mantivesse saudável.  Algum tempo depois, após a liberação dos campos, minha mãe e as outras seis foram levadas de trem para outra cidade. Vendo o trem, a RAF, acreditando se tratar de um carregamento nazista, bombardeou-o. Todos os vagões foram destruídos, exceto o último – onde estavam as mulheres, junto com alguns enfermeiros e freiras. Foi um milagre, ou algo muito próximo disso.

Por que a sua família optou por vir ao Brasil?

No começo da década de 60, o Brasil convidou cinquenta famílias romenas a virem para cá, e a minha foi uma das que toparam. No caminho para o Brasil, vivemos por um tempo em algumas cidades europeias diferentes. Lá, outras crianças me chamavam de “George do Lager”, ou “George do campo de concentração˜. Só anos mais tarde eu entendi o que eles queriam dizer com aquilo.

Os seus pais sempre foram abertos quanto à história deles?

Minha mãe levou muitos anos para me contar tudo que sei sobre a minha história. Para algumas pessoas, como o dr. Kovacs, faz mais sentido colocar uma pedra sobre o Holocausto e fingir que nada aconteceu. É uma escolha deles, mas não é o que escolhi para mim. Gosto de compartilhar a minha história.

Você gosta de ser brasileiro?

O Brasil é o meu país. Quem nasce aqui não aprecia direito a sorte que tem. É um país que praticamente não tem guerras em sua história, que tem terra, sol e água, que tem tudo. Eu amo o Brasil, e não poderia ter mais orgulho de viver aqui.

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