Modelitos artificiais: uso de algoritmos e da IA já produz uma revolução na indústria da moda
Agora, para o bem e para o mal, as roupas espelham o gosto do público quase em tempo real
Ultimamente, o TikTok voltou a inundar as telas com vídeos de sapatilhas, saias de tule e polainas. Resultado: o balletcore, tendência inspirada no figurino das bailarinas, reapareceu com força entre adolescentes e jovens adultas. Estampas de sardinhas também passaram a pipocar nas redes, impulsionando o retorno da sardine girl, estética de inspiração mediterrânea que ganhou nova temporada em 2026. Tomato girl summer, office siren, fishermancore, quiet luxury: os rótulos se multiplicam em velocidade alucinante, tornando difícil acompanhar o que está em alta ou em baixa na moda. O que parece uma sucessão caótica de manias tem, na verdade, um poderoso denominador comum. Cada vez mais, essas tendências nascem, ganham escala e chegam às vitrines guiadas por algoritmos e sistemas de inteligência artificial capazes de detectar sinais de desejo em bilhões de cliques, vídeos e buscas.
O fenômeno é particularmente visível nas gigantes globais do varejo de moda. A espanhola Zara está entre as empresas que passaram a recorrer intensamente a algoritmos e ferramentas de IA para interpretar sinais de consumo, antecipar tendências e acelerar a adaptação de suas coleções. Mais radical ainda, a chinesa Shein cruza dados de buscas, redes sociais e comportamento de compra para identificar microtendências promissoras. A partir daí, lança centenas de novos modelos em lotes reduzidos. Os que encontram rápida aceitação têm sua produção ampliada; os demais desaparecem. É uma lógica que aproxima a moda de um experimento contínuo, em que o gosto do público é monitorado quase em tempo real.
O uso de IA e algoritmos está invertendo a lógica tradicional nesse mercado. Durante décadas, grandes criadores e casas de estilo lançaram visões que depois eram assimiladas pelo público. Agora, o estilista começa a dividir sua intuição com novas ferramentas que interpretam milhões de sinais de desejo captados em tempo real. O consumidor, antes visto sobretudo como destinatário das tendências, passa a atuar como um editor coletivo das apostas das marcas. Mas essa mudança não significa, necessariamente, o eclipse da criação humana. “A IA não substitui a sensibilidade e o olhar autoral do estilista; ela amplia a capacidade analítica do negócio”, afirma Maurício Bastos, diretor de tecnologia do Azzas 2154, maior grupo de moda da América Latina.
Ainda assim, a nova realidade já incomoda especialistas por uma questão mais profunda: o que acontece quando a moda aprende a prever o desejo antes mesmo de ele se consolidar? Os algoritmos tendem a privilegiar padrões com maior probabilidade de agradar, reduzindo o espaço para a surpresa, o risco e a ruptura que sempre fizeram parte da criação de grandes estilistas. Um caso emblemático é o da grife americana Edikted, que conquistou adolescentes e faturou 460 milhões de dólares em 2025 apostando em peças desenvolvidas a partir da análise de tendências nas redes e produzidas rapidamente na China. O temor é que a busca incessante por aquilo que já provou funcionar acabe tornando as roupas mais parecidas entre si. O próprio setor reconhece esse dilema. “Dados mostram o que está acontecendo, mas cabe às marcas decidir o que faz sentido incorporar à sua identidade”, diz Bastos. Goste-se ou não, a era das tendências artificiais chegou.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007







