Maridos de celebridades põem em foco um novo padrão masculino: o homem ‘golden retriever’
Ele leva devoção e lealdade ao extremo
É uma coreografia que se repete em quase todo tapete vermelho, do último baile do Met Gala às sessões de divulgação do sucesso dos cinemas A Odisseia. Tom Holland chega de mãos dadas com a esposa, Zendaya, posa para alguns cliques e, antes que os fotógrafos peçam, sai discretamente do enquadramento. “É o momento dela”, justifica o galã. Nas redes sociais, esses pequenos gestos ajudaram a transformá-lo num dos exemplos de um novo fenômeno nas relações amorosas: a ascensão do namorado (ou marido) “golden retriever”. Surgida nos posts e memes de fãs de celebridades na internet, e logo transformada em foco de problematização por psicólogos e terapeutas de casais, a expressão designa o homem que demonstra afeto sem medo de parecer vulnerável e que se exibe genuinamente feliz se a mulher poderosa a seu lado ocupa o centro da cena. Assim como os cães da raça em questão, com seu comportamento fofo apesar do tamanhão, trata-se de parceiros que, em suma, unem o charme masculino a certos traços desejáveis: são leais, carinhosos e estão sempre a postos para abanar o rabo — ou melhor, aplaudir — quando suas amadas brilham.
Além dos atores Tom Holland e Zendaya, que se conheceram no set do filme Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017) e atuam juntos na nova aventura do herói nos cinemas (confira a reportagem na pág. 84), outros casais comprovam que o coração das famosas empoderadas hoje bate mais forte pelos parceiros golden retrievers. Um caso notório é o romance da cantora Taylor Swift com o esportista Travis Kelce. Do primeiro flerte até a cerimônia sem flashes que recentemente os uniu em matrimônio, o grandalhão de 1,96 metro deu demonstrações de sua fidelidade canina a Taylor — em certos momentos, com tanto entusiasmo que mais parecia um fã. Kelce fazia questão de usar suas curtas folgas na liga de futebol americano para prestigiar os shows da turnê The Eras Tour. Chegou a subir ao palco na posição de só mais um figurante em torno da “deusa” Taylor. No casório reservado, há relatos de que o noivo era a figura mais emocionada e não se cansava de enaltecer a esposa popstar.
Outro casamento recente de celebridade — este, devidamente alardeado e instagramado — reforçou o maior diferencial no pedigree de um golden retriever: a capacidade de se tornar invisível para que a mulher ganhe todos os holofotes. Foi assim na festança em que a cantora Dua Lipa se uniu ao ator inglês Callum Turner. Muito se disse sobre a ousadia do vestido da noiva ou o barulho que ela causou na Sicília — mas dele pouco se falou. É como se o bem-apessoado e bonachão Turner fosse só mais um admirador embevecido da magnética Dua Lipa ali presente.
Em linhas gerais, psicólogos e terapeutas apontam que esse tipo de conduta masculina representa uma evolução nos relacionamentos (e isso vale para famosos ou mortais). Com sua tolerância, cumplicidade e respeito, parceiros assim são a antítese do velho e condenável padrão clássico de um casamento machista, em que o homem pode tudo e a esposa é obrigada — não raro de modo abusivo — a se apagar e sair de cena para que ele ganhe todos os louros. Para a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, o desejo por esse novo tipo de homem pode significar uma mudança de mentalidade. “Não vejo nada de negativo em um parceiro que seja gentil, carinhoso, brincalhão e esteja sempre por perto”, analisa ela.
Ainda que isso seja um progresso incontestável, pode haver questões periclitantes nas relações entre mulheres fortes e eles. A principal delas poderia ser descrita como uma tendência ao, bem, adestramento excessivo. As qualidades que fazem um namorado ou cônjuge ser visto como golden retriever são exatamente as que podem gerar desgaste se levadas ao extremo. Se ele é prestativo demais, pode perder limites e virar inconveniente; quando se torna afetuoso em demasia, pode parecer carente; a devoção sem freios pode levar o casal a evitar falar de problemas, até que aquilo se transforme em uma bola de neve. Até a amizade fiel tem limites.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006







