Imbróglio que envolve o nome Trump ameaça a paz em um dos países mais isolados do mundo
O ex-balneário comunista do Mediterrâneo ainda vai fazer muito barulho
Por quase cinquenta anos, a Albânia notabilizou-se como um dos regimes comunistas mais fechados do mundo. Governado na base do porrete por um ditador com paranoia de perseguição, Enver Hoxha (1908-1985), o país encravado na Península dos Bálcãs encheu seu pequeno litoral de bunkers e fortalezas, à espera de um ataque militar estrangeiro que nunca ocorreu. Mais de três décadas após a queda do comunismo, que se deu em 1991, a Albânia agora vive ironicamente uma invasão de fato. Só que não por navios de guerra, mas pelas hordas de turistas ávidos por um lugar ao sol naquelas mesmas praias , de beleza indizível, mas que hoje exibem os esqueletos de concreto das construções da era Hoxha.
Com localização privilegiada, a chamada Riviera albanesa era tida até pouco tempo atrás como “o último segredo do Mediterrâneo”. Não à toa: suas praias de águas translúcidas e azuladas surgem em meio a um relevo formado por baías, ilhas e penínsulas ladeadas por montanhas rochosas graciosas. Com ar despojado e cidades tranquilas, elas foram descobertas por mochileiros, depois passaram a atrair turistas em busca de menos agitação e preços mais em conta que os de destinos estrelados (e superlotados) como Mykonos ou Dubrovnik, nas vizinhas Grécia e Croácia.
O calor do verão albanês, contudo, já dá sinais de que está passando do ponto. E não se está falando aqui do clima inclemente que vem causando incêndios e outros transtornos, sobretudo na Espanha e França. Convertidas subitamente em nova sensação do Mar Adriático, as praias da Albânia passaram a enfrentar os mesmos problemas de excesso de turistas e preços galopantes de outros lugares famosos. Só em 2025, o país recebeu 12 milhões de visitantes, mais que o dobro de 2021. O turismo hoje representa 20% do PIB albanês, que fica na casa dos 30 bilhões de dólares anuais.
O boom trazido por tamanha badalação é positivo, sem dúvida, para a economia de uma nação diminuta e por tanto tempo isolada do mundo. Mas o crescimento veio acompanhado de problemas que ameaçam a paz da Albânia — e até a sobrevivência do governo de plantão. A infraestrutura precária transformou balneários concorridos como Ksamil e Dhërmi em formigueiros humanos. Há, ainda, muitas críticas e polêmicas em relação à corrida desenfreada de empreendimentos que se propõem a ocupar trechos pouco explorados do litoral.
O principal deles veio com um agravante de origem: por trás de um complexo de resorts de 1,4 bilhão de dólares, que pretende se estender por uma ilha e outro trecho intocado do litoral albanês, estão dois estrangeiros com ligações familiares tão abrasadoras quanto o sol mediterrâneo — o casal Jared Kushner e Ivanka Trump, genro e filha mais velha do presidente americano, Donald Trump. A tentativa deles de lucrar com o turismo nas praias albanesas vem incendiando o país. Há dois meses, protestos com milhares de pessoas carregando cartazes contra Kushner e Ivanka se sucedem na capital, Tirana. O movimento foi batizado de Revolução dos Flamingos, em alusão à belíssima ave de penas avermelhadas que tem o litoral do país como um de seus hábitats.
A revolta tem lá sua razão de ser. O local em que se planeja construir o empreendimento bilionário do casal é reconhecido pela importância ecológica. Além da ilha de Sazan, a região contém a área de preservação Vjosa-Narte, casa dos flamingos e de diversas outras espécies. Os trabalhos na área estão em andamento e, de acordo com Aleksander Trajce, diretor do grupo Proteção e Preservação do Meio Ambiente na Albânia (PPNEA), o estrago já foi feito. Com isso, o governo albanês entrou na mira da população. Em 2022, legislações ambientais foram afrouxadas para a construção de um aeroporto na área protegida. Mais adiante, foram liberadas novas edificações na região. Tais medidas são denunciadas como um suposto apoio silencioso ao projeto bilionário dos Trump — e o fato de o primeiro-ministro Edi Rama ser amigão de Kushner só piora as desconfianças.
A postura do genro e da filha do presidente americano piorou o imbróglio todo. Há dois anos, Kushner indignou os albaneses ao divulgar nas redes sociais representações nababescas de seu projeto, incluindo uma península tomada por construções e montanhas cobertas de chalés de luxo. A revolta pegou fogo de vez há poucos meses, após Ivanka narrar num podcast como ela e o marido teriam “descoberto” a ilha de Sazan, ex-forte militar abandonado, durante passeio de iate na região. Pelo visto, o ex-balneário comunista do Mediterrâneo ainda vai fazer muito barulho.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006







