Estudo inédito revela a ciência do cérebro por trás da apreciação de obras de arte
Ela não depende apenas da erudição e do gosto pessoal
Deve-se aos filósofos gregos a primeira tentativa de definir o que é belo. Seguindo os preceitos de grandes pensadores que atribuíram virtude à beleza, o escultor Policleto (480 a.C.-420 a.C.) criou uma fórmula para estabelecer as características da formosura — o segredo estaria na proporção matemática entre partes do corpo e no equilíbrio atrelado à simetria. O princípio foi consagrado em sua estátua Doríforo, exposta no Museu de Nápoles, até hoje celebrada como uma das mais emblemáticas criações clássicas. Embora traduzido em pedra, o conceito não resistiu ao tempo. Ao longo da história, o ideal estético mudou radicalmente, refletindo as tendências de cada época e as preferências de cada indivíduo. Uma pesquisa publicada na revista Nature, conduzida por cientistas das universidades de Fudan, na China, e de Cambridge, no Reino Unido, sugere, no entanto, que nem tudo se resume a uma questão subjetiva de gosto. O cérebro humano reage de maneira notavelmente parecida diante de uma criação artística, revelando um sentimento compartilhado que atravessa culturas e diferentes sensibilidades.
A contribuição mais recente da neurociência para o código da beleza, ressalte-se, não busca desvendá-lo, mas decifrar como o sistema nervoso reage diante de obras de diversos estilos. Os pesquisadores usaram ressonância magnética para aferir a atividade cerebral de voluntários enquanto observavam uma centena de pinturas tradicionais chinesas, escolhidas por apresentarem diferentes tipos de apelo visual. A cada imagem, os participantes indicavam o quanto ela os agradava. A conclusão é que o cérebro combina duas dimensões: de um lado, identifica e interpreta o que está diante dos olhos; de outro, atribui valor ao que vê, registrando as obras que lhe dão mais prazer. “Costumamos dizer que ‘a beleza está nos olhos de quem vê’. Mas mostre a delicada Mona Lisa, e quase todos concordam que algo impressionante se revela diante deles. Tentamos mapear essa estrutura em comum”, afirma o neurocientista Xinyu Liang, à frente da pesquisa.
O estudo também permitiu identificar quais partes da mente são acionadas durante a contemplação. O sistema visual decodifica formas, cores e contornos em imagens reconhecíveis. Os circuitos cerebrais do córtex pré-frontal medial, ligados à sensação de recompensa, se encarregam de atribuir valor a elas. Nessa região, estão as estruturas relacionadas ao processamento da satisfação. Em alguns casos, a reação diante dos quadros foi semelhante à desencadeada quando se saboreia uma comida deliciosa ou se recebe um dinheiro inesperado. O grau de encantamento, porém, varia de pessoa para pessoa. “Cada um traz consigo inúmeras questões emocionais que vão dizer que tipo de afeto cria por determinada obra”, diz o neurologista Ariovaldo Júnior, destacando que o tipo de arte também pode influenciar. “Um quadro abstrato, por exemplo, exige que o espectador tenha mais sensibilidade”, diz.
O repertório artístico acumulado ao longo da vida nas visitas a museus e até nas aulas de artes durante a infância interfere diretamente na capacidade de curtir uma peça. Uma pintura pode despertar lembranças, provocar associações ou simplesmente fazer mais sentido para quem já aprendeu a reconhecê-la. Tudo isso era sabido em teoria, mas agora foi comprovado empiricamente. O processo envolve a rede de modo padrão, um conjunto de regiões do cérebro associado à memória, à imaginação e à construção de significados, que entra em ação automaticamente quando ocorre uma conexão entre aquilo que é visto e as experiências prévias.
A existência — ou não — de uma beleza universal não é uma questão meramente retórica. Ela desencadeou dezenas de movimentos estéticos ao longo de 25 séculos. Durante a maior parte do tempo, esteve associada à capacidade do artista de retratar fielmente a realidade, até que no final do século XIX passou a ser questionada pelos pintores impressionistas. Foi no século XX, no entanto, que as vanguardas modernistas romperam radicalmente com os padrões anteriores. O cubista Pablo Picasso fragmentou a figura humana, o dadaísta Marcel Duchamp transformou um banal (e até repulsivo) mictório em arte, com o provocativo título Fonte, e Andy Warhol levou a cultura de massa para as galerias. “Eles abandonaram o vocabulário conhecido da beleza. O valor da obra passa a estar em seu propósito”, diz Eduardo Wolf, professor de filosofia da UnB. Policleto tinha a fórmula e a ciência acaba de desenhar um mapa, mas o mistério da beleza ainda segue indecifrável. Vale a irônica frase de Umberto Eco (1932-2016): “A beleza frequentemente é entediante. Todo o mundo sabe o que é a beleza”.
Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014







