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Espelho, espelho meu: livro mostra a fascinante relação da humanidade com o rosto

Ele adquiriu protagonismo ao longo da história, até se tornar o principal elemento da expressão da identidade

Por Sara Salbert Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 19 set 2026, 08h00 | Atualizado em 21 set 2026, 11h45
Espelho, espelho meu: livro mostra a fascinante relação da humanidade com o rosto Priorize VEJA no Google

Uma contradição anatômica ajuda a explicar o fascínio que a humanidade cultivou ao longo da história pelo rosto: a parte do corpo mais associada à identidade de uma pessoa é justamente a que ela não consegue enxergar. O que parece banal nos dias atuais se revelou crucial em outras eras, já que essa parte da anatomia de homens e mulheres traz embutida a rara capacidade de traduzir, quase sem disfarces, o estado de espírito. Intui-se que a variedade de expressões que comunicam sem a necessidade de palavras seja mera característica inata. Ela reflete, porém, um processo de construção social. “Nossa relação com o rosto muda conforme crenças, valores e a maneira como as sociedades enxergam o indivíduo se alteram”, diz Fay Bound-Alberti, historiadora e professora do King’s College de Londres, que acaba de lançar o desafio de entender o processo a fundo. A pesquisa resultou no livro The Face: A Cultural History (“A face: uma história cultural”), recém-publicado nos Estados Unidos e na Europa, sem previsão de lançamento no Brasil.

Um mergulho na evolução mostra que o semblante de nossos ancestrais se moldou ao longo de milênios para atender à imperiosa necessidade de interação social. Há 40 000 anos, o Homo sapiens se sobrepôs às outras espécies de hominídeos graças, em parte, à vantajosa linguagem não verbal. Eram as feições que davam sinais de medo, confiança ou perigo, sem a emissão de um único ruído. Tamanho protagonismo, no entanto, não teve relevância nos registros da pré-história. Desenhadas há 36 000 anos, as pinturas rupestres da caverna de Chauvet, na França, trazem figuras de muitos animais, mas nenhuma representação detalhada da fisionomia humana. Não era desatenção nem falta de habilidade. A individualidade simplesmente não era útil em comunidades cuja sobrevivência dependia da cooperação. Retratar um integrante poderia até ameaçar a coesão do grupo. Rara exceção é a Vênus de Brassempouy, minúscula cabeça esculpida em marfim de mamute, há cerca de 25 000 anos. Descoberta no fim do século XIX, a peça tem características relativamente impessoais — é composta apenas de testa, sobrancelhas, nariz e queixo.

PINCELADA - Retrato de Baldassare Castiglione, obra-prima pintada por Rafael em 1515: a serenidade do olhar de um diplomata
PINCELADA - Retrato de Baldassare Castiglione, obra-prima pintada por Rafael em 1515: a serenidade do olhar de um diplomata (Universal History Archive/UIG/Getty Images)

A valorização do rosto só ocorreu bem mais tarde, nas grandes civilizações da Antiguidade. Apostando na trilha da imortalidade, os faraós do Egito Antigo encomendavam suas faces em granito aos artesãos mais habilidosos. Na Grécia Antiga, filósofos como Sócrates (470a.C.-399 a.C.), Platão (428 a.C.-348 a.C.) e Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) associaram a beleza física a uma vida pura e plena. Os jovens deveriam mirar-se no espelho e manter a alma tão limpa quanto o rosto. Os que não se achassem bonitos deveriam compensar a feiura com boas ações, estabelecendo assim o primeiro elo explícito entre a aparência e a virtude. A exemplo do que acontecia em Roma e na Pérsia, quem cometia falhas morais era punido com mutilações faciais.

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Decifrar o coração do sujeito mirando sua cara é hábito que sempre fez parte das relações humanas, mas pode levar a terríveis equívocos. Um estudo sobre o impacto das primeiras impressões, da Universidade de Chicago, calculou em 100 milissegundos o tempo necessário para se criar juízo de uma pessoa. A avaliação, contudo, costuma ser frágil e eivada de estereótipos. “Julgamentos influenciam contratações, decisões judiciais e até a escolha de candidatos em eleições”, diz o psicólogo Alexander Todorov, coordenador do trabalho americano. Não à toa, durante a Idade Média, época em que a moral cristã se impôs como balizadora da vida cotidiana, a identidade foi padronizada para caber nos preceitos bíblicos e passou a depender menos de traços físicos e mais da família, da fé e da comunidade a que pertencia. A vaidade recebeu o status de pecado, classificada por Santo Agostinho como “inchaço da alma”, e os espelhos caíram em desuso.

PIONEIRA - Vênus de Brassempouy: imagem de traços disformes
PIONEIRA - Vênus de Brassempouy: imagem de traços disformes (Archaeo Images/Alamy/Fotoarena/.)
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Coube ao Renascimento reinstalar a face no centro da cena artística. As pinturas passaram a perseguir não apenas a semelhança física, mas também traços de personalidade. O célebre Retrato de Baldassare Castiglione, pintado por Rafael em 1515, resume bem a virada: sem símbolos ostensivos de poder, o diplomata italiano se impõe pela serenidade do olhar. A partir daí, uma sucessão de invenções ampliaria exponencialmente a intimidade entre o homem e a própria imagem. A fotografia popularizou, no século XIX, a ideia de se ver impresso em papel. Em 1839, o americano Robert Cornelius clicou a si mesmo e produziu a primeira selfie da história, sem imaginar que, quase dois séculos mais tarde, 93 milhões de fotos do tipo seriam feitas diariamente. “A imagem que construímos nas telas muitas vezes nos representa mais do que nossa aparência real”, diz o antropólogo Bernardo Conde. Atualmente, a face é senha para destravar celulares, ajuda a movimentar uma indústria de cosméticos que fatura quase 40 bilhões de dólares em todo mundo e se tornou objeto de 7,4 milhões de cirurgias plásticas por ano. Jamais a identidade foi tão determinada por ela. Só não vê quem não quer — está na cara.

Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013

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