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Entrevista: ‘O conceito de meia-idade mudou’, diz o gerontologista Alexandre Kalache

O médico mostra como o envelhecimento de qualidade depende do curso da vida e da superação das desigualdades

Por Valéria França Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 19 jul 2026, 16h14 | Atualizado em 20 jul 2026, 14h58
Entrevista: ‘O conceito de meia-idade mudou’, diz o gerontologista Alexandre Kalache Priorizar nos meus resultados Google

O octagenário Alexandre Kalache é uma das maiores referências mundiais em envelhecimento e saúde pública. Gerontologista e ex-diretor do programa de Envelhecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS), ele defende que a meia-idade precisa ser revista à luz do aumento da expectativa de vida. Para o médico, a idade cronológica perdeu força como parâmetro: o que realmente define essa fase são as condições em que cada pessoa viveu ao longo da vida. Em um país marcado pela desigualdade, dois brasileiros da mesma idade podem chegar à meia-idade em situações completamente diferentes. Nesta entrevista, Kalache explica por que envelhecer bem depende muito mais do curso da vida do que do número de aniversários comemorados. Mas há no Brasil um grupo privilegiado de pessoas que estão chegando na metade da vida, muito melhor do seus antepassados, o que transforma essa fase em uma época de oportunidades.  

O conceito de meia-idade mudou ao longo das últimas décadas?

Mudou completamente. O primeiro desafio é entender que a meia-idade deixou de ser uma definição fixa. Ela é completamente relativa ao contexto histórico. Quando eu nasci, por exemplo, a expectativa de vida era de aproximadamente 50 anos. Na prática, a meia-idade chegava aos 25 anos. Hoje isso mudou completamente porque vivemos muito mais.

Então a meia-idade ficou mais longa?

Sem dúvida. As fronteiras do que chamamos de meia-idade se ampliaram. Quem pode chegar aos 90 anos naturalmente terá uma meia-idade muito mais longa do que alguém que vivia apenas até os 50 anos.

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O que determina um bom envelhecimento?

Tudo depende do curso de vida de cada pessoa. Para envelhecer bem é preciso ter acesso a quatro elementos fundamentais para a qualidade de vida, começando pela saúde. Nas últimas quatro décadas houve um salto extraordinário. Antigamente tínhamos raio X e pouco mais. Hoje a medicina dispõe de recursos impensáveis.

Esse avanço beneficia todos os brasileiros da mesma forma?

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Infelizmente, não. Em um país tão desigual como o Brasil, tudo isso é muito relativo. Ainda há pessoas que sequer se beneficiaram plenamente da Revolução Industrial. Dependem exclusivamente da força física para sobreviver. Enquanto alguns vivem a Revolução Tecnológica, outros continuam presos a uma realidade muito mais dura.

Além da longevidade, quais foram as grandes transformações que mudaram a vida das pessoas?

Existe uma segunda revolução, que é a do conhecimento. Quem não acompanha essa transformação corre o risco de ser expulso do mercado de trabalho. Um mecânico que aprendeu apenas a mecânica tradicional e nunca estudou eletrônica dificilmente continuará competitivo. Os caminhos da produção mudaram profundamente.

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De quem é a responsabilidade por preparar a população para essa nova realidade?

A principal responsabilidade é dos formuladores de políticas públicas. O maior patrimônio de um país é o seu capital humano. No fim deste século teremos uma população menor e muito mais velha. Todos os demais grupos etários diminuirão proporcionalmente. Isso exige uma nova forma de pensar educação, qualificação profissional e permanência no mercado de trabalho.

O conhecimento também envelhece?

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Hoje ele envelhece mais rápido do que as pessoas. A desigualdade também aparece no acesso ao conhecimento. Na época dos meus avós, bastava aprender o que os pais e avós ensinavam. Hoje isso já não é suficiente. É preciso aprender continuamente. O conhecimento adquirido hoje provavelmente estará obsoleto daqui a 30 anos. A educação permanente deixou de ser uma opção. Ela passou a ser uma necessidade para quem pretende envelhecer com autonomia.

A desigualdade interfere diretamente na forma como as pessoas envelhecem?

Sem dúvida. Eu não gosto de definir as pessoas apenas pela idade cronológica. Uma mulher de classe alta, que mora no Leblon, pode chegar aos 70 anos vivendo uma espécie de meia-idade, graças às oportunidades que teve durante toda a vida. Já um trabalhador extremamente pobre pode chegar aos 40 anos completamente desgastado fisicamente.

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Por que isso acontece?

Porque a maioria dos brasileiros trabalha na informalidade, sem Fundo de Garantia, sem direitos trabalhistas plenamente respeitados e sem acesso adequado aos serviços de saúde. Como essa pessoa chegará bem aos 45 ou 50 anos? Muitos desenvolvem hipertensão aos 30 anos. Um terço dos brasileiros sequer sabe que é hipertenso ou não consegue manter o tratamento adequadamente. As doenças que aparecem cedo não são consequência da idade, mas das condições de vida.

A idade, então, não é o principal fator do envelhecimento?

Não. Não são os anos que envelhecem. São as condições de vida. O que determina o envelhecimento não é apenas a idade. É onde você mora. É como trabalha. É como se alimenta. É o acesso que tem aos serviços públicos, à educação e à saúde. As condições em que você vive seus anos de vida são muito mais importantes do que o número de aniversários que comemora.

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