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Ele deixou o Irã para fugir da perseguição por ser gay: “Finalmente me senti livre”

Navid Manafi Rasi hoje conta sua história no Brasil

Por Tiago Abech e Alessandro Giannini 25 jul 2026, 08h00 | Atualizado em 25 jul 2026, 09h42
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Me chamo Navid Manafi Rasi, sou um homem gay iraniano e cheguei ao Brasil em dezembro de 2019, aos 29 anos, fugindo do meu país natal em busca de algo que, para muitos, é um direito de nascença, mas que para mim custou quase tudo o que eu tinha: a liberdade. Minha história de não pertencimento começou cedo. Cresci em uma família de origem turca, tradicional mas não religiosa, que me fazia sentir seguro em casa — fora dela, porém, o mundo era implacável. Lembro-me de quando pedi à minha mãe um tênis rosa de que eu gostava e fui ridicularizado na escola, a ponto de a direção exigir que parasse de usá-lo por ser “cor de menina”. Foi na faculdade, aos 18 anos, no meu primeiro relacionamento, que compreendi minha sexualidade. A internet, acessada às escondidas por VPN para driblar a censura, foi minha janela para o mundo: ajudou-me a entender que eu não estava doente, nem sozinho.

Ainda assim, viver no Irã significava usar uma máscara todos os dias. Homens dispensados do serviço militar por serem gays recebem um atestado de “problemas mentais”, o que fecha as portas do mercado de trabalho — mesmo com meu mestrado, senti isso na pele. Eu reprimia meus gostos, escondia minha paixão por flores e por cozinhar, e sofria chacotas se mudasse a cor do cabelo ou da roupa. O limite chegou ainda na faculdade: fui estuprado, em uma sala fechada, pelo responsável pelos trâmites do meu serviço militar. Ele me ameaçou, dizendo ser um “homem normal”, com esposa e filhos, e que, se eu o denunciasse, seria tratado como doente mental. Dali em diante, a faculdade e o país viraram lugares de pânico. Eu precisava fugir.

Busquei no Google países que pudessem me aceitar e tentei um visto na embaixada do Brasil, sem sucesso, até descobrir que iranianos podiam entrar no Equador sem visto. Comprei uma passagem com escalas em Doha e São Paulo e disse à polícia do aeroporto, em Teerã, que ia visitar amigos. A viagem virou uma odisseia de dois meses. Conflitos civis no Equador cancelaram meu voo, e fiquei seis dias retido no aeroporto de Guarulhos. Em Quito, atravessei o país de ônibus e táxi, sem falar espanhol, apoiado só no Google Tradutor, até pedir refúgio temporário na fronteira peruana para seguir rumo ao Brasil. A morte chegou perto de mim: a cinco minutos da fronteira brasileira, o táxi em que eu estava capotou cinco vezes porque o motorista dormiu ao volante. Sobrevivi ileso.

Fui resgatado por uma família local e cheguei ao posto da Polícia Federal chorando, em choque, pedindo refúgio em inglês. Um agente me disse: “Bem-vindo ao Brasil, o Brasil é para todos. Fique tranquilo, não precisa chorar”. Eles nem retiveram meu passaporte. Segui para Rio Branco, no Acre, onde meus documentos ficaram prontos em minutos — e decidi recomeçar a vida em São Paulo. Cheguei à capital sem conhecer ninguém, sem falar português e sem dinheiro no cartão. Uma desconhecida na rodoviária me ajudou a pedir um Uber até um hostel na Rua Augusta. Depois, o recepcionista me levou a uma balada gay. Ao ver homens dançando, se abraçando e se beijando, só consegui chorar. Aquela noite resumiu toda uma vida. Eu, finalmente, me senti livre.

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Hoje, trabalho como orientador de público no Museu da Imigração, em São Paulo, onde converso com visitantes, e minha história já inspirou uma peça de teatro, o monólogo Anywhere, com Ricardo Corrêa. O Brasil não só me acolheu como permitiu reunir minha família: minha irmã já mora aqui, e meus pais devem vir em breve — minha mãe trata um câncer, e quero ficar perto dela. A liberdade é o bem mais valioso da minha existência. O Brasil me deu casa, paz e o direito de existir de verdade. Depois de tantas provações, afirmo com orgulho: sou brasileiro de coração.

Navid Manafi Rasi em depoimento dado a Tiago Abech e Alessandro Giannini

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Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005

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