Documentário ilumina única expedição invernal a chegar ao topo de uma das montanhas mais letais do mundo
O K2 atrai cada vez mais entusiastas do alpinismo extremo
Em todo o planeta, catorze montanhas erguem seus picos majestosos acima dos 8 000 metros, desafiando alpinistas a levar o corpo ao limite para chegar ao topo do mundo. Fazer isso no inverno é um desafio à parte, especialmente em uma delas: com o epíteto sugestivo de “a montanha selvagem”, o K2, na fronteira do Paquistão com a China, foi o último dos gigantes a ser domado na estação mais fria do ano, quando um grupo de dez alpinistas nepaleses, incluindo guias locais e o astro do alpinismo Nirmal Purja, fincou a bandeira do país em seu cume, em janeiro de 2021. Marcada por tragédias e por uma competição intensa com o islandês John Snorri — morto na empreitada — e os paquistaneses Sajid e Ali Sadpara — este último também vitimado pela montanha —, a expedição agora é retratada no documentário K2 — O Desafio Final.
Recém-lançada no Apple TV, a produção ilumina uma montanha menos badalada do que o Everest — mas quatro vezes mais letal que ele (leia mais no quadro). Encravado na Cordilheira do Caracórum, próxima ao complexo do Himalaia, o pico é o segundo mais alto da Terra — seus 8 611 metros ficam meros 238 metros abaixo do Everest. Mas a escalada exige uma perícia técnica maior: boa parte do caminho é feita em paredões rochosos quase verticais. Na parte mais perigosa, o gargalo, os alpinistas são forçados a atravessar uma fenda estreita sobre gigantescos blocos de gelo suspensos, contando apenas com a própria habilidade e com as cordas de segurança.
Por ser menos turística, a montanha também tem estrutura reduzida, dificultando o resgate em situações de emergência. Mesmo no verão, a margem de erro é mínima, e qualquer deslize pode levar a uma queda para a morte. Quem chega ao topo também não tem grande consolo: não há garantia de retorno seguro. “Sabíamos que tínhamos vencido, mas o verdadeiro teste seria descer dali vivos”, disse Achille Compagnoni, o primeiro a chegar ao cume, em 1954.
Periclitante durante todo o ano, a escalada é quase impossível no inverno, quando um “inferno gelado” toma conta do local. Situado mais ao norte que o Everest, o K2 tem temperaturas severas, com o cume atingindo com frequência os 60 graus negativos — a mesma temperatura da superfície de Marte. A região também é afetada por tempestades vindas da Sibéria, com avalanches e ventos de até 200 quilômetros por hora, capazes de derrubar um alpinista em segundos. Não à toa, as seis expedições invernais que tentaram escalar o K2 antes de 2021 fracassaram, e ninguém repetiu o feito.
Mesmo assim, o interesse pela aventura potencialmente fatal cresce a passos largos: entre 1930 e 2000, apenas 164 pessoas conseguiram chegar ao topo do K2. De lá para cá, o total disparou para 964, com 92 mortes registradas. Nos últimos cinco anos, a situação se intensificou ainda mais com a “instagramização” do alpinismo — o fenômeno do compartilhamento on-line atrai até mesmo amadores para a jornada. Na expedição que chegou ao topo em 2021, havia cerca de sessenta pessoas, cinco das quais acabaram mortas. No ano seguinte, 150 alpinistas se dirigiram ao local num mesmo dia, causando um engarrafamento perigoso, registrado por celulares ávidos por conteúdo.
Desse interesse crescente floresceu uma indústria: hoje, agências realizam escaladas guiadas à montanha selvagem a um custo de até 100 000 dólares, e nativos ganham a vida como xerpas, guiando expedições e assumindo funções que vão do planejamento do traçado à montagem de acampamento e à instalação de cordas de segurança em toda a montanha. “Muitas dessas pessoas não arriscam a vida por achar a escalada interessante, mas pelo fato de que isso é o que dá sustento a suas famílias”, diz o americano Amir Bar-Lev, diretor do novo documentário. “O ser humano é fascinado pelo perigo, e há um mercado que proporciona a experiência de estar perto da morte”, completa o cineasta.
As dificuldades da montanha, claro, seguem por lá. Neste ano, nenhum alpinista atingiu ainda o topo, em meio a rajadas de vento, nevascas extremas, risco severo de quedas de rochas e um acontecimento trágico: em julho, a temporada foi suspensa depois que uma avalanche na montanha vizinha matou dez alpinistas, forçando quem estava no K2 a interromper os planos para ajudar nas buscas. Entre os mortos estava Nirmal Purja, o mesmo que domou o K2 no inverno há cinco anos. Nem mesmo os fortes estão livres do risco de escalar os maiores colossos do planeta.
Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015






