Como a Geração Z, hoje sem dinheiro nem para o aluguel, pode se tornar a mais rica da história
Jovens enfrentam aluguel alto, e um mercado de trabalho difícil, mas projeções apontam renda global de US$ 74 trilhões até 2040
Para uma geração que cresceu ouvindo que bastava estudar, trabalhar e se organizar para conquistar independência, a vida adulta chegou com uma conta bem diferente. Aluguel caro, salários baixos que geralmente não acompanham o custo de vida, dificuldade para formar uma reserva e um mercado de trabalho pouco generoso com quem está começando ajudam a explicar por que tantos jovens da Geração Z ainda dividem apartamento, moram com os pais ou simplesmente desistiram, ao menos por enquanto, da ideia de comprar um imóvel.
O paradoxo é que essa mesma geração pode estar diante de uma das maiores viradas econômicas da história. Um estudo do Bank of America aponta que a Geração Z, nascida aproximadamente entre 1996 e 2016, deve se tornar a maior geração da população global na próxima década e também aquela com maior renda. Em 2023, sua renda global era estimada em US$ 9 trilhões. O número deve chegar a US$ 36 trilhões por volta de 2030 e alcançar US$ 74 trilhões em 2040.
A conta ajuda a explicar o aparente contrassenso: os jovens estão pobres em patrimônio, mas podem ser ricos em potencial econômico. E parte dessa transformação não virá apenas do salário. Ela estará ligada à transferência de riqueza entre gerações.
A herança que muda o jogo
Os chamados baby boomers acumularam patrimônio durante décadas de valorização imobiliária, crescimento econômico e expansão dos mercados financeiros. Agora, esse patrimônio começa a mudar de mãos. Estimativas do Bank of America indicam que mais de US$ 84 trilhões poderão ser transferidos para gerações mais novas até 2045.
É aí que a história fica mais interessante e menos cor-de-rosa. A Geração Z não será necessariamente a principal beneficiária dessa transferência. Um levantamento do próprio Bank of America, baseado em estimativas da Cerulli Associates, calcula que a maior fatia deverá ficar com os millennials, que podem receber cerca de US$ 46 trilhões até 2048. Para a Geração Z, a projeção é de aproximadamente US$ 15 trilhões. Ou seja: dizer que a Gen Z será “a geração mais rica da história” tem uma ressalva, que aponta para o tamanho de sua renda e para o peso econômico que terá, mas isso não significa que cada jovem receberá uma fortuna dos pais ou avós.
Essa distinção é importante porque riqueza, afinal, não se distribui igualmente. Quem nascer em uma família proprietária de imóveis, empresas e investimentos terá uma largada muito diferente de quem não receberá patrimônio algum. A grande transferência de riqueza pode, inclusive, ampliar desigualdades já existentes.
A geração do “não cabe no orçamento”
Enquanto o futuro promete cifras bilionárias, o presente é bem menos glamuroso. Dados do Bank of America mostram que a Geração Z tem a menor relação entre poupança e gastos entre as gerações analisadas. O custo de vida pesa especialmente sobre os mais jovens, que gastam quase o dobro do que têm guardado. Em 2023, a instituição voltou a apontar a fragilidade financeira desse grupo, ao mesmo tempo em que registrou crescimento dos gastos com beleza, joias, cafés, viagens e outros pequenos prazeres.
Não é necessariamente uma geração irresponsável. É uma geração que entrou na vida adulta em um momento particularmente caro. Em pesquisa do Bank of America com jovens de 18 a 24 anos, 53% disseram não ganhar o suficiente para viver a vida que desejam, enquanto 55% não tinham uma reserva capaz de cobrir três meses de despesas. Quase metade também recebia algum tipo de ajuda financeira.
A moradia é talvez o símbolo mais evidente dessa mudança. Comprar uma casa, que durante décadas funcionou como um dos principais caminhos para construir patrimônio, tornou-se muito mais difícil para os jovens. Nos Estados Unidos, onde estão concentrados muitos dos estudos sobre o fenômeno, as taxas de propriedade são muito menores entre os mais novos do que entre os mais velhos. Dados recentes mostram que apenas 35% das pessoas de 25 a 29 anos e 46% das de 30 a 34 anos eram proprietárias de imóveis no fim de 2023.
Ricos, mas de outro jeito
Há ainda uma mudança de comportamento. A Geração Z não necessariamente encara riqueza da mesma maneira que seus antecessores. Para uma parcela desses jovens, dinheiro significa menos a casa própria e mais liberdade, mobilidade, experiências e possibilidade de escolher como trabalhar e consumir.
Isso já aparece nos investimentos. Entre investidores mais jovens e endinheirados, a preferência por ativos alternativos é maior do que entre os mais velhos, com maior interesse por criptomoedas, private equity e outros investimentos fora do tradicional eixo de ações e títulos.
Também há uma mudança na relação com o consumo. A geração que popularizou o brechó, a revenda, o aluguel de roupas e o chamado “little treat” — aquele pequeno mimo usado como recompensa no cotidiano — não é necessariamente avessa ao consumo. Ela está sim redefinindo o que considera digno de gastar. Ou seja, a Gen Z começa a vida adulta com menos patrimônio, mas chega a um futuro em que concentrará uma parcela crescente da renda, do consumo e, eventualmente, da riqueza herdada.
A pergunta é o que fará com isso. Porque receber dinheiro não é o mesmo que construir riqueza. Mas, por ser uma geração que passou os primeiros anos da vida adulta contando os centavos para pagar o aluguel, talvez tenha uma relação bem diferente com seus futuros trilhões.







