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A maturidade em alta: por que a vida entre os 40 e 60 anos não é mais sinônimo de crise

A medicina e a psicologia provam que pode ser uma fase fértil e de grandes realizações

Por Valéria França Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 jul 2026, 06h00 | Atualizado em 17 jul 2026, 14h53
A maturidade em alta: por que a vida entre os 40 e 60 anos não é mais sinônimo de crise Priorizar nos meus resultados Google

Aos 45 anos, ele era um ator que parecia fadado a um final de carreira melancólico: acumulava apenas papéis secundários em Hollywood, sem despertar maior atenção. A trajetória de Samuel L. Jackson mudou, e ele se converteu no astro que todos hoje conhecem, justamente nessa etapa crítica da maturidade: foi quando se consagrou nas telas como um dos personagens memoráveis do sucesso Pulp Fiction — Tempo de Violência, em 1994. Mais tarde, Jackson creditou sua guinada não à sorte, mas a qualidades preciosas que se adquirem com a idade: a experiência e o autoconhecimento. Para ele, o sucesso veio “depois de ter aprendido as minúcias do trabalho”. Histórias de pessoas que se realizaram após os 40 são clássicas, de artistas de Hollywood como Jackson à empreendedora brasileira Luiza Trajano, que iniciou sua gestão vitoriosa da rede Magazine Luiza nessa fase da vida.

Exemplos assim põem em xeque uma velha noção renitente: a de que a faixa etária entre os 40 e 60 anos é uma etapa de baixas realizações e expectativas, não raro acompanhadas da sensação de frustração. A meia-­idade, termo que designa esse período, ganhou até uma proporção de anátema: há quem procure fugir de ser classificado dessa forma com todas as forças. Nada mais definidor de seu status negativo que um velho conceito de causar arrepios: a propalada “crise da meia-idade”. Eis que agora, contudo, a medicina, a psicologia e até as injunções demográficas estão promovendo uma mudança radical na visão sobre o tema. De um tempo de crise, a meia-­idade passou a ser tida como uma época de realizações, busca da satisfação pessoal — e reinvenção.

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Em suma, chegar à meia-idade está mais atrelado hoje, segundo especialistas, ao acúmulo de experiências — um diferencial precioso no mundo produtivo e nas relações sociais. Uma das principais vozes desse verdadeiro rebranding é a psicóloga americana Margie Lachman. Professora da Universidade Brandeis, nos Estados Unidos, ela é autora de um novo best-seller sobre o assunto, Primetime: a New Vision for Midlife (Horário Nobre: uma Nova Visão da Meia-Idade). A obra, recém-lançada no exterior e ainda sem previsão de chegada por aqui, é resultado de um dos mais completos estudos realizados sobre meia-idade e envelhecimento. Lançado pela Fundação MacArthur e atualmente coordenado pela Universidade de Wisconsin-Madison, o projeto vem acompanhando os mesmos participantes por três décadas. A ideia é observar como mudanças em aspectos da vida das pessoas — como carreira e casamento — afetam a saúde física, mental e financeira anos depois.

Quando entraram no projeto, os voluntários responderam a entrevistas detalhadas sobre tudo, do trabalho à família, renda, personalidade, cognição e bem-estar. O estudo começou com pouco mais de 7 000 pessoas, chegando mais tarde a 11 000. Uma das mentoras desse ambicioso mergulho no envelhecimento, Margie concluiu que a ideia de que a meia-idade é inevitavelmente infeliz está errada: trata-se de uma fase estratégica, muito decisiva, com grande possibilidade de moldar o futuro e na qual se revisam escolhas da juventude. “É um momento para dar sentido ao passado e plantar as sementes do futuro”, diz a psicóloga, que no livro entremeia os resultados de décadas de pesquisa com reflexões sobre a felicidade na meia-idade.

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Para além dessa bem-vinda cruzada contra ideias negativas arraigadas, a mudança de status da meia-idade é embalada por avanços notáveis (e concretos) das últimas décadas. Um deles, claramente, se dá no campo das pesquisas sobre a longevidade. Um estudo publicado recentemente na revista Nature Aging comparou diferentes gerações na Inglaterra e na China para responder à pergunta: as pessoas estão chegando a essa fase da vida em melhores condições do que seus pais? A resposta é sim: elas apresentam melhor mobilidade, maior vitalidade — e o declínio funcional ocorre mais lentamente que em gerações anteriores. Mesmo quem chega à meia-idade fora de forma tem aí uma segunda chance estratégica. Pesquisas publicadas nas principais revistas médicas confirmam que pessoas sedentárias que adotam hábitos saudáveis entre os 40 e os 60 conseguem reduzir o risco de mortalidade a níveis semelhantes aos de quem pratica exercícios desde a juventude.

TRANSFORMAÇÃO - Atividade física: ela faz envelhecer bem e reduz danos do sedentarismo no passado
TRANSFORMAÇÃO - Atividade física: ela faz envelhecer bem e reduz danos do sedentarismo no passado (Danilo Andjus/Getty Images)
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Como lembra a americana Margie Lachman, afinal, a meia-idade é um momento de ouro para se planejar uma velhice tranquila e feliz — algo que vale das finanças às relações pessoais, mas especialmente no que diz respeito à saúde. Exercitar-se nessa faixa etária pode “compensar” a inatividade anterior, melhorando a qualidade de vida física por volta dos 70 anos, de acordo com um grande estudo australiano publicado na revista científica americana PLOS Medicine, que acompanhou 11 000 mulheres entre 47 e 52 anos por duas décadas.

Exemplos de quem se reinventou ao mudar suas atitudes com o físico e a mente não faltam, inclusive no Brasil. Para a influenciadora de moda Pati Pontalti, de 52, a virada rumo ao bem-estar físico e mental veio depois dos 40, com o nascimento da filha, quando trocou o tabagismo e o sedentarismo pela corrida e pela musculação. Os novos hábitos fizeram com que ela se redescobrisse. “Não enxergo a idade como um limite para fazer o que eu quiser”, diz a influenciadora, seguida no Instagram por 274 000 pessoas, em sua maioria mulheres que estão mais preocupadas em envelhecer bem que esconder a própria idade.

AUTOESTIMA - Pati Pontalti: “Não enxergo a idade como limite para fazer o que eu quero na minha vida”
AUTOESTIMA – Pati Pontalti: “Não enxergo a idade como limite para fazer o que eu quero na minha vida” (@patipontalti/Instagram)
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Um dos mitos combatidos pela autora de Primetime é, ainda, o de que o cérebro entra em declínio logo após os 40 anos. Na verdade, a neurociência demonstra que o auge da chamada “inteligência cristalizada” acontece na maturidade. Essa habilidade mental depende da experiência, da memória semântica, do conhecimento acumulado e da capacidade de integrar tudo isso para resolver problemas do presente. O que explica por que muitas carreiras atingem seu auge na maturidade. Aí cabem desde executivos de grandes empresas até uma chef de cozinha como Paola Carosella. Foi aos 41 anos que ela (hoje com 53) explodiu nacionalmente no time de jurados do reality MasterChef, turbinando uma trajetória de empresária do ramo que apenas começava. “A maturidade trouxe um conforto e não um empecilho de crescimento”, diz Paola.

As lições do livro da pesquisadora americana valem para homens e mulheres. No caso delas, a meia-idade vem acompanhada de um lance decisivo na vida feminina: a menopausa. “Seus sintomas funcionam como um grande alerta e fazem as mulheres prestarem mais atenção ao tema que os homens”, diz o gerontologista Ney Messias, de 64 anos, ativista do envelhecimento saudável. Mesmo diante de um amadurecimento mais silencioso, os homens também estão se reposicionando: numa época em que as pessoas estão vivendo mais e melhor, eles estão trabalhando e fazendo planos até mais tarde. Nesse cenário, tratar os 40, 50 ou mesmo os 60 anos como o início do declínio tornou-se realmente um contrassenso econômico e social. Até 2040, cerca de um em cada quatro brasileiros terá 60 anos ou mais, segundo as projeções do IBGE. Na última década, o número de idosos no mercado de trabalho aumentou 53%. O resumo dessa ópera: a tal crise da meia-idade virou uma belíssima oportunidade de vencer na vida.

Guinada na vida

Exemplos de famosos que atingiram o auge na meia-idade

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Luiza Trajano, 77 anos
Luiza Trajano, 77 anos (Eduardo Knapp/Folhapress/.)

Luiza Trajano, 77 anos

Assumiu o comando executivo do Magazine Luiza aos 42 anos. Foi responsável por levar a rede a outro patamar quando lançou as primeiras lojas virtuais do Brasil, transformando o negócio familiar em um gigante nacional de sucesso no varejo.

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Samuel L. Jackson, 77 anos
Samuel L. Jackson, 77 anos (Michael Rowe/Getty Images)

Samuel L. Jackson, 77 anos

Explodiu em Hollywood aos 45 anos, em 1994, ao participar do filme Pulp Fiction, de Quentin Tarantino. Foi indicado ao Oscar pelo trabalho, creditando seu brilho à experiência vinda com a idade.

Paola Carosella, 53 anos
Paola Carosella, 53 anos (Cadu Pilotto/TV Globo)

Paola Carosella, 53 anos

Embora fosse uma chef em ascensão, ela deu sua virada ao integrar o time de jurados do MasterChef Brasil, aos 41 anos. Ao deixar o programa, em 2020, continuou se reinventando e progredindo como empresária.

Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004

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