A maior armadilha na busca da felicidade, segundo psicólogo best-seller
“Uma das maiores barreiras para ser feliz é a crença de que a vida ideal não tem emoções dolorosas”, afirma ele
Os ventos da modernidade vêm aos poucos fazendo tremular pilares que solidamente definiam o que seria uma trilha exitosa e plena: casar, ter filhos, comprar uma casa, um carro, escalar na carreira e envelhecer com elevadas doses de saúde e dinheiro eram todos ingredientes inescapáveis para o que se convencionou chamar de vida feliz. Nas últimas décadas, essa noção foi sacudida pela ideia de que lombadas e bifurcações no rígido roteiro podem ser muito bem-vindas, o que acabou por suavizar a pressão. Só que aí o cotidiano acabou sendo posto do avesso pelo advento das redes sociais e seus filtros, que exibem as pessoas em permanente estado de felicidade — sempre rindo, viajando, festejando —, um horizonte sabidamente inalcançável. Ao examinar o tema que atiça o intelecto humano desde os primórdios das civilizações, Sigmund Freud (1856-1939) soltou uma frase que, caso viralizasse nos conectados dias atuais, bem poderia ajudar a baixar a ansiedade geral. “A felicidade constante é uma ilusão inatingível”, disse o pai da psicanálise.
Desde então, os estudos sobre o assunto deram um salto, espalhando-se por escaninhos diversos de um instigante campo do saber — o da ciência da felicidade. Um de seus grandes expoentes, o psicólogo israelense Tal Ben-Shahar, autor do recém-lançado best-seller Happy Habits, com previsão de chegar ao Brasil em fevereiro, avançou de forma decisiva ao mergulhar em Freud e ir além com uma pesquisa de décadas. “Uma das maiores barreiras para ser feliz é a crença de que a vida ideal não tem emoções dolorosas”, afirmou ele, que encabeça o curso hoje mais procurado da Universidade Harvard, em entrevista exclusiva a VEJA. E reforçou: “Existe uma tirania de que é preciso estar sempre bem. Tristeza, raiva, inveja, frustração — esses são sentimentos inerentes à condição humana e fundamentais para o fortalecimento da mente”, diz.
Sua obra não se pretende um manual de autoajuda, tom do qual ele foge ao cravar que a felicidade nem de longe segue um receituário, mas é feita de um conjunto de ações diárias em distintas frentes: o bem-estar físico, que abrange tanto exercício quanto descanso; o estímulo intelectual, à base de vasto aprendizado; relacionamentos cimentados por bons vínculos; o lado espiritual, que nada tem a ver com religião, porém com a busca por propósito; e o emocional, o qual requer lidar de frente também com o que traz dissabor. A observação de centenas de milhares de casos, que somados formam o mais rico acervo de dados sobre a felicidade, alimentado por pesquisadores de Harvard, sinaliza ainda que a plenitude não se faz de revoluções que botam as estruturas abaixo de um dia para o outro. “Mudanças rumo a uma existência feliz não vêm de transformações drásticas, mas de pequenas medidas consistentes, que vão construindo uma base”, explica.
Criador de vocábulos que ecoam pelas altas-rodas acadêmicas, Ben-Shahar promove uma reflexão sobre o que batizou de “performance da felicidade” — um dos obstáculos contemporâneos para atingi-la de verdade, segundo ele. É nesse movediço terreno que as redes entram, expondo corpos livres de imperfeições, férias idílicas e celebrações glamorosas. Quanto mais desse conteúdo se dissemina, maior é o afã das pessoas em revelarem uma vida de alegria pura, que evidentemente não espelha as asperezas que todo humano encara. “Vejo o culto à felicidade como um perigo social. Estamos cada vez mais desconectados das nossas emoções, evitando o sofrimento e, por isso, nos tornando mais vulneráveis a ele”, alerta o antropólogo Bernardo Conde, da PUC-Rio. Especialistas em disciplina tão indispensável enfatizam que a felicidade mais duradoura não se fia em eventos extraordinários — uma ficha que caiu para o nutricionista Guilherme Almeida, 23 anos, depois de muita terapia. “Tinha uma ideia utópica do que é estar bem. Achava que precisava haver algo sempre grandioso”, reconhece.
Uma recente pesquisa publicada na revista Nature voltou o olhar para quarenta países e mensurou os efeitos nocivos da pressão implacável por se sentir feliz 100% do tempo, sem nuances. Não deu outra: quem descrevia tal estado de espírito apresentava piores indicadores de bem-estar emocional e até cognitivo. Quanto maior a cobrança à volta, mais alta se tornava a régua que estabelecia a satisfação pessoal — e mais longínqua ela ficava. Quem vive imerso no ambiente das redes sente de maneira amplificada o peso de se mostrar de bem com a vida, como relata a influenciadora Belle Kinzel, 23 anos, que já chegou a contabilizar 1 milhão de seguidores. O feito veio com aquela sensação de chegar a um panteão, mas logo a pressão por oferecer conteúdo invariavelmente motivador, sem brecha para nada que não soasse positivo, começou a cobrar um preço. “Não tinha jeito: acordava e precisava dar bom-dia e dizer algo para cima, mesmo sem estar naquela sintonia. O que importava era parecer feliz”, conta ela, que penou até desbravar outro caminho: hoje compartilha o lado sombrio de seu dia a dia e se aventura em reflexões sobre saúde mental.
O tema mobiliza também a área da neurociência, que ao observar a mente descobriu quão nocivo é o mecanismo de dar as costas às emoções negativas, como se pudessem ser deletadas. Pois não podem. “Não dá para enganar o cérebro sobre o que sentimos”, explica a neurocientista Elisa Kozasa, do Instituto do Cérebro do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo. Não encarar sentimentos desagradáveis, ela diz, pode inclusive reduzir o estoque dos neurotransmissores serotonina e dopamina, justamente associados a felicidade e prazer. Sob outro ângulo, o fato de a tristeza ter sido acomodada no escaninho dos tabus inibe o pedido de ajuda, o que acaba por afastar as pessoas de outras com quem nutre elos verdadeiros e poderiam ser de valiosa serventia.
O mais extenso estudo já feito sobre a felicidade, tocado há oito décadas por especialistas de campos variados de Harvard, ainda em pleno vapor, abrange as múltiplas camadas que compõem o bem-estar e conclui: relacionamentos envoltos em significado ensejam a satisfação pessoal de modo decisivo. “As pessoas que mais se sentem plenas, física e emocionalmente, são as que encaram suas questões sem rodeios e conseguem falar sobre elas a quem confiam”, observou a VEJA o psicólogo Marc Schulz, do time de Harvard. “Confesso que exigiu esforço ser sincero diante dos desconfortos e lidar com os desafios da existência, sem fugir da realidade”, admite o ator Pedro Blanc, 27 anos, que passou anos vestindo o figurino do sujeito que sempre está bem, obrigado. Eis um prato cheio para filósofos como o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que deixou à humanidade uma frase que ainda soa tão atual: “A essência da felicidade é não ter medo”. E encará-lo pode render bons sorrisos.
Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979







