A lição de talento dos jovens brasileiros superdotados que se destacam no exterior
Eles despontam em competições de altas habilidades e mostram como a inteligência acima da média deixou de ser vista com os preconceitos do passado
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) começou a construir sua reputação ao compor lindos e complexos minuetos aos 5 anos. No xadrez, o mercurial americano Bobby Fischer (1943-2008) ganhou seu primeiro campeonato mundial — e foi alçado à fama — ainda adolescente, aos 15. A civilização sempre teve fascínio pelas crianças e adolescentes superdotados. Os gênios mirins, por assim dizer, com o exagero que a definição desenha, atraem atenção por andarem acima da planície e por levarem a humanidade a uma questão que não quer calar: por que uns vão tão longe, são tão rápidos no raciocínio, e outros não? O ponto em comum desse grupo: a criatividade, a atenção, o prazer em ler e estudar e, claro, notas excepcionais na escola.
Recentemente, o Brasil ganhou destaque nesse campo com o desempenho do paulistano Arthur Alencar Spuri, de 16 anos, dono da maior nota geral na Olimpíada Internacional de Economia, disputada na China. “Além de dedicação no estudo, é crucial encontrar algo que desperte sua ambição e paixão”, diz ele, que sonha em cursar engenharia no MIT e agora se prepara para uma nova leva de provas no exterior. Aos 13 anos, em momento de virada, Spuri descobriu as competições científicas, um estilo de aprendizado que não bebe da decoreba. Desde então, enfiou a cara nos livros e engatou em um ritmo frenético de torneios mentais, com saldo de cerca de dez medalhas ao ano.
Spuri faz parte de uma recente e extraordinária safra de estudantes brasileiros que vem cruzando fronteiras em provas educacionais ao redor do planeta. “A rotina é de estudo o tempo todo, mas o esforço vale a pena quando vem seguido de uma medalha”, diz Bruno Machado Feltran, de 16 anos, que conquistou o ouro na última Olimpíada Internacional de Física (leia outros depoimentos ao longo desta reportagem). É uma turma de mente inquieta com talento de sobra em muitos campos do saber. “Em um mundo em que a inteligência artificial vem assumindo protagonismo, ter jovens com ampla capacidade de resolver problemas de forma colaborativa e raciocinar é essencial”, diz a educadora Claudia Costin, presidente do Instituto Singularidades.
Estima-se haver, no Brasil, segundo o Censo Educacional de 2024, exatas 43 950 matrículas de alunos com altas habilidades — o equivalente a escassos 0,094% do total de inscrições registradas na educação básica. A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula existir algo entre 5% a 8% da população global com capacidades intelectuais acima da média. Há, portanto, entre brasileiros, um fosso entre o que é identificado pelas famílias e a realidade. Dito de outro modo: há geniozinhos por aí, e convém etiquetá-los, não por preconceito, ao contrário.
Saber onde estão é a chance de tratá-los com o devido respeito e oportunidades, carinho e atenção. “Muitas vezes, esses jovens são vistos como um problema, já que perdem a concentração quando aprendem mais do mesmo. Nunca desabrocham, o que é lamentável”, diz o psicólogo João Batista Oliveira, autor do recém-lançado Inteligência: o Ativo Estratégico que o Brasil Não Pode Desperdiçar. O desabrochar desse pessoal, sublinhe-se, pode representar ferramenta de alavancagem econômica. Trabalhos conduzidos por economistas das universidades Stanford e Munique mostram que aumentar em 10 pontos percentuais a proporção de estudantes de alto desempenho cognitivo pode acelerar 1,3 ponto percentual no crescimento anual do PIB per capita.
Não raro, as mentes brilhantes esbarram em um cenário pouco preparado para recebê-las com dignidade, sem estigma. Diante da falta de chances, deixam o país ou abandonam os sonhos. As disputas em carteiras escolares, agora tão procuradas, representam um caminho de integração. As olimpíadas, enfim, são um campo fértil para que as mentes brilhantes mostrem seu valor. Distantes das avaliações tradicionais, as provas de torneios como a IMO (matemática) ou a IPhO (física) exigem que o aluno pense fora da caixa para solucionar questões de deixar qualquer um — além deles, claro — de cabelo em pé. “Essas competições se tornaram uma poderosa máquina de revelar talentos que a escola convencional, organizada para conduzir milhões de alunos por uma mesma estrada, frequentemente não consegue enxergar”, afirma o diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), Marcelo Viana.
Não por acaso esse modelo inaugurou um ecossistema de preparação, com colégios particulares criando turmas e tutorias dedicados às seletivas internacionais. Isso porque o prestígio de ganhar uma honraria lá fora pode garantir bolsas de estudo em escolas de ponta, além de abrir portas para diplomas em faculdades renomadas. No Brasil, universidades como Unicamp e USP destinam vagas específicas aos que se arriscam nas olimpíadas. Ter uma coletânea de medalhas pode aumentar as chances de conseguir uma vaga em instituições de ponta no exterior, de Oxford ao MIT — em empurrão muito bem-vindo e desejado, dada a altíssima competição para entrar em uma delas.
Os jogos de raciocínio são a ponta institucional de um movimento saudável, de zelo pelas meninas e meninos acima da média, um modo de tirá-los da contramão de tortas percepções do passado. Na Antiguidade, indivíduos com capacidades excepcionais eram considerados seres tocados por forças sobrenaturais, comumente associados a oráculos, profetas e sábios. Na Idade Média, muitos eram considerados bruxos. Nos séculos XIX e XX, com os avanços de pesquisas comportamentais, em busca de explicações biológicas e hereditárias, a superdotação mudou de patamar, e então passou a ser medida de forma objetiva, com testes de QI. Mas o prejulgamento persistia. Apenas muito recentemente é que houve compreensão mais ampla, de potenciais que conseguem ser multiplicados e de exageros que podem ser controlados.
Mas, afinal de contas, o que molda o talento? Um reputado estudo publicado há duas décadas pela renomada revista científica Nature indicou que a genética explicaria cerca de 20% das diferenças de inteligência entre crianças. O legado biológico tem, sim, papel de relevo, mas recentemente despontaram outras explicações “Ninguém nasce pronto. Embora existam facilidades naturais, o desenvolvimento depende essencialmente do estímulo do ambiente em que se vive”, diz a pedagoga Maria Inês Fini. No best-seller The Talent Code (“O código do talento”, em tradução livre), o especialista em liderança Daniel Coyle aponta um tripé formado por “treino profundo” — praticar no limite das próprias habilidades, cometendo erros e corrigindo-os com afinco —, apoio de mentores qualificados e motivação movida pela paixão. O pacote comportamental acaba por acelerar a construção de mielina, uma camada de gordura e proteínas que envolve os neurônios. Quanto maior a concentração dessa poderosa substância, mais rápidos e precisos são os impulsos elétricos.
Outro desafio é cultivar o dom para que não desapareça com o passar do tempo. Um levantamento conduzido por pesquisadores da Universidade Técnica de Kaiserslautern-Landau, na Alemanha, e publicado na revista Science cruzou dados de 34 000 profissionais de altíssimo desempenho e chegou a uma dura correlação: crianças prodígio tendem a não se tornar adultos de alto rendimento. Enquanto os pupilos dotados costumam se especializar cedo demais numa única disciplina, quem floresce mais tarde geralmente explora múltiplos interesses antes de escolher um caminho a traçar. A rotina intensa e a pressão por resultados também impulsionam muitos deles a abandonar a trilha da excelência. “Em contextos de cobranças intensas, podem surgir ansiedade diante de avaliações, medo de fracassar, evitação de desafios ou uma preocupação excessiva em corresponder a expectativas”, afirma a psicóloga Fabiana Versuti, da USP. No outro lado da moeda, os bons desempenhos tendem a vir acompanhados por dificuldades sociais. Na ausência de interesses e assuntos em comum, acabam se sentindo deslocados em ambientes em que outras crianças transitam sem grandes dificuldades e encontram refúgio no isolamento.
O ponto de equilíbrio é fundamental. O Colégio Farias Brito, no Ceará, com sedes em Fortaleza e no interior, parece ter encontrado a fórmula do sucesso. Ainda nos anos 1990, foram criadas “turmas olímpicas” para alunos de excepcional rendimento, que também passaram a ser acompanhados por uma equipe multidisciplinar, composta de psicólogos, pedagogos e ex-participantes das competições. As prateleiras da escola recheadas de prêmios e medalhas sugerem que tem dado certo. “É natural que se cobrem porque estudam e se dedicam muito, mas mostramos para eles que tudo bem bater na trave às vezes. O importante é continuar”, diz o diretor Marcelo Pena. Talvez a melhor maneira de explicar o que move essa meninada seja olhar para aquilo que não a deixa sossegar. Agraciado com um cérebro fora do comum (até mesmo na sua forma, com padrões complexos em partes do córtex cerebral), Albert Einstein resumiu a inquietação que sentia em uma frase para lá de modesta: “Não tenho nenhum talento especial. Sou apenas apaixonadamente curioso”. É esse, afinal, o combustível da genialidade. A curiosidade — com um quê de competitividade das olimpíadas — pode ajudar os pequenos gênios na travessia da vida e de algum modo estimular a melhora de todo o cenário educacional do país.
Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011





