A explosão na procura por procedimentos contra os ‘efeitos colaterais’ de remédios como Mounjaro e Ozempic
A rápida perda de peso pode causar flacidez no rosto e queda de cabelo
A conta não fecha, ao menos em termos estéticos. Elimina-se gordura, só que sobra pele. É um fenômeno absolutamente normal com o processo de emagrecimento, mas exacerbado pelo uso em larga escala de medicamentos para perda de peso como Mounjaro e Wegovy. O tecido gorduroso encolhe e o cutâneo, que ficou anos esticando suas fibras para acompanhar o volume corporal, não consegue se adaptar, dando adeus à aparência de firmeza. Não é por outra razão que a flacidez e as dobras de pele se tornaram um dos principais “efeitos colaterais” das canetas antiobesidade. Uma condição que, muito além do “rosto de Ozempic”, também afeta regiões como a barriga, os glúteos, as coxas e hoje leva um número crescente de pessoas a procurar dermatologistas e cirurgiões plásticos para lidar com as consequências dos quilos perdidos.
É importante esclarecer que não são os remédios que causam as mudanças à flor da pele, mas a própria transformação da arquitetura do corpo. Com menos gordura a preencher os espaços, a cútis carece de suporte, o que acentua rugas, apaga os contornos da face e gera queixas como o abdome avental — quando a pele sobra na área do ventre. “É como se existisse uma conversa entre a gordura e o colágeno: quando ela desaparece, deixa de enviar estímulos para a produção dessa proteína, que é quem dá sustentação à pele”, explica a dermatologista Fabiane Bremer, professora da Universidade Federal do Paraná. “É por isso que muitos pacientes chegam ao consultório com aquela queixa: ‘Eu emagreci, mas meu rosto ficou envelhecido’”, conta a médica.
Demanda não falta, portanto, para os profissionais que trabalham para amenizar essas reações pós-canetas. Um estudo publicado no periódico Plastic and Reconstructive Surgery revela que, entre 2022 e 2025, a busca por procedimentos estéticos para recuperar o volume facial cresceu na mesma proporção em que decolaram as pesquisas sobre o “rosto de Ozempic” no Google. A tendência engloba desde métodos não invasivos a intervenções pelo bisturi. “Observamos no início uma queda na procura por lipoaspiração depois da chegada das canetas. Agora, em vez de virem para tirar gordura localizada, pacientes querem soluções para a pele que sobrou ali”, diz Marcelo Sampaio, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
Do rosto às coxas, os tratamentos mais prescritos atualmente buscam combinar técnicas que instigam a produção de colágeno pelo próprio organismo. E a plástica tende a entrar em cena quando a perda de peso é mais impactante, em um cenário parecido com o que sucede à cirurgia bariátrica. A velocidade do emagrecimento é inversamente proporcional à qualidade dos resultados: quanto mais rápida a queda na balança, mais irregular fica a pele e mais difícil é devolver firmeza a ela. A perda de peso gradual, por sua vez, dá tempo para o corpo responder melhor aos procedimentos e pode até reduzir a necessidade de intervenções. Quem mantém uma rotina de exercícios também leva vantagem, uma vez que a musculatura ajuda a preservar o “recheio” da pele — aliás, outra repercussão da popularização das canetas foi o aumento de matrículas nas academias.
Muito além do corpo e do rosto, porém, uma das principais queixas que levam esse público ao médico vem do topo da cabeça. A queda de cabelo pode surgir cerca de três meses após o início do tratamento, quando, sob impacto do emagrecimento, os fios ficam mais fragilizados. “Diferentemente da covid-19, em que o vírus tinha ação direta sobre o ciclo capilar, até agora não identificamos um mecanismo específico relacionado às canetas”, diz o dermatologista Ricardo Romiti, professor da USP. “A queda parece estar mais associada à perda de peso rápida e sem orientação médica.” Ajustar as doses, redobrar os cuidados com a alimentação e, se for o caso, recorrer a recursos contra a calvície é o roteiro que os especialistas indicam para não encarar a reação adversa. No fundo — e na superfície —, o acompanhamento profissional é o que faz toda a diferença. Para os quilos não voltarem depois. E para o rosto, o abdome e os cabelos não caírem de vez.
Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004








