Rosiane Rodrigues, a yalorixá finalista do Prêmio Jabuti
Antropóloga e mãe de santo concorre com livro sobre infâncias indígenas e afro-brasileiras
Rosiane Rodrigues reúne trajetórias que nem sempre encontraram espaço lado a lado no Brasil. Antropóloga, escritora, pesquisadora com pós-doutorado e yalorixá de Yemanjá, ela está entre os cinco finalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico, na categoria Divulgação Científica, com o livro Omodé e Curumim: infâncias indígenas e afro-brasileiras, publicado pela Editora Moderna. Voltada ao ensino fundamental, a obra apresenta crianças e jovens de povos e comunidades tradicionais como parte viva da diversidade brasileira.
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A vivência religiosa não aparece apenas como objeto de estudo, mas como ponto de partida para sua produção acadêmica. “Sou uma mulher do chão do terreiro. Já cheguei à pós-graduação como ialorixá e, evidentemente, nossas vivências e trajetórias de vida transbordam. Ir para a academia teve sempre o sentido de aprender língua de branco para que eu pudesse trazer as questões dos terreiros e das vivências que os permeiam”, afirmou à coluna GENTE.
Há cerca de quinze anos, Rosiane pesquisa o racismo religioso e as violências enfrentadas por povos tradicionais de matriz africana. Em 2020, sua tese de doutorado, dedicada ao enfrentamento desse tipo de discriminação no Brasil, recebeu o Prêmio Lélia Gonzalez, concedido pelo Comitê de Antropólogos Negros da Associação Brasileira de Antropologia. A origem da investigação, no entanto, é profundamente pessoal. Segundo a escritora, em 2007, ela teve a guarda do filho caçula retirada por ser uma mulher do candomblé.
“Em uma ação de regulamentação de visitas, foi entendido que eu não teria condições morais de criar a criança porque era uma mulher do candomblé. Meu caso se tornou emblemático de racismo religioso cometido pelo Estado brasileiro. Foi a partir desse episódio que busquei ferramentas para entender como ser uma ialorixá poderia ser considerado algo incompatível com a criação de um filho”, contou.
Em uma pesquisa exploratória realizada em 2021, a antropóloga identificou situações semelhantes envolvendo não apenas famílias de terreiro, mas também quilombolas, indígenas e ciganas. A constatação ajudou a conduzi-la ao tema de Omodé e Curumim. “Foi nesse momento que entendi como era importante trazer as infâncias e as juventudes indígenas e afro-brasileiras, porque elas são a chave e a base para a diversidade deste país. Essas crianças parecem estar no passado, parecem não existir mais, mas estão vivas, estão aí e são belíssimas. Precisamos aprender com as crianças e os jovens”, disse.
Para Rosiane, a maior presença de pessoas indígenas, quilombolas, ciganas e de terreiro nas universidades ainda não significa que seus conhecimentos tenham sido plenamente reconhecidos pela academia. “É fundamental que a gente tenha uma universidade diversa, não somente em fenótipos e pertencimentos étnico-raciais e religiosos. Mas isso não é suficiente para dizer que esses saberes já são considerados fundamentais ou reconhecidos como conhecimento científico”, afirmou.
A saída, segundo ela, passa pela interculturalidade e pelo reconhecimento das diferentes formas de produzir conhecimento com o mesmo peso dado aos saberes acadêmicos hegemônicos. “A interculturalidade tem exatamente o sentido de considerar os saberes que já existem, sem desprezar os acadêmicos, que vêm da Europa e de outros lugares, mas dando o mesmo peso àqueles que foram desqualificados ao longo dos séculos. Ainda há muita coisa a ser feita, mas acredito que esse seja o caminho”, disse.
A indicação ao Jabuti, espera Rosiane, poderá ampliar o espaço de autores ligados aos terreiros e a outros saberes no mercado editorial. “Trazer essas infâncias e juventudes tem o sentido de abrir mais espaços e mostrar a enorme riqueza que existe nos terreiros, nos quilombos, nas comunidades indígenas e ciganas, entre pescadores artesanais, marisqueiros e populações sertanejas. A maior riqueza do Brasil é seu povo. Acredito que a indicação possa abrir mais espaços, e isso é algo que espero muito”, concluiu.
A primeira yalorixá finalista e vencedora do Prêmio Jabuti Acadêmico foi Claudinha Alexandre, com a obra Exu-Mulher e o Matriarcado Nagô, na categoria Ciências da Religião e Teologia, em 2024.







