Paulinho Lima solta o verbo na MPB: de Tim Maia a Gil e Caetano Veloso
Em conversa com a coluna GENTE, produtor musical revisita acidez de sua coletânea de memórias: 'meu livro não é do mordomo do Roberto Carlos'
Produtor de vanguarda, letrista e empresário responsável por capitanear os primeiros passos de nomes como Léo Jaime, Luiz Melodia (1951-2017) e Ângela Ro Ro (1949-2025), Paulinho Lima, 83 anos, nunca foi homem de meias verdades ou cerimônias. Afastado dos grandes centros e observando o mercado fonográfico a partir do isolamento na Ilha de Boipeba (BA), ele mantém os olhos atentos e a língua ainda mais afiada. Em conversa com a coluna GENTE, o produtor – que já cuidou da carreira de Gal Costa, Emílio Santiago e do grupo Novos Baianos, – contesta o conceito de “intocáveis” da MPB, classifica o Prêmio da Música Brasileira como uma “palhaçada” entre amigos, e joga luz sobre os bastidores da indústria. Como compositor, Paulinho escreveu canções que atravessaram gerações, entre elas Perigo, eternizada na voz de Zizi Possi, além de sucessos gravados por artistas como Ritchie e Nico Rezende. Longe do politicamente correto que conduz o mercado atual, Paulinho defende que as grandes verdades da música brasileira ainda habitam o lado de fora dos palcos.
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Há artistas que ficaram intocáveis à crítica, como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque? Claro, eles ficaram porque tinham um passado bem constituído e tradições poderosas. Mas há 20 anos não ouço uma canção nova do Caetano Veloso ou do Gilberto Gil tocar no rádio, na televisão ou em novelas.
Ainda há peso para a crítica musical classificar quem deve ou não ser chamado de “artista”? Não tem mais críticos de música no Brasil. Aquele prêmio da música popular brasileira é uma palhaçada. Acho que o organizador tem uma necessidade imensa de aparecer. Ele (José Maurício Machlini) inventou esse prêmio, juntam-se as pessoas que se dão bem e premiam os amigos. É sempre o mesmo grupinho, ele promove as filhas, promove o banco… Não gosto dessas coisas.
Ser filho de famoso ajuda a ganhar destaque? Eles têm mais abertura, mas se o público não reconhecer, não adianta. O carisma não se impõe. Beto Guedes, por exemplo, é um ótimo compositor e violonista, mas não faz encenação, não dá uma de Mick Jagger. No tempo em que eu trabalhava com ele, subia ao palco completamente bêbado, não sabia as letras das próprias músicas, e o público adorava. As fãs cantavam as músicas e sopravam as letras para ele na primeira fila. Isso é carisma. O público gosta daquela pessoa que anda no fio da navalha e parece que vai cair, mas não cai.
Falando da música do passado, ainda há músicos supervalorizados? Não é que sejam supervalorizados, eles têm campanhas melhores de divulgação. Eles se comportam melhor perante a mídia e a televisão, sabem o que falar e criam situações para virar notícia. Tim Maia é um cantor maravilhoso, mas se não fosse uma figura tão controversa e cheia de problemas, talvez não fosse tão conhecido. Essas coisas são agregadas, fazem parte da vida do artista.
Você era próximo da Ângela Ro Ro. Qual o legado que ela deixou? Ela deixou músicas lindas. Conheci a Ângela antes dela ser cantora. Em 1979, produzi o seu primeiro disco. Dei condições para mostrar o trabalho, como fiz com outras pessoas, como os Novos Baianos, Luiz Melodia e o Léo Jaime.
Acompanhou Ângela Ro Ro até o fim da vida? Sim. Trabalhei com ela nos primeiros discos e shows, depois eu fui para um lado e ela foi para o outro. Ângela era muito problemática. A um certo ponto, parei de ser empresário, não quis mais. Mas sempre me relacionei com ela. A gente se falava pelo telefone. Tentei ajudá-la no final, mas ela fez uns comentários que não gostei, mandou uns desaforos e eu mandei maiores ainda. Ela estava completamente desnorteada. A Ângela sempre foi doida mesmo, destemperada com o pai, com a mãe, com os amigos, com as namoradas. Ao mesmo tempo, era uma mulher paranoica ou que amava demais. Mas tinha uma voz linda e era muito honesta como profissional, tocando o piano dela e fazendo as suas coisas. É uma pena.
Em seu livro de memórias, lançado há alguns anos, há acidez para todos os lados. Fez inimigos com ele? Não é um livro chapa branca. Eu mexo com algumas verdades e trato todo mundo de igual para igual. Não escrevi para fazer elogios às pessoas. É um livro que conta a realidade da minha vida como empresário e como alguém que há tantos anos milita na área. Definitivamente, meu livro não é o do mordomo do Roberto Carlos. Daqui a um tempo, ninguém mais terá referências reais de quem eram aquelas pessoas, e meu livro será um livro de aventuras, que conta a vida de um aventureiro que foi empresário, artista, conheceu pintores, companhias de teatro. Mas não tem esse personalismo de perfilar as pessoas.
Como vê o impacto do streaming na música hoje? É uma crise enorme. Antigamente você ganhava dinheiro vendendo disco, mas hoje em dia as pessoas vão direto no Spotify, que paga muito mal. Ao mesmo tempo, pela informação que tenho, entram 120 mil músicas novas por dia nesses canais. É assustador.
O que te chama atenção na MPB atual? Não sou seguidor. Gosto de música, mas a minha relação é criando, fazendo letras ou escutando. É como uma vez ouvi Jorge Ben falar: ele ouve ouvindo, grava gravando. Quando vou ouvir alguma coisa que não conheço, presto muita atenção. Mas acabo sempre ouvindo o que gosto. Não sou ouvinte de rádio, não acompanho o que está acontecendo. As coisas chegam a mim espontaneamente.
Não há nenhum nome atual que te desperte interesse? Tem o Chico Chico. Ele é extremamente talentoso. Outro de quem gostei muito quando fui ver foi o Theo Bial, filho do Pedro Bial. É afinado e bom cantor. Não tenho paciência para ouvir rap e esse tipo de música mais falada. Sou ligado à tradicional: samba, samba-canção, jazz, balada. Também há as netas do Chico Buarque, como a Clara, o filho do Carlinhos Brown, os filhos e netos do Gilberto Gil… São todos talentosos. A música tradicional é mais rica poetica e melodicamente. O que aconteceu com o tempo é que a melodia foi muito pouco valorizada na música popular.
Você está fazendo um álbum. Como é esse projeto? Vou fazer um álbum só de clássicos do samba-canção. Tenho músicas minhas e outras que são clássicas de autores tradicionais, como Tom Jobim, Antônio Maria e Luiz Reis. Estou fazendo esse disco porque me dá prazer, não espero ganhar nada com isso.







