Os cinco erros fatais de ‘A Odisseia’, segundo historiador
À coluna GENTE, Daniel Hortêncio de Medeiro diz que adaptação mostra 'um Odisseu politicamente correto'
Apesar do sucesso de público, A Odisseia, de Christopher Nolan, tem provocado debates entre especialistas em literatura clássica. Diante da controvérsia, a coluna GENTE ouviu o historiador Daniel Hortêncio de Medeiros, mestre e doutor em Educação Histórica pela UFPR e professor da PUCPR, para analisar as escolhas do diretor na adaptação da epopeia atribuída a Homero. Para ele, o longa de 250 milhões de dólares (cerca de 1,2 bilhão de reais) não comete exatamente “erros”, mas toma liberdades artísticas que modificam passagens centrais da obra original. Confira cinco delas:
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- O truque do “ninguém” contra o Ciclope. “Talvez a cena que mais revele a astúcia de Odisseu é a do encontro com Polifemo. Nolan disse que seria difícil manter o trocadilho ‘Sou Ninguém’ e ‘Ninguém quer matar Polifemo’ e por isso excluiu a sequência. O que ficou no filme é muito pouco perto do que está no livro. É um erro? Não, só é bem menos brilhante”.
- O encontro com Nausícaa desaparece. “Depois de ser recebido no palácio, Alcínoo organiza um banquete para o estrangeiro e nele Demódoco, o aedo, canta glórias de Aquiles e Odisseu, suas disputas que tanto agradavam Agamenon e também sobre o ardil do cavalo de Tróia, o que fez Odisseu baixar a cabeça e chorar copiosamente. Diante da surpresa de sua reação, Alcínoo pede que o estrangeiro revele quem é. E é a partir daí que Odisseu conta as mais conhecidas histórias da epopeia. Pois é, nada disso aparece no filme”.
- Circe ganha visual de “bruxa medieval”. “Na obra de Homero, Circe é descrita como ‘belas-tranças’, que cantava com ‘bela voz’ e que ofereceu o ‘belo leito’ a Odisseu para reverter o feitiço contra seus companheiros. Nolan preferiu imprimir a imagem da feiticeira medieval, com caldeirão e tudo. Só faltou o nariz comprido com a verruga na ponta. Ficou melhor assim? Duvido”.
- Calipso perde seu papel de sedutora. “O filme revestiu Calipso de um papel quase materno, além de atribuir a ela o vício do lótus, como se Odisseu não fosse seduzido, mas entorpecido. Talvez Nolan temesse enfraquecer a principal história de amor se por acaso revelasse que Odisseu era um homem despossuído dos rigores do amor monogâmico, tão típico da imagem do herói romântico ou do herói vitoriano. Não é a toa que Emily Wilson, a primeira mulher a traduzir a Odisseia, tenha definido o herói como ‘complicado’. Sem tirar nem por. Menos no filme de Nolan”.
- Um Odisseu consumido pela culpa. “O que mais me frustrou foi ver um Odisseu carregado de culpa pela violência que infligiu aos troianos e que essa culpa se revela ainda dentro dos muros da cidade destruída. Então, do que valeram os 10 anos da viagem da volta, para que ele depurasse seus ódios e amadurecesse para voltar aos braços de sua família? A tese do filme, de que ele não queria voltar porque representava ‘os povos do mar’, que abandonaram a ‘lei de Zeus’, talvez seja a maior das liberdades artísticas tomadas pelo diretor. Ou, diria eu, o mais anticlímax para quem leu a obra. Isso sem falar do fim ( lá vai spoiller), com a renúncia e o auto exílio. O filme mostra um Odisseu como o herói politicamente correto, apesar de ter passado no fio da espada tanto ou mais gente do que o Rambo do Stallone. Nisso, a Odisseia de Nolan é a continuidade do bom e velho cinema de ação hollywoodiano. Errado? Não. Divertido? Tampouco”.
Apesar das ressalvas, Medeiros defende a produção, pontuando que não existe uma versão definitiva da Odisseia. Segundo o professor, os supostos fatos históricos teriam ocorrido por volta do século XII a.C., enquanto a compilação dos mitos atribuída a Homero aconteceu mais de cinco séculos depois. “Tudo no ‘se’. Nolan apresentou a sua visão sobre a história, projetando nos personagens algumas questões contemporâneas que considera importantes”, afirma.
O professor também lembra que seria inviável produzir um blockbuster voltado apenas aos leitores de Homero. Na sua avaliação, o diretor recorre aos elementos mais conhecidos da epopeia, como o rapto de Helena, o cavalo de Troia, o Ciclope, Circe e Penélope, para construir um espetáculo de ação, apoiado por interpretações marcantes e apuro técnico. “Para quem nunca leu a obra e só ouviu falar dela, saiu da sala de cinema exclamando: ‘Que filmaço!’. E não era esse o propósito?”, questiona. Para os conhecedores do texto clássico, resta a frustração de ver algumas das cenas mais emblemáticas ficarem de fora, mas para o grande público, a adaptação cumpre seu papel de transformar um dos maiores clássicos da literatura em entretenimento de massa.
A Odisseia estreou no Brasil no dia 16 de julho e é estrelada por Matt Damon, que interpreta Odisseu. Tom Holland vive seu filho, Telêmaco, e Anne Hathaway, Penélope. O elenco ainda conta com Zendaya, Robert Pattinson, Charlize Theron e Elliot Page.






