Marcos Veras fala de machismo, patriarcado, humor e relação com o filho
Aos 46 anos, ator é o convidado do programa semanal da coluna GENTE
Em 26 anos de carreira, Marcos Veras, 46, coleciona trabalhos no teatro, na TV e no cinema, além de fazer as vezes de apresentador e roteirista. Nas telonas, por exemplo, pode ser visto agora em O Gênio do Crime, de Lipe Binder; e acaba de rodar Calendário do Amor, ao lado de Maria Bopp. Nos próximos meses estreia mais dois longas: Shaolin do Sertão – parte 2, e Vudu Delivery. No teatro, protagoniza seu primeiro musical original, Espelho Mágico, que homenageia os 60 anos de TV Globo, dividindo o palco (do teatro Riachuelo, no Rio) com Eliane Giardini. Pai de Davi, 5, do relacionamento com Rosanne Mulholland, ele é o convidado do programa semanal da coluna GENTE (disponível no canal VEJA+ no Youtube, no streaming da TV Samsung Plus, LG, TCL e Roku; além da versão podcast no Spotify). Entre outros assuntos, Marcos fala sobre o machismo que combate diariamente em suas próprias atitudes, como se enxerga como exemplo para seu filho, a relação que mantém com o humor em tempos “politicamente corretos” e os desafios de escolher bons papeis – seja nas telas ou nos tablados. Assista
FALANDO ‘NÃO’. “Hoje eu consigo (falar ‘não’ para certos trabalhos). Nem sempre é fácil, tem sempre uma dorzinha, a dor não gosta de falar ‘não’. Me sinto um pouco culpado: ‘Meu Deus, o universo vai se vingar de mim, dando o ‘não’ para um super trabalho’. Mas hoje consigo escolher os trabalhos que quero me envolver por vários motivos. Pela história, principalmente, independentemente do tamanho do personagem. Às vezes, você é protagonista, é coadjuvante; mas a história, o elenco e a direção são fatores que me fazem escolher. E também o tempo que esse projeto vai me tomar. Digo isso pela relação com meu filho. Quanto tempo vou ficar sem ver meu filho? Posso levá-lo a cada 15 dias? Faço uma matemática para aceitar”.
COMPANHIA DO FILHO. “Ele vai no set de filmagem, na peça de teatro comigo… Não é maçante para ele, adoro, é curioso nesse lugar, ele pergunta como funciona… gosto que ele entenda por que o papai está 15 dias em São Paulo. Desses 15 dias, ele fica dois, três comigo. E aí ele fica só observando. Ele já tem uma relação interessante, aos cinco anos, dele entender, achar graça nas coisas. (…) Olha, não quero criar expectativa, mas ele tem muita veia artística, e até um certo tempo de humor, de comédia, de forma inconsciente. Ele sabe quando faz algum tipo de graça e me vê rindo, fica um pavão. Ele fala: ‘Caramba, fiz meu pai rir’”.
A TV NO PALCO. “O Espelho Mágico surgiu quando eu estava nem querendo ou prevendo fazer um novo musical, porque musical é um negócio intenso. Estava terminando o Titanique – O Musical, quando recebi o convite para protagonizar junto com a Eliane Giardini essa homenagem à TV Globo. Cara, como nego um negócio desse, se faz parte da minha história como espectador, como profissional? Essa não podia dar ‘não’ (risos). A gente faz um passeio através de um autor, que é o meu personagem, Alfredo Pimentel, que tem a benção de escrever um musical sobre a TV Globo. A plateia acompanha esse processo de criação, esse desequilíbrio, loucura. Ele dá uma surtada, é engraçado e emocionante”.
POLÍTICA E HUMOR. “Primeiro que política é matéria-prima para se fazer humor sempre, é ironizar, debochar, bater nos poderosos, a política é muito poderosa, os políticos estão poderosos. Agora, sobre politicamente correto, algumas pessoas ainda são resistentes a não fazer piada com o que mata, com o que é errado. A gente passou por um período que podia falar sobre tudo e aí confundem isso com democracia. Não, eu não posso falar o que eu quero. ‘A tua piada é homofóbica, tua piada é racista’. O comediante ou o próprio público achar que isso é mimimi? Talvez seja uma certa preguiça de enxergar que isso não cabe mais. O humor é tão rico, tão flexível, tão poderoso que a gente não precisa fazer piadas que a sociedade não tolera mais e que um dia já tolerou.
NOVA MASCULINIDADE? “O homem hoje que não discute isso é resistente a olhar para si, olhar para dentro, não enxergar os avanços que precisa fazer, de que pode ser um aliado contra o feminicídio, por exemplo, porque a tendência de muitos homens é entrar na defensiva. ‘Não, eu não sou esse tipo de homem’. ‘Não, eu não sou violento’. Ele raramente se inclui nesse combo que é de todos nós, eu fico muito atento. Eu tenho patriarcado em mim, sou criado por um pai nordestino, ele também foi criado por um pai, eu não sei se a arte me salvou em algum momento, mas sou atento aos meus machismos, que ainda podem ser praticados, que por desatenção minha, posso ter falado alguma coisa que soa machista. Estou sempre atento e redobro a atenção sabendo que crio um menino”.
SUBINDO MONTANHAS. “Não dá mais para a gente compactuar com casos de feminicídio que a gente vê a cada semana e não se sentir um pouco responsável por isso. Quando você de repente tratou mal a secretária, falou com a tua esposa de uma maneira torta, ou falou mal com a tua mãe, ou com a filha de um coleguinha… Isso tudo está entranhado na sociedade, principalmente nos homens. Não precisa entrar para uma comunidade, fazer um curso sobre masculinidade… Não preciso subir as montanhas para fazer isso. Mas se olhar para o teu ambiente de trabalho, para tua família, para o jeito que você trata a caixa do supermercado, isso já é um passo positivo”.
Captação de imagens e edição: Libário Nogueira / Sobre o programa semanal da coluna GENTE. Quando: vai ao ar toda segunda-feira. Onde assistir: No canal da VEJA+ no Youtube; Samsung TV Plus (canal 2075), LG Channels (canal 126), TCL Channel (canal 10031) e Roku (canal 221); ou no canal VEJA GENTE no Spotify, na versão podcast.







