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‘Farmar aura’: o meme que saiu das redes e virou campeonato pelo Brasil

Expressão virou fenômeno na geração alpha

Por Nara Boechat Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 jul 2026, 14h00
‘Farmar aura’: o meme que saiu das redes e virou campeonato pelo Brasil Priorizar nos meus resultados Google

Uma gíria que nasceu no universo dos games e foi incorporada pela geração alpha, que abrange os nascidos a partir de 2010, saiu das telas e ganhou as ruas. Nos últimos meses, campeonatos de “farmar aura” passaram a reunir centenas de jovens em diferentes cidades brasileiras e renderam vídeos com milhões de visualizações nas redes sociais. A expressão reúne dois termos: “farmar”, do vocabulário dos jogos eletrônicos, que significa repetir uma ação para acumular pontos ou vantagens, e a gíria “aura”, usada para definir carisma, presença ou estilo. Juntas, as palavras descrevem a capacidade de realizar algo marcante o suficiente para conquistar prestígio e reconhecimento entre os pares.

O termo em inglês, “aura farming”, circulava desde 2024 em comunidades de animes e games, mas ganhou projeção mundial em julho de 2025, após viralizar um vídeo do indonésio Rayyan Arkan Dhika, então com 11 anos, dançando. No Brasil, a tendência de eventos presenciais ganhou força entre abril e julho deste ano.

O caso mais conhecido é o Campeonato de Farmar Aura, realizado no Parque Max Feffer, em Suzano (SP), organizado pelo influenciador Victor Gabriel Tourinho Camargo, o Uvitinho. A disputa reuniu mais de 200 participantes em formato eliminatório e gerou vídeos que ultrapassaram três milhões de visualizações.

Para a pesquisadora, consultora de marketing e professora da Pós-Graduação em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Maria Avis, o fenômeno segue um roteiro já conhecido do ambiente digital. “Um meme surge, ganha força pelo compartilhamento, entra no vocabulário de um grupo e, depois, um criador de conteúdo formaliza isso em uma competição com regras simples. Os próprios vídeos do evento realimentam o ciclo viral”, afirma.

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Ela explica que esse processo ocorre em dois níveis. O primeiro é técnico, com conteúdos que se espalham quando combinam identificação com o cotidiano, emoção, visibilidade pública e uma boa história. O segundo é comportamental. “Exclusão social ativa no cérebro as mesmas regiões da dor física, enquanto aceitação e imitação de grupo liberam dopamina e oxitocina. Replicar o comportamento do grupo é, evolutivamente, uma estratégia de sobrevivência social, que sinaliza: ‘eu pertenço'”, diz.

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Para Maria, por trás da vontade de “farmar aura” está o clássico desejo de ser aceito na sociedade. Ela observa que essa necessidade é especialmente intensa durante a infância e a adolescência, mas alerta para os riscos da busca constante por validação: “Quando essa aceitação passa a ser um requisito para pertencer, os jovens podem viver em um estado permanente de auto-observação, preocupados com a forma como são percebidos. Isso pode gerar ansiedade, comparação e busca por aprovação. Ser interessante o tempo todo é impossível”.

Outro aspecto apontado pela pesquisadora é o impacto das redes sociais na construção da identidade. Segundo ela, plataformas digitais reúnem em um único espaço família, amigos e colegas, públicos que antes estavam separados, pressionando os jovens a construir uma imagem capaz de agradar diferentes audiências. Esse contexto ajuda a explicar, por exemplo, o crescimento das “finstas”, contas privadas usadas para compartilhar conteúdos com grupos mais restritos.

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Embora considere que a expressão “farmar aura” tenha vida curta, Maria avalia que o comportamento permanecerá. “‘Farmar aura’ como gíria é datado, mas a lógica é recorrente. Antes da internet já existiam batalhas de rima, rodas de capoeira, campeonatos de breakdance e outras disputas de habilidade e carisma diante de um público. A internet apenas acelerou esse ciclo, que passou de anos para semanas”, pontua.

A tendência, segundo a professora, vai desaparecer. No entanto, será substituída por outra. “‘Farmar aura’ é apenas o traje mais recente de um comportamento que atravessa nossa existência e continuará reaparecendo sob nomes que ainda nem existem”, conclui.

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