Como a Globo envelheceu na transmissão de campeonatos esportivos
Emissora enfrenta concorrência com a digital CazéTV; especialista faz análise
Um dos principais embates fora das quatro linhas na Copa do Mundo de 2026 acontece na disputa entre a TV Globo e a CazéTV. Pela primeira vez, a emissora da famílha Marinho não detém os direitos de transmissão de todos os jogos do torneio, cenário que amplia a comparação entre dois modelos de cobertura esportiva. De um lado, a tradição de seis décadas da TV aberta; do outro, uma linguagem digital, mais informal e voltada ao público jovem, que ganhou força com o canal de Casimiro Miguel. Nesse contexto, cresce a discussão sobre o futuro da Globo nas transmissões esportivas e sua capacidade de dialogar com novas gerações de espectadores.
Para a doutora em Comunicação Aurora Miranda, da UFJF, a principal diferença entre os dois projetos está na forma como cada um constrói a relação com o público. Segundo ela, a CazéTV aposta em uma equipe mais diversa, no humor e na participação ativa de quem acompanha a transmissão pelo ambiente digital.
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“A equipe é diversificada e desengessada. Tem o humor e a integração com o público pelo chat, e isso pode atrair mais o público para a CazéTV. A TV Globo faz tudo muito bem feito, as reportagens são ótimas, mas é como se aquilo fosse meio plastificado, não pode ter erro. E as pessoas se cansaram disso”, analisa Aurora.
A especialista ressalta que essa busca por uma comunicação mais espontânea não é novidade. “As pessoas querem isso há muito tempo. Um exemplo é quando o Faustão foi para a Globo, nos anos 1980, pela informalidade do programa dele. E com a tecnologia as pessoas querem interagir com a televisão, gostam de se sentir participantes do espetáculo”, afirma.
Aurora destaca que um dos principais diferenciais da CazéTV é transformar o espectador em parte da transmissão por meio do chat ao vivo. A experiência, segundo ela, cria uma sensação de proximidade que rompe com o modelo tradicional de apresentação esportiva. “A CazéTV trouxe informalidade, humor e interatividade, além da gratuidade para assistir às transmissões. É um diferencial importante e bem-vindo”, diz.
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Para a pesquisadora, a dificuldade da Globo está em encontrar equilíbrio entre a qualidade técnica que consolidou a emissora e uma linguagem mais conectada ao comportamento atual do público. Segundo ela, a resistência em alterar o modelo tradicional pode ser um obstáculo em um cenário em que a espontaneidade ganhou valor.
“A TV Globo tem medo de mudar aquele padrão dela muito plastificado, certinho, nada sai errado. Tanto que, quando sai um errinho qualquer que o repórter vem depois consertar, as pessoas vibram com o erro em cena. Errou, e daí? Vamos seguir”, avalia.
Segundo Aurora, a possibilidade de improviso aproxima a comunicação da experiência cotidiana do público. “A Cazé vive fazendo isso, e é isso que torna o espetáculo deles muito similar à vida. Com cada vez mais tecnologia, vai ser importante a humanização de quem faz a comunicação”, conclui.
Cabe ressaltar que, apesar do crescimento de novos formatos, a Globo ainda mantém uma posição de destaque na audiência, especialmente pelo alcance da TV aberta. Mas a disputa pela Copa do Mundo de 2026 evidencia uma mudança no consumo de conteúdo esportivo, com plataformas digitais ganhando espaço e exigindo que modelos tradicionais encontrem novas formas de conquistar o público.
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