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. Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

O fim do teto de gastos zerou o debate econômico

O PT fica livre das cobranças depois que Guedes e Bolsonaro explodiram a responsabilidade fiscal

Por Thomas Traumann 20 out 2021, 14h59

Há uma ironia histórica no fato de que os três pré-candidatos do PSDB participavam de um debate sobre quem será o escolhido do partido para disputar em 2022 ao mesmo tempo em que o índice da Bolsa de Valores de São Paulo despencava, o dólar batia recordes e os juros futuros descolam do resto do mundo com a confirmação que o governo Bolsonaro acabou com o Teto de Gastos. Criado em 2016, no governo Temer, para recuperar a credibilidade fiscal do País, a lei do Teto era um marco divisor entre os governos não-petistas e petistas, uma forma de tucanos e liberais de várias cepas se exibirem como mais responsáveis fiscalmente que o PT. Esse discurso está morto.

No debate promovido pelos jornais O Globo e Valor, os governadores João Dória, Eduardo Leite e Arthur Virgílio fizeram juras de amor eterno à responsabilidade fiscal, o auto fé de dez entre dez candidatos que procuram a benção do mercado financeiro. Depois da bilionária manobra de Paulo Guedes para explodir o teto de gastos para a prorrogar o Auxílio Emergencial e dar um novo impulso à campanha da reeleição de Bolsonaro, falar de teto de gastos é como defender a missa em latim. Não volta mais. É preciso muita ilusão para imaginar que se o Auxílio Emergencial for prorrogado até dezembro de 2022, o presidente eleito terá a coragem de extingui-lo em 2023. Virou gasto estrutural.

No debate, os dois favoritos ao posto de candidato tucano, Doria e Leite, não apresentaram uma ideia digna de nome para combater a inflação, gerar emprego e produzir uma retomada firma da economia. Repetiram o mesmo discurso liberal de Paulo Guedes usou em 2018 que, está mais que provado, era um estelionato eleitoral. Não explicaram a bancada do PSDB na Câmara opera como correia de transmissão do bolsonarismo e está hoje toda empenhada na explosão do teto de gastos.

Por isso, ao longo da campanha os falsos liberais (como a turma de Bolsonaro), os tucanos, outros candidatos da direita liberal e os petistas podem até defender novos mecanismos de controle de gastos, mas todos estarão no mesmo nível de discussão. Se o PT precisa explicar se vai repetir a contabilidade criativa dos anos 2012, 13 e 14, os liberais terão de explicar como defenderam a explosão do Teto para a campanha eleitoral. É lógico que o PT deve ser cobrado, mas é preciso uma dose extra de hipocrisia para não cobrar também as manobras de Paulo Guedes.

O fim da lei do Teto da forma como ocorreu é simbólico porque dificulta o discurso de reformas, sempre priorizado pelos agentes do mercado financeiro como único caminho para o paraíso. Desde Temer, o Brasil passou pelas reformas da previdência e das leis trabalhistas, mudou os marcos regulatórios do petróleo, gás, telecomunicações, ferrovias e de exploração do pré-sal, vinculou a política de preços da Petrobras ao mercado internacional, promoveu a independência do Banco Central e mudas várias regulações para melhorar o ambiente de negócios. Sem entrar no mérito das medidas, é difícil convencer os 14 milhões de desempregados e os 35 milhões que vivem de Auxílio Emergencial que reformas ainda mais profundas vão gerar melhora na qualidade de vida.

Se a direita liberal não entender que é preciso falar para os pobres e mal-ajambrados, a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva será um passeio. O jogou fiscal está zerado.

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