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Política com Ciência Por Sérgio Praça A partir do que há de mais novo na Ciência Política, este blog do professor e pesquisador da FGV-RJ analisa as principais notícias da política brasileira. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Bolsonaro, democracias e ditaduras

Ditadores têm escolhas e estratégias muito difíceis - não é para qualquer um!

Por Sérgio Praça 7 jun 2018, 18h43

* Outro dia, em um Airbnb no Rio de Janeiro, o rapaz que me alugou o quarto disse que era o primeiro mês em que seu apartamento estava no site. Conhecera pessoas interessantes. Sabe que o momento político é espinhoso. (Marielle Franco foi assassinada no dia seguinte.) Adesivos simpatizantes de um partido adornam a porta do apartamento. Alugaria o quarto para qualquer um? “Para um eleitor do Bolsonaro, não. Não é porque discordo da posição política. É questão de caráter.” Mais tecnicamente, é porque a intensidade da preferência do sujeito pela política pública “direitos humanos” é altíssima. Enxerga a posição contrária – alta intensidade pela política pública “direitos humanos” no outro sentido, como alguns eleitores de Bolsonaro defendem – como questão moral, não sujeita ao debate político razoável.

* Ditaduras têm algo muito confortável. Dão uma clara referência para quem não gosta de governo algum. A oposição se organiza facilmente, desde que direitos civis e liberdades políticas sejam minimamente mantidas. Isto é possível quando consideramos “democracia” e “ditadura” não como algo binário, mas uma variável contínua – fazendo referência, por exemplo, a um regime de “autoritarismo competitivo”, com certa liberdade de organização política e eleições. Antes de 1965, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves eram deputados bastante conservadores e de modo algum heroicos. Ulysses era – e continuou – péssimo articulador político. Teve coragem pessoal em sua anticandidatura à presidência em 1970. Ele e Tancredo fizeram a carreira batendo, com certo comedimento, em um inimigo impopular. Não é julgamento, mas não merecem fã-clube. Ok, é julgamento.

* Ser ditador é desconfortável. Imagine tomar o poder e instalar um regime autoritário no Brasil daqui a poucos meses. Matar, censurar, reprimir, prender sinaliza fraqueza política. O custo reputacional é altíssimo. Não reprimir, não censurar, é garantia de ingovernabilidade. A fragmentação partidária que temos hoje implicaria, de algum modo, ter que manter o sistema político com uma saudável válvula de pork eleitoral. Cancelar eleições parlamentares seria burrice. São ótimo termômetro sobre estratégias de políticos e, menos hoje do que em 1974, preferências populares.

* Democrata ou ditador, lidar com a mídia deve ser bem chato. Com agências de fact-checking, então, pelo amor de Deus. E daí que o político fala um dado errado sobre o déficit da Previdência? Pode ser erro honesto. Devem-se desculpas? Mentiras podem ser estratégicas. Ciro Gomes (PDT) é inteligente. Seus assessores são inteligentes. Ele sabe que as contas da Previdência não fecham. Mas, ao dizer o contrário, agrada parte do pessoal que quer “Lula livre”. São votos. O “dado errado” é, muito provavelmente, parte da estratégia eleitoral.

* Há uma espécie de superego coletivo que modera o debate político. Pierre Bourdieu chamava certas posições radicais de “indizíveis”. A coisa degringolou no Brasil de 2018. Mesmo um economista tranquilo, como Persio Arida, chama Jair Bolsonaro de “engodo” Nisso Dilma Rousseff tem algo em comum com Ciro e Bolsonaro. Por alguns, era considerada alguém que dizia as coisas na lata, sem hesitar – quando conseguia elaborar um raciocínio coeso. Mas ela não ia longe demais. Bolsonaro vai. Demarca, à Blairo Maggi, novos limites do “dizível” na política. Não é tímido sobre sua homofobia. Somos seus índios.

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