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Ricardo Rangel

Me engana que eu gosto

Com o apoio do presidente, Congresso derruba o veto do presidente e mantém o fundão em quase 6 bi

Por Ricardo Rangel 20 dez 2021, 12h32

O Congresso derrubou o veto do presidente Bolsonaro e manteve o fundão eleitoral de 2022 em 5,7 bilhões de reais. É quase o triplo do valor aprovado para as eleições de 2018 e 2020.

Em condições normais, veto derrubado — coisa numericamente difícil e que configura desafio aberto ao presidente — é sinal de que o presidente está fraco. Com baixíssimo nível de aprovação, lutando contra incontáveis acusações de irregularidades e mais de 140 pedidos de impeachment, é indiscutível que Bolsonaro está fraquíssimo.

Mas não é por isso que Bolsonaro é o campeão absoluto (nem Dilma se aproxima) de vetos derrubados. Não só por isso, ao menos.

É, em boa medida, porque Bolsonaro é adepto do curioso e interessantíssimo hábito de vetar o que não quer vetar. Veta sabendo que o veto vai ser derrubado; veta para ser derrubado: os líderes do governo não atuaram para defender o veto, e o próprio partido do presidente, o PL, votou contra o veto. É o jogo do me-engana-que-eu-gosto.

Um fundão nas alturas é parte do preço que Bolsonaro paga ao centrão para se manter no poder. O presidente sabe disso, o centrão sabe, a oposição sabe, todo mundo sabe. Só o eleitor bolsonarista, pelo jeito, não sabe.

Diante da proposta de um fundão de 6 bi, o presidente se faz de indignado e veta — mas, mansamente, opera para que seu próprio veto seja derrubado. Aí diz que é um absurdo, mas que nada pode fazer, que é uma vítima da velha política, de um Congresso que não o deixa governar etc. etc. E ainda tira onda de que respeita a democracia.

É o veto para inglês ver. Ou melhor, para bolsonarista ver.

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