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Reinaldo Azevedo

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Segurança Pública: desmoralizando Aloizio Mercadante e o ministro Márcio Thomaz Bastos

Falar de Aloizio Mercadante (SP), candidato ao governo de São Paulo, pode ser uma irrelevância sob muitos aspectos. É irrelevante porque ele tem a adesão de uma pequena parcela do eleitorado; é irrelevante porque seu aporte intelectual não merece tempo e linha de ninguém; é irrelevante porque ele é ignorado até em seu próprio partido. […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 23h21 - Publicado em 7 ago 2006, 00h58
Falar de Aloizio Mercadante (SP), candidato ao governo de São Paulo, pode ser uma irrelevância sob muitos aspectos. É irrelevante porque ele tem a adesão de uma pequena parcela do eleitorado; é irrelevante porque seu aporte intelectual não merece tempo e linha de ninguém; é irrelevante porque ele é ignorado até em seu próprio partido. Então por que vou falar dele? Porque, de certo modo, ele representa o que a política pode produzir de pior: um mistificador que acredita que, de fato, diz coisas sérias, ponderadas, refletidas. E aí a mídia lhe dá atenção e vai reproduzindo os números que ele põe para circular. Seu papel talvez fosse confrontá-los com os fatos.

Mercadante participou de um evento neste domingo em que apresentou as suas propostas para a segurança pública. Proposta, de fato, não há nenhuma. Explicitou suas boas intenções: ele quer mais integração entre as várias áreas da Polícia e maior eficiência. Bom saber. Seria estranho, embora mais original, se quisesse o contrário. Quem cuida da área para ele ele é Guaracy Mingardi, cientista político e ex-secretário de Segurança de Guarulhos. Durante a divulgação das suas intenções, fez-se acompanhar por Marcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça.
Embora irrelevante, o que irrita em Mercadante? O uso que ele faz da estatística e dos números para pegar trouxa.

Como quem dissesse algo de revelador, mandou bala: “Estamos numa situação inaceitável. Tivemos 131 mil homicídios no Estado em dez anos. No segundo trimestre deste ano morreu mais gente em São Paulo do que na guerra do Líbano. Foram mais de dois milhões de veículos roubados em dez anos, praticamente toda a produção de automóveis do ano passado”.

Como método de argumentação, isso não quer dizer rigorosamente nada sobre a segurança ou insegurança no Estado. Mercadante pode estar dizendo, por exemplo, que a guerra mata pouco no Líbano; ou que mata uma enormidade, já que o país tem 3,7 milhões de habitantes, ou o correspondente a um onze avos da população do Estado que ele quer governar.

Um idiota da objetividade poderia dizer que, em 10 anos, os homicídios no Estado corresponderam a apenas um terço do que matou a tsunami. Mas a sua decisão de transformar comparação em categoria de pensamento não tem limites. De novo, ele escolhe o prazo de uma década para falar sobre o número de carros roubados: 2 milhões. É muito ou é pouco? Provavelmente, é muito, mas que importância tem ser este número o que se produziu de veículos no ano passado? E se tivermos produzido poucos carros no ano passado?

Mercadante gosta de usar números para escandalizar, não para pensar. E é claro que escolhe o período de 10 anos porque o PSDB esteve à frente do governo. Se ele estivesse disposto a produzir políticas públicas em vez de chicanas, os números com os quais trabalharia seriam outros. Eu vou publicá-los aqui. E desafio este senhor a provar que não são verdadeiros.

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OS NÚMEROS QUE IMPORTAM
No primeiro trimestre deste ano, houve no Estado 1.551 homicídios dolosos; no de 2005, 2.127; no de 2004, 2.367… Em 2001, 3.418. Ou seja, em cinco anos, houve um declínio de 42,6% desse tipo de crime. No primeiro trimestre de 2002, houve 110 crimes de extorsão com seqüestro; no deste ano, 28 — uma queda de 74,5%. No primeiro trimestre de 2002, houve 145 latrocínios no Estado, contra 88 no de 2006. Provavelmente, são índices ainda muito altos, mas o que importa é saber que estão em acentuado declínio, o que levou a ONU a elogiar o Estado. Eu não dou muita bola pra ONU, mas “eles” dão.

Mercadante fala em cumprimento de penas alternativas e tal. Isso não depende da vontade das autoridades estaduais. Talvez ele acredite que se prenda demais em São Paulo. Parece-me que ele se vê tentado a deixar mais bandido na rua para ter menos trabalho caso eleito. Com efeito, nos dez anos que ele escolheu como período de estudo, dobrou o número de presos no Estado, que passam hoje de 140 mil, ou 40% da população carcerária do país, embora o Estado tenha apenas um terço da população. É um sinal evidente de que São Paulo carrega o ônus de prender criminosos de outras unidades da federação.

MÁRCIO THOMAZ BASTOS
A presença de Bastos no evento é maluquice se não for cinismo. Ambos prometeram para São Paulo a eficiência do governo federal na área. Deus me livre! Bastos não tinha nem onde pôr Fernandinho Beira-Mar. Viu-se compelido a apelar a São Paulo. À época, ele prometeu construir cinco presídios federais. Construiu um só.

No ano passado, Bastos foi autorizado a gastar R$ 5,6 milhões na área de Inteligência Federal: contentou-se só com R$ 1,9 milhão. Empregou apenas 30% do que podia no combate ao crime (R$ 12,2 milhões em vez dos R$ 40,8 milhões autorizados. Nas rodovias federais, por onde corre parte do tráfico de drogas e de armas, o ministro poderia ter investido R$ 84,4 milhões: preferiu empregar apenas R$ 8,1 milhões: ou 9,6%. No Sistema Único de Segurança Pública, que seria a menina dos olhos e onde realmente se faria o trabalho de integração, dos R$ 244,4 milhões que poderiam ter sido aplicados, usaram-se R4,9 : 51% milhões. Numa rubrica chamada “Prevenção e Preparação para Emergências e Desastres”, investiu-se apenas — atenção! 0,06% do autorizado: dos R$ 136,5 milhões, nosso gênio usou R$ 93 mil… Ou, somando tudo: foi autorizado no Orçamento um gasto de R$ 512 milhões, e só foram efetivamente aplicados R$ 147,3 milhões: 28,7%

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Eles poderiam dizer que estou errado, que estou mentindo. À diferença de Mercadante, não uso comparações para enganar trouxa. Tais números não podem ser contestados porque são do Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal). São números oficiais. Não os inventei. E esse o padrão que ambos querem ver aplicado no Estado.

Finalmente, esse Thomaz Bastos é mesmo um “amostrado”, como se diz em certas regiões do país. Em 2002, último ano de FHC, o governo federal repassou para São Paulo, na área de segurança pública, R$ 223,2 milhões; em 2003, primeiro ano do Babalorixá de Banânia, esse número caiu para R$ 65,3 milhões; em 2004, subiu um pouco: R$ 93,5 milhões; em 2005, despencou para R$ 29,7 milhões — um sétimo do que FHC repassava. Lula e Bastos deixaram o Estado a pão e água. Agora, o PT se oferece como salvador da pátria. Ainda assim, o Estado conseguiu fazer cair drasticamente o número de ocorrências, como se viu. Estes também são números do Siafi.

Mercadante gosta de comparações? Pois não! O avião de Lula custou US$ 56.713.976,00, mais ou menos R$ 125 milhões, mais de quatro vezes o que o Apedeuta investiu em segurança no Estado que tem 40% da população carcerária do país. Mas isso é comparação que agrada ao método petista de argumentação, coisa de gente preguiçosa, vagabunda, que não estuda. O que interessa é comparar a verba da segurança consigo mesma: Lula investiu em São Paulo, nessa área, UM SÉTIMO, reitero, do que investia FHC.

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