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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

São Paulo tem um terço dos homicídios do Rio, mas o Jornal Nacional faz paulista ficar com inveja da população fluminense. E a velha questão da lógica

Os responsáveis pela política de segurança pública de São Paulo assistiram ontem a esta reportagem do Jornal Nacional e ficaram com inveja do Rio, embora se mate em terras paulistas um terço do que se mata nas fluminenses. Quem já assistiu veja de novo. Quem anda não viu pode fazê-lo agora. Vou analisar a edição […]

Por Reinaldo Azevedo 1 fev 2011, 06h21 | Atualizado em 5 jun 2024, 18h44
São Paulo tem um terço dos homicídios do Rio, mas o Jornal Nacional faz paulista ficar com inveja da população fluminense. E a velha questão da lógica Priorizar nos meus resultados Google

Os responsáveis pela política de segurança pública de São Paulo assistiram ontem a esta reportagem do Jornal Nacional e ficaram com inveja do Rio, embora se mate em terras paulistas um terço do que se mata nas fluminenses. Quem já assistiu veja de novo. Quem anda não viu pode fazê-lo agora. Vou analisar a edição propriamente e depois quero me ater ao conteúdo e à mitologia politicamente correta que a orienta, embora desmoralizada pela realidade e pela lógica. Vejam. Volto em seguida.

https://video.globo.com/Portal/videos/cda/player/player.swf

A reportagem dura 2min48s. Quarenta e sete segundos são dedicados ao Rio. No ano passado, o Estado teve 29,9 homicídios por grupo de 100 mil habitantes, uma queda de 18% na comparação com o ano anterior. Pela primeira vez, o índice ficou abaixo dos 30 por 100 mil. Algo a comemorar, sem dúvida. Enquanto ouvíamos a voz do repórter em off, exibe-se a imagem de soldados do Exército na favela, alusão explícita ao Complexo do Alemão e à Vila Cruzeiro, e de um vigilante helicóptero. Em seguida, uma entrevista com o secretário se Segurança, José Mariano Beltrame. Falou uma língua um tanto estranha, mas acho que entendi o que ele quis dizer. Transcrevo:

“O Rio de Janeiro ainda está longe do estado que a gente espera chegar. O que eu acho de mais importante de tudo isso é que a estratégia de focar em índices considerados estratégicos a gente faz com que todo o resto diminua e faz também com que a percepção de violência melhore”

Ele quis dizer que A SECRETARIA DE SEGURANÇA E O GOVERNO DO RIO ESTÃO NO CAMINHO CERTO E QUE SUAS ESCOLHAS DETERMINAM O RESULTADO POSITIVO.

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Mas e São Paulo? Ah, São Paulo…

Enquanto o repórter dava o índice de homicídios do Estado, 10,47 por 100 mil habitantes – quase um terço do que se mata no Rio e menos da metade do que mata no Brasil -, quais eram as imagens exibidas? Revejam o filme a partir dos 48 segundos:
– close na capsula de uma bala. Por quê?;
– um policial da perícia, suponho, fotografando um cadáver. Por quê?;
– um cadáver coberto por um plástico amarelo. Por quê?;
– close nos óculos de uma vítima no chão. Por quê?

Só imagens noturnas, tétricas. Dá vontade de morar no Rio. muito mais seguro! Em TV, o tempo é curto, precioso. As imagens são escolhidas com um propósito. Elas querem dizer, ou devem querer dizer, alguma coisa. Por que as que ilustram os números do Rio transmitem a paz e a segurança, e as que ilustram os de São Paulo, o contrário? Por que um dos estados em que mais de mata no Brasil, a despeito da melhoria dos índices – o Rio -, aparece associado a algo positivo, e o Estado em que menos se mata (São Paulo deve ter alcançado hoje essa condição) a algo negativo? Não faço TV, não sou especialista em TV, não entendo nada de TV. Mas de lógica eu entendo. E essas escolhas não fazem sentido. A menos que me digam que TV é dessas coisas que estão fora da lógica…

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A pauta
Esse é apenas um dos problemas. Assistindo à reportagem, descobri que José Mariano Beltrame, o secretário de Segurança (e, pois, entende-se que também seu chefe, Sérgio Cabral), é o responsável pela melhoria dos índices no Rio. Já os de São Paulo são determinados por aquilo que eu chamaria de “coquetel da baixa sociologia”. O homólogo de Beltrame no Estado, Antônio Ferreira Pinto, não foi entrevistado. Em seu lugar, falou o comandante geral da PM, Álvaro Camilo. Atenção: estamos aqui com 1min15s de reportagem. Ainda falta mais da metade. E as coisas vão piorar muito.

O Rio não precisa do concurso da sociologia para explicar dados. Beltrame se encarrega de declarar, como é mesmo?, que o “mais importante é a estratégia de focar em índices estratégicos”, se é que vocês o entendem. Mas São Paulo precisa. E aí é convocado a falar o Coordenador de Estudos do Núcleo de Violência da USP, Sérgio Adorno. Prestem atenção a esta fala do repórter:

“O coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da USP acredita que os homicídios caíram desde 1999 porque governos e cidadãos agiram juntos. De um lado, a sociedade criou associações, cursos de capacitação profissional e núcleos de proteção para jovens e evitou que eles cometessem crimes. De outro, os governos Federal e Estadual fizeram seu papel. Aumentaram o controle de armas de fogo, o investimento social nos bairros mais violentos e os recursos da polícia, principalmente a comunitária.”

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Esse núcleo de estudos da USP é um adversário histórico da política de segurança pública de São Paulo, que reduziu os homicídios em mais de 70% num prazo de dez anos. Esse cascatol reproduzido pelo repórter foi passado por Adorno. Os “inteliquituais” da USP que lidam com esse assunto se negam a reconhecer a eficiência do trabalho da polícia. São Paulo reduziu drasticamente o número de homicídios porque é o estado que mais prende bandidos no Brasil.

Só para ilustrar: em dezembro de 2009, a população carcerária no país era de 474.626 pessoas. Do total, nada menos de 34.6% estavam em São Paulo, que tem apenas 22% da população. Será que o estado tem mais pilantras do que os outros ou prende demais? Não! Tem uma polícia e uma segurança mais eficientes. O Rio vinha em quinto lugar, com menos presos do que Minas, Paraná e Rio Grande do Sul. São 399,79 os presos por 100 mil habitantes em São Paulo, contra apenas 166,56 no Rio. Vejam que coisa: o Rio tem quase um terço dos presos e quase o triplo de homicídios. Alguém acha curioso?

Para o doutor ali, os números virtuosos de São Paulo é coisa da tal sociedade… Eu realmente gostaria de saber qual foi a colaboração do governo federal com a segurança pública de São Paulo. Não existe! Outros mitos vão se agregando. Um deles é o Estatuto do Desarmamento: se ele foi tão importante para reduzir os homicídios no Estado, por que não se verificou o mesmo nas outras unidades da federação? Se crescimento econômico, por si, diminui as mortes, por que elas aumentaram em muitas capitais do Nordeste, segundo o Mapa da Violência, que é um estudo sério, com dados até 2007? No Nordeste, deveria ter despencado, mas explodiu. Vejam a tabela. Volto em seguida.

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tabela-homicidios2O pior está por vir
São Paulo está a um passo de atingir um número que a ONU considera de violência não endêmica: 10 mortos por 100 mil. Em 10 anos, redução de mais de 70% nos homicídios. Nesse tempo, FEZ TUDO O QUE A USP NÃO MANDOU. Ah, mas os índices estagnaram, diz o “especialista”, indicando a necessidade de “mudar a estratégia”, o que, nota-se, tem o endosso da reportagem. Ignora-se o óbvio: quanto mais baixo o índice, mais difícil se torna reduzi-lo e mais fácil, elevá-lo. É só saber um pouquinho de matemática. Se houvesse um homicídio num país sem homicídios, o crescimento teria se multiplicado ao infinito. Uma cidade que tenha tido dois mortos num ano contra um único no anterior viu o índice crescer 100%.

Então ficamos assim: no Rio, mata-se o triplo, mas o resultado deve ser comemorado porque houve uma queda, e estamos diante da evidência de que o governo segue a boa estratégia. Já São Paulo, coitado!, mesmo com aquele que deve ser hoje o menor índice nacional, tem motivos para se preocupar. A estratégia do Rio tem de ser mantida, diz Beltrame. A de São Paulo, segundo Adorno e a reportagem do JN, tem de mudar.

Talvez se devesse adotar o modelo do Rio… Quem sabe prendendo um terço e matando o triplo, houvesse algo a comemorar. Geraldo Alckmin deveria aprender com Sérgio Cabral a espantar bandidos em vez de prendê-los.  É a metafísica da hora.

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