Assine VEJA por R$2,00/semana
Imagem Blog

Reinaldo Azevedo Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO

Por Blog
Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura
Continua após publicidade

PAULO LACERDA: VERDADES, MENTIRAS E UM POUCO DE LÓGICA

Eugênia Lopes, do Estadão, reporta o seguinte em um texto publicado hoje:“O diretor da Abin fez um desabafo contra a imprensa e, em particular, a Veja. Lacerda se disse ‘perplexo’ com a acusação feita pela revista de que teria contas no exterior. Afirmou ainda estar ‘indignado’ com o fato de a revista apontar a Abin […]

Por Reinaldo Azevedo
Atualizado em 31 jul 2020, 19h06 - Publicado em 21 ago 2008, 17h15

Eugênia Lopes, do Estadão, reporta o seguinte em um texto publicado hoje:
“O diretor da Abin fez um desabafo contra a imprensa e, em particular, a Veja. Lacerda se disse ‘perplexo’ com a acusação feita pela revista de que teria contas no exterior. Afirmou ainda estar ‘indignado’ com o fato de a revista apontar a Abin como responsável por grampos telefônicos no Supremo Tribunal Federal e no Planalto. ‘Aproveito para manifestar a minha repulsa e indignação ao conteúdo da matéria que não tem o menor compromisso com a verdade’”.
Pois é. Sempre que alguém como Paulo Lacerda resolve ser arauto da verdade, o meu desejo de precisão se açula, tornando-se ainda mais saliente.

Contas no exterior
VEJA jamais afirmou que Paulo Lacerda tem uma conta no exterior. Não! Ele se refere a duas reportagens publicadas pela revista, nas edições 1956 e 1957, de 17 e 24 de maio de 2006. Na primeira (íntegra aqui, em link aberto), a revista noticia o que chamou de “guerra dos porões” entre Daniel Dantas e o governo. A lista com as supostas contas secretas era parte do arsenal do banqueiro. Na segunda reportagem (íntegra aqui, também em link disponível), a revista informa que o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, encontrara-se com Dantas. Por que preferiu o encontro privado a levá-lo aos tribunais? Continua a ser uma boa questão.

Assim, convém que Lacerda e o próprio jornalismo sejam precisos quanto ao que vai nas reportagens de VEJA, a saber:
– o objeto da notícia, basta ler, não são as contas secretas, mas a guerra nos porões;
– a revista informa que Dantas se municiava de papelada, pouco importa se falsa ou verdadeira, para pressionar o governo;
– a revista deixa claro que investigou a existência das tais contas secretas; elas não puderam ser comprovadas;
– a revista fez mais: julgou, dados os motivos expostos acima, que era o caso de revelar a fonte da lista: Daniel Dantas.
– a revista cumpriu, em suma, a sua função. E, se vocês relerem as reportagens, verão que se antevê ali que a guerra seria sangrenta.

O que está escrito nas páginas de VEJA escrito está. Não cabem juízos subjetivos a respeito. Uma coisa é afirmar: “Lacerda tem conta no exterior”. Outra é noticiar o confronto entre Dantas e setores do governo, informando que o banqueiro tem, no seu arsenal, uma lista de supostas contas no exterior de autoridades da República. Mais: a revista investigou a veracidade da lista e deixa claro que não pôde comprová-la. Lacerda pode até não gostar da VEJA. Mas que seja por outros motivos.

Escuta da AbinQuanto às escutas de que foram vitimas autoridades da República, incluindo Gilberto Carvalho, chefe-de-gabinete de Lula, reproduzo uma fala ainda mais dura de Lacerda sobre a reportagem de VEJA:“Penso ser inaceitável que repórteres, conscientes dos impactos que causam suas publicações, se aventurem em reportagens sem nenhuma base em fatos. Ou que se lancem em conjecturas e suposições fundamentadas em meias verdades. É necessário repulsa e indignação ao conteúdo da matéria que não tem o menor compromisso com a verdade. É a clara intenção de denegrir um órgão público e a honra de seus servidores”. Lacerda instou ainda os repórteres de VEJA a apresentar “provas”.

Continua após a publicidade

Muito bem. O que informou VEJA na edição retrasada? “O gabinete do presidente do STF, Gilmar Mendes, foi alvo de um monitoramento criminoso. Um documento reservado obtido com exclusividade por VEJA mostra que espiões, instalados do lado de fora do tribunal, usaram equipamentos para tentar interceptar as conversas do ministro e de seus assessores dentro da mais alta corte de Justiça do país.” Mais: há transcrições de conversas de Gilberto Carvalho, chefe-de-gabinete de Lula, que indicam que ele foi grampeado pela Abin (íntegra da reportagem aqui).

O relatório existe. As transcrições existem. O policial é Paulo Lacerda. Ele não precisa que os repórteres façam o seu trabalho. Já basta o esforço da imprensa no caso do mensalão, não é mesmo? A PF, então sob o seu comando, não chegou a lugar nenhum.

Ainda sobre verdades e mentiras
O delegado Lacerda parece ter alguma dificuldade de distinguir as fronteiras entre a verdade e a mentira. Quando esse mal acomete autoridades, a imprensa quase sempre apanha. Por que digo isso? Quando se noticiou que — primeiro neste blog — a Abin participara diretamente, de modo ilegal, da Operação Satiagraha, a agência divulgou uma nota oficial, datada de 14 de julho, a saber:

“Em razão de notícias veiculadas em setores da mídia envolvendo equivocadamente o nome da Agência Brasileira de Inteligência em relação a assunto apurado pela Polícia Federal na Operação Satiagraha, que investiga possíveis crimes praticados pelo banqueiro Daniel Dantas e outros, cumpre esclarecer o seguinte:1. A Abin não realiza quaisquer atividades para as quais não possua respaldo na legislação em vigor. Por isso, considera absurdas e levianas as declarações de que tenha executado monitoramento telefônico de quaisquer pessoas, sejam elas do setor público ou privado;2. A Direção Geral não tem e não teve nenhuma participação ou iniciativa, muito menos ingerência, nos fatos que resultaram na referida operação policial. Desde que deixou a Direção do Departamento de Polícia Federal, em agosto de 2007, o atual Diretor-Geral da Abin dedica-se exclusivamente a sua função;3. A Abin, na condição de órgão central do Sistema Brasileiro de Inteligência, pode e deve operar em cooperação com os demais órgãos públicos em ações que não lhe sejam vedadas, como realizar consultas em bancos de dados, análises de inteligência e, sempre que possível, no suporte logístico. Para tanto, caso solicitada, estará sempre à disposição dos órgãos parceiros, para auxiliar em trabalhos de sua atribuição, como ocorre em algumas grandes investigações, que, não raro, contam com a participação de integrantes de vários órgãos da Administração Pública Federal.”ComentoNão há espaço para interpretação. Lacerda nega qualquer envolvimento com o caso. Em depoimento à mesma CPI dos Grampos, o delegado Protógenes Queiroz foi obrigado a admitir a participação da agência, sim. E a saída foi dizer que tal atuação tinha sido “informal”, daí que não haja qualquer registro ou solicitação formal. Alimentava-se, assim, a fantasia de que Lacerda não sabia de nada.

Continua após a publicidade

Ontem, na CPI, talvez esquecido de que divulgara a nota, o chefe da Abin afirmou que sabia do envolvimento de agentes seus com a operação desde março — embora sua nota seja de julho… Chamou a colaboração, que o próprio Protógenes classificara de “informal”, de legal, sustentando que ela é corriqueira. Disse mais: não sabe em quantas operações seus agentes estão envolvidos neste momento. Vale dizer: para todos os efeitos, Lacerda tem um chefe: Lula. Mas é como se os subordinados de Lacerda não tivessem chefe nenhum!

Ademais, chega a ser doloroso que eu tenha de fulminar a fala do chefe da Inteligência brasileira — Deus queira não seja isso um oximoro…— com a mais elementar das lógicas. Se ele admite não saber quantas e quais são as operações em que seus homens estão metidos agora, não tem nem mesmo autoridade intelectual para negar que a Abin tenha sido a responsável pela espionagem feita contra o STF e pelo grampo no telefone do chefe-de-gabinete de Lula.

Não pretendo ensinar serviço de Inteligência a Lacerda, é claro, embora ele se considere um bom professor de jornalismo. Só o convido a beber na fonte da lógica elementar.

Em tempo: ao concluir o inquérito sobre o tema, a própria PF concluiu que VEJA agiu corretamente. E comprovou que foi Dantas quem repassou o dossiê das contas. Mais alguma dúvida?

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

O Brasil está mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VEJA.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.