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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

OS NÚMEROS DO IBOPE E A PORTA ESTREITA. OU: PRA CIMA DOS TROIANOS!

Vocês sabem que não brigo com números de pesquisa. No máximo, contesto métodos. Já fiz aqui restrições a procedimentos do Sensus e do Vox Populi e faria de novo se eles repetissem as mesmas práticas. Independentemente do resultado.  E não há nada de errado com, até onde se sabe, a atuação do Ibope. Os números […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 14h59 - Publicado em 23 jun 2010, 20h01

Vocês sabem que não brigo com números de pesquisa. No máximo, contesto métodos. Já fiz aqui restrições a procedimentos do Sensus e do Vox Populi e faria de novo se eles repetissem as mesmas práticas. Independentemente do resultado.  E não há nada de errado com, até onde se sabe, a atuação do Ibope. Os números da pesquisa são estes que estão aí.  Não há nada que determine que os números não vão mudar. Hoje, a fotografia é  ruim para o tucano José Serra, como já foi para a petista Dilma Rousseff um dia. “É, mas ela está em ascensão, tem o presidente Lula, a economia a favor etc”. Tudo isso é verdade e já era um dado da equação quando ele decidiu se lançar na disputa. Antever que  a petista seria competitiva ou pudesse ultrapassar o tucano na pesquisa nunca chegou a ser uma previsão ousada, não é mesmo? Havia quem apostasse nisso para fevereiro. A ultrapassagem só aconteceu no fim de junho.

O resultado é especialmente preocupante para os tucanos porque vem na seqüência do bom programa do PSDB no horário político. Não há muitos reparos a fazer no que foi levado ao ar. Em relação ao Ibope de 6 de junho, em pesquisa encomendada pela TV Globo, ele oscilou dois pontos para baixo, dentro da margem de erro — de 37% para 35% —, e ela cresceu 3, dos mesmos 37% para 40%. No segundo turno, a movimentação foi mais significativa: havia um empate rigoroso em 42%, e agora ela lidera com  45% a 38%.

O candidato tucano anda tendo algumas dificuldades, como a demora em definir o candidato a vice-presidente, por exemplo. Não creio, no entanto, que isso possa ter tido alguma influência. A rigor, ninguém vota em vice. A questão pode gerar, no máximo, notícia negativa na imprensa, mas nada relevante. Caso se tente procurar o “erro” fundamental de Serra e do PSDB, ninguém vai achar. É que a tarefa sempre foi e continuará a ser hercúlea. Nunca antes nestepaiz se viu máquina eleitoral tão azeitada: faz os seus gols com os pés — tem números a exibir —, mas também faz os gols com as mãos, como estamos cansados de ver.

A disputa se dá em condições de absoluto desequilíbrio. A grande campanha em favor de Dilma — além da mobilização pessoal de Lula — está na propaganda oficial e das estais, que já não se distingue da campanha eleitoral. A Petrobras, o Banco do Brasil e a CEF, para citar três casos, não vendem produtos, mas um “novo Brasil”, o mesmo de que fala Dilma. É campanha eleitoral. Pode-se argumentar que também o estado de São Paulo é um grande anunciante. É verdade! Em São Paulo!!! A propaganda das estatais e do governo federal é nacional. Essa propaganda não busca falar apenas com o “povão”. Veja-se, por exemplo, o dito “plano de investimentos” da Petrobras. O Estadão fez hoje um excelente editorial a respeito. A estatal está em plena campanha eleitoral — em favor de Dilma, obviamente.

O horário eleitoral e os eventuais debates — se é que Dilma vai comparecer — tendem não a igualar as condições das disputas (isso é impossível!), mas, ao menos, a minorar os efeitos da desproporção entre a máquina governista e a oposição.  O PT sabe que ainda não liquidou a fatura, e o PSDB sabe que algo vai ter de mudar.

Numa campanha, as coisas não caminham sempre num mesmo sentido. Alguns números das pesquisas Datafolha, de 2006, demonstram isso. Em maio daquele ano, Lula aparecia com 45%, e Alckmin, com 22%. Um mês depois, o tucano tinha 29%, e o petista, 46%.  Em 8 de agosto, 24% a 47%. Em 5 de setembro, 27% a 51%. A verdade das urnas de outubro foi outra: sete pontos apenas de diferença nos votos válidos.

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Cuidado com o rancor
Aos leitores e eleitores descontentes com o resultado, recomendo: “Saibam driblar o rancor dos que já se consideram vitoriosos e se imaginam saqueando o Palácio de Inverno”. Vocês podem imaginar os escombros de moral que já andaram batendo aqui na minha praia. A exemplo de Dunga, esses caras não sabem se comportar quando vencem uma partida e vão longo dando canelada, como se fossem Senhores de Todas as Copas. Não saber ganhar é sempre mais perigoso — e costuma ser mais violento — do que não saber perder. E, obviamente, a disputa ainda não tem vencedores.

Que os números servem à deseducação política, isso é inequívoco, embora não haja nada a fazer nesse particular. A realidade das pesquisas é esta que aí está. Deseduca porque, reitero, o PT tem usado excessivamente a Mão Grande no jogo, e a candidata tem fugido do embate com os adversários, mantendo, como fazem o presidente e sua tropa de choque na Internet, uma linha de indiscreta hostilidade com a imprensa. O resultado ora positivo tende a lhes dizer que esse é mesmo o caminho; os números serão usados como reforço para a incivilidade política.

Não é o caso de dizer aos tucanos para relaxar que o bicho é manso. Não é, não! Eleições têm seus marcos de previsibilidade — no caso, o peso de Lula e da economia —, mas cada uma delas é imprevisível à sua maneira. Em 5 de julho de 2008, Gilberto Kassab tinha 13% das intenções de voto em São Paulo, contra 38% de Marta Suplicy e 31% de Geraldo Alckmin. Lula tinha entrado na campanha para valer. Na véspera do primeiro turno, ela estava com 36%, e ele, com 30%. As urnas apontaram 33,61% para ele e 32,79% para ela; Alckmin ficou com 22,48%. No segundo turno, o agora prefeito obteve 60% dos votos válidos. Há muita coisa a ser feita, inclusive ajuste de discurso.

Um ajuste que requer sangue frio. Não adiantaria, por exemplo, Serra sair chutando a canela de Lula, o que não fez até agora. Continua a ser o sonho de consumo do Babalorixá. Afinal, ainda é o candidato — Dilma só preenche o vazio na cédula. Ele faz de tudo para levar um “terceiro mandato”. Um pouco mais de Brasil real, no entanto, na campanha, não há de fazer mal nenhum. Vejam a tragédia que acaba de colher a população em Alagoas e Pernambuco, deixando mais de 100 mil desabrigados, números que lembram aquelas trágicas monumentalidades da China e da Índia. Não se trata de culpar este governo por isso ou aquilo, mas de apontar uma saída para que coisas assim não se repitam. Não se pode domar a natureza. Mas talvez se possam domar as políticas públicas.

Sei, claro: “Fácil de falar; difícil de fazer”. Enfrentar o paredão da publicidade oficial, que contamina também a imprensa, é a verdadeira dificuldade de Serra e seria a de qualquer um que decidisse enfrentar a candidata do PT. Como em São Mateus, a porta da perdição é larga, e a da salvação, estreita. Nessa disputa, sempre foi assim. A dificuldade nada mais fez do que se materializar. Sempre foi muito difícil, mas continua possível. Assim se fazem as derrotas honradas, sei. MAS ATENÇÃO! ASSIM TAMBÉM SE CONSEGUEM AS VITÓRIAS HOMÉRICAS.

Pra cima dos troianos!

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