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Reinaldo Azevedo

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O socialismo da empulhação

Que PT sai do 3º Congresso, que terminou neste domingo? Trata-se de um partido um pouco pior do que era antes porque vimos ali um misto de ressentimento e agressividade disfarçados de discurso de autodefesa. E quem deu o tom foi ninguém menos que o chefe de todos eles, incluindo os quarenta: Lula. Não só […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 22h12 - Publicado em 3 set 2007, 06h48
Que PT sai do 3º Congresso, que terminou neste domingo? Trata-se de um partido um pouco pior do que era antes porque vimos ali um misto de ressentimento e agressividade disfarçados de discurso de autodefesa. E quem deu o tom foi ninguém menos que o chefe de todos eles, incluindo os quarenta: Lula. Não só atribuiu aos companheiros a tarefa de defender os mensaleiros como declarou a sua turma a mais ética da política nacional. Para um presidente que só não foi processado por crime de responsabilidade porque as oposições erraram no cálculo, não deixava de ser uma vitória pessoal.

E o que o PT aprovou de tão importante? Uma resolução (como dizem) sobre o socialismo, o aumento da interlocução com os movimentos sociais (também abordo abaixo) e ainda:

– Constituinte exclusiva para fazer a reforma política;
– Plebiscito sobre a estatização da Vale (ver posts abaixo);
– Transformar o caso Eduardo Azeredo em algo tão grave quanto o mensalão;

– manter a política de coalizão para 2010;
– elaborar um Código de Ética do PT;
– abraçar a campanha pela descriminação do aborto;
– a realização do XIV e XV encontros do Foro de São Paulo, em Montevidéu, no ano que vem e na Cidade do México em 2009;
– ah, sim: só concorre a eleições quem está em dia com a Tesouraria.

A Constituinte exclusiva, como vocês sabem, é o molde dos neoditadores latino-americanos: Hugo Chávez (Venezuela), Rafael Corrêa (Equador) e Evo Morales (Bolívia). Eis a estratégia das esquerdas latino-americanas: usar os instrumentos da democracia contra a democracia. Não acredito que prospere, mas, está claro, o PT vai tentar. Esta é também a diretriz do Foro de São Paulo, que reúne partidos de esquerda da América Latina, de que Lula é fundador. Só não se aplicou a fórmula no Brasil porque não há, por aqui, condições políticas.

Socialismo e empulhação
O partido também reiterou suas convicções socialistas. Venceu a resolução redigida por Marco Aurélio Top Top Garcia, de que destaco um trecho emblemático (em vermelho), excluindo os erros de gramática:

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A crise dessas alternativas socialistas foi acompanhada do renascimento do liberalismo econômico. O prefixo “neo” que se acoplou a esse liberalismo requentado não escondia o caráter conservador e regressivo de suas propostas. O neoliberalismo pregava a desregulamentação de toda a atividade econômica, fazendo do mercado seu elemento central, acompanhado da defesa de um “Estado mínimo”. O conceito de globalização servia para negar o Estado nacional. Em nome de um individualismo radical, que substituía o cidadão pelo consumidor, negava-se a luta de classes e estigmatizava-se qualquer conflito social. A partir daí, decretava-se o “fim da história”, que se transformava em um eterno presente. Suprimia-se qualquer alternativa ao capitalismo. Mais que isso: atingia-se duramente a própria democracia. Negando-se a soberania nacional, tornava-se irrelevante a soberania popular.

Mentira, ignorância, má-fé. Eis uma aula tipicamente petralha. O avanço, na América Latina, do que se chama acima “neoliberalismo”, ao contrário do que diz o texto, viu o fim das ditaduras no continente e, portanto, o avanço da democracia. Menos Cuba, é claro, que continuou refratária a essas modernidades… O fantasma da ditadura volta a assombrar a América Latina quando os regimes subordinados ao Foro de São Paulo chegam ao poder: hoje, além de Cuba, já há a ditadura venezuelana e duas outras a caminho: a equatoriana e a boliviana. Todas elas comandadas por amigos de Lula e de Marco Aurélio.

Dispenso-me de comentar essa tontice de “substituição de cidadão por consumidor”. Isso se ensina em “Massinha I”, na pré-escola da sociologia esquerdopata. O que me interessa ali é aquela bobagem do “fim da história”, referência a um livro do americano Francis Fukuyama: O Fim da História e O Último Homem. A pilantragem intelectual petista incomoda. Mas a burrice incomoda muito mais. Sempre preferi combater larápios a combater idiotas.

O livro de Fukuyama é de 1992 — e o artigo que o originou é de 1989. Em ambos, ele tratou do iminente colapso do socialismo e do triunfo, óbvio, da economia de mercado e dos fundamentos do estado liberal. O recurso retórico do “fim da história” era uma referência a Hegel e uma resposta a outro “finalista”: Karl Marx, para quem o tal fim seria o comunismo. Então temos o seguinte: aquilo a que se chamou “neoliberalismo” é coisa do fim dos anos 1970 e década de 80, anterior, portanto, ao livro de Fukuyama. O livro, por sua vez, não decretou a morte da história — isso é pura tolice —, mas afirmou, e com correção, que a sociedade de mercado havia vencido a batalha contra o comunismo. E não venceu? A China sempre poderá render um bom debate. É socialismo aquilo? A única coisa que dá para afirmar com certeza é que se trata de uma ditadura.

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Onde, durante o suposto “neoliberalismo”, a “soberania popular” foi negada, a não ser em Cuba, imune à onda “neoliberal”? O curioso da “resolução” é que o partido afirma, acreditem, as suas convicções ANTICAPITALISTAS e se mantém construindo o tal “socialismo”, que eles querem radicalmente “democrático”. Não fica claro que diabo de modelo é — e os petistas se negam a definir. Mas uma coisa resta inequívoca: a primeira tarefa do “socialismo petista” é jamais abandonar o poder.

Movimentos sociais
O partido também aprovou uma resolução para se aproximar ainda mais dos movimentos sociais. A UNE falou. O MST também. Só retórica? Não. Na sua “volta para a esquerda”, podem apostar, o PT vai dar gás — ou grana — para os tais movimentos, sobretudo para que infernizem a vida de governadores de oposição. No plano mais geral, continuará a ser a alma do movimento que reivindica e a mão generosa do estado que libera a verba. Os sem-terra sabem como é. A fórmula é mais ou menos esta: para o PT não fazer muita besteira na economia, aceita-se pagar o preço de sua chantagem, tolerando seus desordeiros de crachá.

De fato, ninguém é tão ético quanto esses valentes.

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