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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura
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O PT real e o PT ideal de um colunista da Folha

Fernando de Barros e Silva, colunista da Folha, de quem divirjo quase sempre — e, obviamente, a recíproca é verdadeira — escreveu hoje uma coluna quase inteiramente correta (segundo os meus valores, é evidente) sobre a entrevista que a presidente Dilma Rousseff concedeu à jornalista Patrícia Poeta, que foi ao ar no domingo, no Fantástico. […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 10h47 - Publicado em 13 set 2011, 15h40

Fernando de Barros e Silva, colunista da Folha, de quem divirjo quase sempre — e, obviamente, a recíproca é verdadeira — escreveu hoje uma coluna quase inteiramente correta (segundo os meus valores, é evidente) sobre a entrevista que a presidente Dilma Rousseff concedeu à jornalista Patrícia Poeta, que foi ao ar no domingo, no Fantástico.

Fazendo um trocadilho com o nome da entrevistadora, Silva trata Dilma, desde o título, como “A poeta do toma lá, dá cá”. Ele acerta na leitura, que também foi a minha, segundo a qual a presidente não negou esse expediente; ao contrário, tentou justificá-lo, transformando-o, aí sustento eu, numa espécie de teoria do poder. Muito bem! Mas Fernando comete um erro —  ou incorre numa leitura de cunho ideológico, não sei — tão bárbaro quanto importante. Tal erro está na raiz de alguns dos males da política brasileira. Reproduzo em vermelho um trecho de seu texto e comento em seguida:

A política brasileira está estruturada na base do toma lá, dá cá. O lulo-petismo universalizou a fisiologia que um dia quis enfrentar. A base aliada está repleta de saqueadores do bem público. Essa é a argamassa que lhe dá coesão. Combater essa gente a quem o PT se mistura com gosto não significa demonizar a política, mas o contrário.

Comento
Numa primeira mirada, parece uma constatação, digamos, combativa do óbvio, o que fazemos todos nós: a fisiologia, parte importante da corrosão do caráter da vida republicana, é evidente, e os saqueadores estão aí, à vista de todos. Cadê o erro? Atenção para isto:
“Combater essa gente a quem o PT se mistura com gosto não significa demonizar a política, mas o contrário.”

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Epa! Como é que é? Quer dizer que o problema está no fato de o PT “se misturar” com o que não presta — e em fazê-lo com gosto? Estaríamos, então, diante de uma dessas misturas heterogêneas, como água e óleo, de modo que se podem distinguir as características de cada componente? Se é ela que faz mal ao país, devemos supor, Silva, que um PT puro-sangue — puro-óleo ou pura-água — seria uma resposta aceitável? Devemos, então, concluir que os petistas têm um padrão moral e ético mais elevado, rebaixando-se quando se juntam aos patriotas do PMDB, do PR ou do PP?

Com essa frase, a crítica que Silva faz a Dilma se dilui. No fim das contas, eles pensam a mesma coisa: há os puros do PT e os impuros das legendas da base aliada. A discordância estaria apenas num particular: a presidente, a exemplo de seu antecessor, acha que é preciso se juntar a essa gente para governar; o colunista, pelo visto, acredita que não. Mas ambos concordam na caracterização das personagens.

Erro ou ideologia, tanto faz à luz dos fatos, isso é obviamente falso. Silva vê, por acaso, alguma incompatibilidade entre José Dirceu e, deixem-me ver…, Valdemar Costa Neto? Silva acha que as ações de um Michel Temer, vice-presidente da República, são mais deletérias para a democracia do que as de um José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras? Acredita mesmo que o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), consegue piorar, por exemplo, a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais)?

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Diga-me cá, ó Silva: os petistas eram os bons selvagens de Rousseau, que se mantinham puros, exercendo seu oposicionismo desinteressado, sem quaisquer articulações com os vícios da vida pública, e acabaram se corrompendo na convivência com “os outros”? Quer dizer que são seres mesmo de outra natureza ou que preservariam uma natureza original, essencialmente boa, a ser recuperada desde que apartados do convívio com as más companhias? Foram os decaídos que arrastaram o petismo pra sarjeta? Ora…

Ainda voltarei a esse tema porque o “petismo do bem” será o núcleo da marquetagem de Fernando Haddad caso se candidate mesmo à Prefeitura de São Paulo. Bem, ao contrário de Silva — e o digo com aquela clareza que não dá chance a dúvidas — , considero a natureza original do PT, que conheci de perto porque fui filiado ao partido, ainda pior do que essa viciosa. Lá estão as sementes do corporativismo (é fato, Silva, devidamente documentado), do autoritarismo, da intolerância, do desprestígio ao jogo democrático — falo, é evidente, como um partidário da democracia, numa sociedade de mercado.

Ousaria ir ainda mais longe na divergência com Silva: por incrível que pareça, a turma do “toma-lá-dá-cá” melhorou um pouquinho o partido. Ao menos o fez ver que não pode governar sozinho, como um ato de vontade apenas. Para não ir longe: quem tenta censurar a profissão exercida por mim e por Silva é o PT dos puros, não o PMDB dos impuros.

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Entre o assalto ao bolso e o assalto à liberdade, parceiro Silva, rejeite os dois. Mais: avalie se o assalto ao cofre público em nome da causa não consegue ser mais deletério do que aquele praticado pelo vagabundo que só quer enriquecer. Este se aproveita do ambiente corrompido; aquele corrompe o princípio; este faz da ladroagem um meio de vida; aquele tenta transformá-la num tributo necessário do vício à virtude; este se sabe um larápio, aquele se quer um reformador; este deixa, no máximo, uma herança aos seus; aquele  deixa uma herança, esta sim maldita, a um povo.

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