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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura
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O ombudsman da Folha e o “mau-cartismo”

Marcelo Beraba, ombudsman da Folha, também gosta de costurar pra fora e analisar outros veículos. Deve fazer parte do seu contrato. Uma das primeiras conseqüências desse procedimento é que os pitos que passa no jornal que lhe paga o salário — quase sempre concordo com o jornal, e não com ele, diga-se — ficam um […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 23h05 - Publicado em 22 out 2006, 03h20
Marcelo Beraba, ombudsman da Folha, também gosta de costurar pra fora e analisar outros veículos. Deve fazer parte do seu contrato. Uma das primeiras conseqüências desse procedimento é que os pitos que passa no jornal que lhe paga o salário — quase sempre concordo com o jornal, e não com ele, diga-se — ficam um tanto diluídos. No texto deste domingo, comete uma grande bobagem: compara as capas Veja e Carta Capital da semana passada e chega à conclusão de que ambas são precárias, porém com sinal trocado. Ou, nas suas palavras, “os dados que tinham exigiam mais apuração. São, as duas, exemplos, com vieses opostos, de um mesmo modelo de jornalismo”. Não são!

Só para refrescar a memória do leitor. A Veja trazia na capa as palavras “Limpeza de alto risco” e remetia a uma reportagem que demonstrava como o Planalto atuava para tentar apagar as pegadas de Freud Godoy na tramóia do dossiê. A da Carta Capital estampava: “A trama que levou ao segundo turno”: divulgava trechos da conversa do delegado Edmilson Bruno com os jornalistas ao vazar o disquete com as fotos da dinheirama do dossiê.

Beraba está errado. Começa o seu texto dizendo que mais de 250 leitores se manifestaram na semana sobre as eleições. Só na sexta, recebi 5.100 e-mails. Neste sábado, escrevi apenas dois textinhos. Mesmo assim, recebi 2.100. Amostragem por amostragem, a minha é bem maior. E isso não quer dizer nada. Você pode estar absolutamente certo ou absolutamente errado mesmo sem companhia. Prossigo.

Veja fez jornalismo; Carta Capital só exercitou uma teoria conspiratória; Veja não adulterou o material apurado para sustentar uma tese; Carta Capital, sim; os fatos posteriores à edição de Veja lhe dão razão; os fatos posteriores à edição de Carta Capital a desmoralizam. Ao dizer que são manifestações do mesmo jornalismo com sinal trocado, Beraba acaba assumindo o lado da Carta Capital. Sempre que se é igual com desiguais, o pior sair ganhando.

VejaPensemos. Com base, entre outras informações, em depoimentos de três delegados, Veja informou que Freud Godoy e José Carlos Espinoza foram visitar Gedimar Passos na Polícia Federal em São Paulo: visita secreta e ilegal. A revista tem segurança da veracidade dos depoimentos porque pôde constatar conversas que demonstravam que ele havia acontecido. E listava outros fatos que evidenciavam o comprometimento do alto escalão do governo na operação-abafa. Mas não só. Informava Márcio Aith: “No encontro no apartamento de Espinoza, Freud e o tesoureiro [Paulo] Ferreira conversaram sobre dinheiro e sobre como ele, sempre ele, poderia manter a calma dos implicados de modo que não se sentissem tentados a envolver gente mais graúda no PT e no governo.”

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Pois bem, na quarta-feira, dia 18, Rubens Valente escrevia na Folha: “O tesoureiro do diretório nacional do PT e coordenador de infra-estrutura da campanha do candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Paulo Ferreira, reuniu-se com Freud Godoy, ex-assessor especial da Presidência, após o depoimento que este prestou à Polícia Federal sobre a tentativa frustrada de compra de um dossiê contra o governador eleito de São Paulo, José Serra (PSDB). A reunião ocorreu no apartamento de José Carlos Espinoza, 52, ex-chefe do Gabinete Regional da Presidência da República em São Paulo e um dos mais próximos assessores de Lula nas campanhas anteriores.” O encontro pode ter ocorrido na noite da visita à PF. Segundo os delegados, Freud estava acompanhado de dois homens. Depois foi a vez de o Estadão informar uma terceira reunião, aí entre Freud, Espinoza e outro assessor especial de Lula, Rogério Aurélio Pimentel. Finalmente, sabemos que, na noite das prisões, o chefe de Gabinete do presidente, Gilberto Carvalho, falou com Jorge Lorenzetti, apontado pela PF como um dos chefes da operação. Dias antes, o churrasqueiro presidencial falara com José Dirceu.

Em tempo: a reportagem de Valente, que corroborava a operação-limpeza, não mereceu chamada de primeira página na Folha, embora fosse, de longe, a coisa mais importante do dia. Beraba não percebeu a falha ou concordou com a opção feita pelo jornal. Preferiu comentar outros assuntos.

Que bom para o Brasil que Beraba é ombudsman da Folha e não um homem de decisão na Veja. Ou ele teria, segundo entendo, amoitado aquela reportagem, prestando um desserviço à verdade e uma serviço ao petismo. Aliás, no mesmo jornal em que Beraba faz o seu mau exercício de jornalismo comparado, lê-se (pág. 2): “A Polícia Federal, tão elogiada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está acusando o presidente-candidato de crime eleitoral”. O trecho é da coluna de Clóvis Rossi.

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Carta Capital
Carta Capital tinha um depoimento na mão e uma tese na cabeça: “Segundo turno é golpe. Temos de prová-lo”. Pegou a gravação da conversa do delegado Edmilson Burno com os jornalistas e cortou o que não interessava para provar o que queria: a Rede Globo empurrou a disputa para o segundo turno. O delírio chega a tal grau que a emissora é acusada até de ter subestimado a tragédia com o avião da Gol para superestimar a divulgação da foto do dinheirama. É pura delinqüência intelectual.

Não há apuração lá. Beraba é livre para afirmar a besteira que quiser, especialmente porque, como se vê, deixa-se patrulhar por 250 leitores. Para atacar a Veja, omite uma reportagem publicada pela própria Folha; para proteger a Carta Capital, omite texto de Ali Kamel, publicado no Observatório da Imprensa, que faz picadinho da suposta reportagem de Carta Capital. Beraba pode não gostar do jornalismo da Veja, outro direito seu. Mas incorre em ignorância ou má-fé quando compara uma reportagem com um panfleto movido por delírio conspiratório.

Costumo achar, e aí é direito meu, que as análises de Marcelo Beraba, na maioria das vezes, são filopetistas. Desta vez, não foi diferente. Mas ele faz isso sem ousar dizer o nome do que pratica. É o seu “viés”. Ao fim do segundo parágrafo, por exemplo, diz considerar “irresponsável” a acusação de que a grande imprensa seja “participante de um golpe”. É mesmo? Pois é justamente essa a tese da Carta Capital — que não se considera “grande imprensa” (e, com efeito, não é mesmo, em sentido amplo…). Ao afirmar que um delírio “mau-cartista” é só o “viés oposto” de uma reportagem amplamente comprovada pelos fatos, o ombudsman faz a opção preferencial pelo “mau-cartismo”.

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Berba é ombudsman dos outros. E eu não sou ombudsman do Beraba, hehe. Só voltarei a ele em edição extraordinária. Se um ombudsman é uma espécie de “remédio” contra o mau jornalismo, “quem remedeia os remédios?”, já perguntava Padre Vieira.

Que seja eu!
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