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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura
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O “Eu-Gênio” Bucci e os “Eles-Gênios” do estatismo

Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, entre 2003 e 2007, e atual professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da USP, ajudou a implementar a Lula News, como chamo a TV Pública. Ele é assim uma espécie de face civilizada de Franklin Martins; é a Tereza Cruvinel com bilioteca; é o stalinismo exibido na sala de […]

Por Reinaldo Azevedo
Atualizado em 31 jul 2020, 20h06 - Publicado em 9 dez 2007, 10h34
Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, entre 2003 e 2007, e atual professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da USP, ajudou a implementar a Lula News, como chamo a TV Pública. Ele é assim uma espécie de face civilizada de Franklin Martins; é a Tereza Cruvinel com bilioteca; é o stalinismo exibido na sala de visitas; é a face doce e caroável do autoritarismo. “Eu-Gênio” concede uma entrevista ao Estadão deste domingo. Seguem abaixo alguns trechos, em vermelho, com interferências minhas, em azul. A íntegra para assinantes está aqui.

Como o sr. vê a montagem de uma nova rede de radiodifusão pública, a TV Brasil? Ela é necessária?
Vou responder em dois níveis. Um conceitual e outro mais prático. Conceitualmente, uma democracia precisa de uma forma de radiodifusão que não seja comercial. O espaço público, se dominado por formas de comunicação apenas comerciais, corre o risco de não ter como dar vazão a temas que não são economicamente interessantes, a conteúdos economicamente inviáveis. Um exemplo: se a TV Cultura, de São Paulo, ficar presa apenas àquilo que é lucrativo, jamais vai ter programas com orquestras sinfônicas. Esse gênero de música não tem muito apoio. Enfim, é necessária uma complementaridade entre o público e o comercial.
Está pratica e conceitualmente errado. A aspecto comercial da radiodifusão é só a sua forma, não o seu conteúdo. Se é feio ou imoral produzir informação e entretenimento numa empresa que dê lucro, por que seria moral produzir leite num laticínio lucrativo? Nesse caso, o governo deveria criar a “Leitebras”? Quanto às orquestras sinfônicas: cabe à TV Cultura patrociná-las? Para que público? É pela TV que se pode apreciar o apuro de uma orquestra? E se ninguém assistir?

E a questão de ordem prática?
Não vejo sentido em perseguir um sonho de TV pública. É preciso que se trabalhe pela construção de um sistema de comunicação que conjugue rádio, TV e, sobretudo, internet. O sonho da TV pública é um sonho de 50 anos atrás, quando a Europa sai da Segunda Guerra debatendo de que forma o espaço público poderia ser protegido da colonização promovida pelo mercado e pelo capital.
O quê? Colonização promovida pelo capital? Sem essa colonização, qual seria a boa vida “selvagem”, “nativa”? Notem a questão da Internet: é aí que está o busílis. O governo está querendo aparelhar a rede, uma área em que perde feio. E quer fazê-lo com o nosso dinheiro.

Um dos principais focos do debate em torno da nova emissora pública é o temor do controle e da manipulação do conteúdo.
Quando alguém fala no risco de manipulação ou de uso político da comunicação pública no Brasil, eu digo que isso não é um risco, mas a regra. Sempre aconteceu. Tradicionalmente, as instituições públicas de radiodifusão são uma espécie de reserva ecológica do patrimonialismo. (…)

Sei… Aí, Eu-Gênio teve uma idéia: por que não a gente ampliar o espaço em que, então, esse patrimonialismo pode ser exercido? Genial…
(…)
A Cultura de São Paulo se encaixa nesse padrão?
Sempre existem exceções. A TV Cultura é responsável pelas melhores produções da TV pública no Brasil. Por quê? Porque teve momentos de autonomia de gestão, de independência. A TV Cultura tem um conselho com garantias formais de autonomia. Embora seja vulnerável a pressões do governo, esse conselho, pelas suas regras de funcionamento, pela maneira como é organizado, consegue ser independente. A Cultura é talvez o melhor exemplo que nós temos hoje de comunicação pública no Brasil.

É a patota se protegendo. Algumas perguntas:
– Quanto custa a TV Cultura aos cofres de São Paulo?
– Qual é o Ibope médio da TV Cultura?
– Qual é a sua real contribuição para a TV brasileira?
– Quantos funcionários por ponto de Ibope têm a Globo e a TV Cultura?
– Ah, claro: Bucci é do conselho da Fundação Padre Anchieta,

Do que viu até agora, acha que a criação da nova rede está sendo conduzida de forma correta?
É evidente que existe a ameaça de manipulação. Mas se ela tiver – como está prometido – um conselho realmente independente, sem uma pauta governamental, é possível que no futuro o País ganhe com isso. Essa possibilidade não está fechada. Vamos esperar.

Conversa! O conselho não é independente porcaria nenhuma. O conselho é uma zona, o que é coisa bem diferente. A única chance de se formar uma maioria ali está no alinhamento de quatro ministros de estado. Ou se espera um debate esclarecedor entre o rapper MV Bill, o economista Delfim Netto e o dono de uma empresa que fabrica carcaça de ônibus? Bucci, por qué no te callas?

Como vê a introdução de anúncios publicitários na programação da Cultura?
Acho um erro, uma concessão estética e prática à lógica da comunicação comercial. A TV pública não deveria veicular anúncios de mercadorias e de serviços como qualquer outra TV comercial. Poderia veicular apoios institucionais, uma fórmula consagrada em vários lugares do mundo.

Eu-Gênio é um dinossauro com casaca pseudo-acadêmica. Se alguém quer patrocinar um programa da TV Cultura, qual é a concessão estética que se faz? Por que precisamos todos pagar por aquilo que não vemos e não queremos?

Ainda a TV Brasil: a idéia de sua criação ganhou corpo com as acusações, feitas pelo PT, de que a mídia distorceu fatos – especialmente na cobertura do mensalão e do dossiê Vedoin – para prejudicar o governo. Em mais de uma ocasião, falou-se na necessidade de uma contracorrente na área de informações. Como vê isso?
Essa é a pior razão do mundo para se construir uma mídia pública. Ela é necessária não porque a
comunicação comercial seja de má ou de boa qualidade, mas por ser de outra natureza.
O moço é esperto.

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Acha que a mídia errou na cobertura dos episódios citados?
Existiram momentos de infelicidade na cobertura, mas o pior erro não aconteceu.
Qual seria?
Não ter feito a cobertura. Podem ter acontecido distorções, preconceitos, julgamentos, mas foi no interior de um movimento correto na sua essência, que é informar o público. A imprensa cumpriu seu dever de apurar, informar e levantar o debate, permitindo que as partes se manifestassem.(…)
Bucci, a rigor, é o mais perigoso de todos os petistas. Porque está longe de ser burro. Ele foge do debate proposto pelos tontons-macoutes do partido: “Ah, essa mídia comercial e de direita distorce tudo”. Não, ele não entra nessa. Até porque a empresa privada sempre foi muito simpática a seu stalinismo estofado e com ar condicionado. Como a gente vê, ele não quer uma TV Pública por motivos reativos, reacionários mesmo. Não! Ele opta pelo caminho propositivo. Ele a quer em nome de um certo interesse público, um tanto difuso, mas certamente alheio aos interesses do capital, essa coisa meio suja, que conspurca tudo..

Comecei meio tarde no jornalismo, aos 25 anos, em 1986. Sempre exerci o chamado “cargo de confiança” — até chegar ao estágio atual, em que puxo a minha própria orelha. Engraçado! Acho que, na verdade, nunca fui de confiança!!! Nunca ninguém me chamou pra fazer uma sacanagem contruztrabaiadô. Fui editor-adjunto de política da Folha. Depois fui coordenador de política da Sucursal de Brasília do jornal. Sempre ali, torcendo pelo momento em que Otavio Frias Filho me pediria um atozinho conspiratório que fosse contruzinteressepopulá. E nada! E olhem que a Folha já publicava anúncios naquele tempo… Depois fui redator-chefe de revistas, diretor de redação. Virei até dono de uma. E não há um só profissional que possa dizer: “Huuummm, esse Reinaldo…” Não sei que diabos Eu-Gênio andou fazendo vida afora. Eu sei que me comportei na Folha, na República, na BRAVO!, na Primeira Leitura como me comporto agora na VEJA: ignorando as páginas de anúncios. Só me interessava por elas quando tinha de fazer o espelho da revista. Sim, claro, na VEJA, isso deve dar um trabalho louco. Basta folheá-la. Em algumas outras, a tarefa já é mais simples: basta distribuir as paginetas de algumas estatais, não é?

Não, eu não vou cair nessa conversa cheia de glacê de Eu-Gênio. Eu continuo interessado em saber quanto custa ao distinto público cada ponto do Ibope da Lula News e cada ponto do Ibope da TV Globo. De resto, observo a Eu-Gênio que o estado e o governo não produzem receita, só despesa. O dinheiro que sustenta a tal TV Pública, amigão, continua, na sua origem, privado. Claro, claro, você até pode dizer que ele não tem a função perversa de gerar ainda mais dinheiro. É verdade: os recursos são esterilizados pela clandestinidade da programação.

É assim que os “Eles-Gênios” do estatismo sufocam o país.

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