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Reinaldo Azevedo

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O Egito é um sonho do Ocidente tornado um pesadelo da vida real

Uma nova leva de mortos no Egito. O governo admite, por enquanto, 235 mortos. A Irmandade Muçulmana mais em até 2 mil. O país é um sonho do Ocidente tornado um pesadelo para os… próprios egípcios; é a Primavera da ilusão ocidental tornada o inverno da realidade muçulmana. Três golpes se sucederam no país: a) o […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 05h37 - Publicado em 14 ago 2013, 14h00

Uma nova leva de mortos no Egito. O governo admite, por enquanto, 235 mortos. A Irmandade Muçulmana mais em até 2 mil. O país é um sonho do Ocidente tornado um pesadelo para os… próprios egípcios; é a Primavera da ilusão ocidental tornada o inverno da realidade muçulmana. Três golpes se sucederam no país: a) o militar que derrubou Hosni Mubarak e que contou com a adesão da Irmandade Muçulmana e de partidos laicos; b) o civil-religioso, pela via constitucional, dado pela Irmandade Muçulmana; c) o segundo golpe militar, contra os religiosos, apoiado pelas organizações laicas.

Estamos de volta ao começo. Existe para o Egito uma alternativa entre a ditadura religiosa, ainda que abrandada, e a ditadura militar, ainda que igualmente abrandada? Ou por outra: existe alguma chance de democracia no país, como se chegou a sonhar mundo afora? Caso se realizem eleições tanto quanto possível livres (já explico a razão da minha dúvida), os partidos religiosos, com a Irmandade Muçulmana à frente, voltarão a ter entre 60% e 70% dos votos. E, vamos lá, até onde a democracia é o governo da maioria — e esse é um de seus pilares —, é preciso que se entregue o poder aos religiosos.

Ocorre que esses partidos religiosos descobriram que os instrumentos fornecidos pela democracia são os mais eficazes de que podem dispor para liquidar com a democracia. Ora, outro pilar desse regime, tão importante quanto o governo da maioria, é o respeito às minorias; se o primeiro é destruído, o que se tem é ditadura; se o segundo é destruído, o que se tem também é… ditadura. Então se chega à quadratura do círculo, e devemos concluir que egípcios — ou, mais amplamente, os árabes — são geneticamente incompatíveis com a democracia?

É claro que não! A incompatibilidade está no mundo das ideias, no mundo dos valores. A âncora de ajuste, aí, é uma só: chama-se “Irmandade Muçulmana”. Não existe democracia sem valores democráticos, e a Irmandade, dada a sua natureza e o seu objetivo, que é ter um país — leiam os princípios da turma: na verdade, eles anseiam o mundo — governado segundo as leis islâmicas.

A exemplo de quase todas as religiões, também o Islã, nos seus valores gerais, acena para um mundo fraterno, governado pelo bem. O problema é que, à diferença do catolicismo por exemplo, essa religião está submetida a um permanente, se me dão a licença, “aggiornamento para trás”. Explico: essas interpretações buscam sempre resgatar os fundamentos da crença, escoimando os apelos da vida mundana. Ocorre que o regime democrático é, na sua organização e nos seus propósitos, essencialmente mundano. Nas democracias, as religiões podem e devem se manifestar, podem e devem ser ouvidas, mas não são o poder. O papa só é autoridade também civil no Vaticano, um estado sem povo.

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Debati com o amigo a situação do Egito e de outros países árabes. À diferença de mim, ele acata o conceito sobre o qual especulam alguns intelectuais do Ocidente: a “democracia iliberal”, a única que seria possível quando partidos islâmicos se tornam governo. Não reconheço o conceito. Um regime que não permite a livre expressão e circulação de ideias, que reprime minorias étnicas ou religiosas, que invade a individualidade para impor valores de uma crença, esse regime democracia não é. Alterados o substantivo e a substância, o adjetivo — “liberal” ou “iliberal” — é irrelevante.

A última esperança de uma democracia conduzida por um partido islâmico morreu na Turquia. Na semana retrasada, Recep Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro, aplicou a versão supostamente democrática dos “Processos de Moscou”. No caso, os “Processos de Istambul” mandaram para a cadeia mais de 250 pessoas que estariam envolvidas numa suposta tentativa de golpe militar. Talvez um ou outro estivessem ligados a alguma conspiração. O fato é que Erdogan aproveitou para mandar para a cadeia todos os seus inimigos, incluindo jornalistas, escritores e acadêmicos que cometeram o crime de… criticar o regime. Ao reprimir com incrível violência os protestos da praça Taksim, ele alegou justamente… conspiração!

“Então como é que se resolve?” Bem, meus caros, eu não sei como é que se resolve. Se pudesse, eu recomendaria à Irmandade Muçulmana que, vencendo eleições, não procurasse impor um governo de viés religioso, que respeitasse a pluralidade de crenças, que mandasse para a cadeia as hordas que passaram a atacar os cristãos depois da “Primavera”, que não buscasse cassar direitos das mulheres, que não subordinasse a Justiça à autoridade religiosa… Mas acho que eles não iriam me ouvir.

Encerro
Num dado momento, falei em “eleições tanto quanto possível livres” no país. Por que a ressalva? No pleito que levou a Irmandade ao poder, os eleitores eram praticamente conduzidos pelo braço por representantes daquela que é a maior força organizada do país. Os civis e os militares que dividem o poder querem reformar a Constituição e marcar eleições gerais. Um caminho possível talvez seja estabelecer “cláusulas pétreas” — fundamentos que não podem ser desrespeitados — com o poder de destituir automaticamente o governante de turno que tentar desrespeitá-las. Tal garantia, evidentemente, só pode ser dada pelas Forças Armadas. Mas pensem um pouquinho: em que democracia ocidental não é assim? Levo o argumento ao extremo: se um presidente brasileiro atentar contra a integridade do território nacional (quiser dividir o país ou, sei lá, vender para um resort Fernando de Noronha) e se contar, para isso, com o apoio do Congresso e da maioria do povo brasileiro, ainda assim, ele não o fará se os militares não quiserem.

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